| Soneto
A voragem do tempo não descansa
E dentro do meu peito se enovela.
Como a vaga que a túrbida procela
Agita doidamente em cruel dança.
Considero o passado ... e da Esperança
Vejo a barca fugir a toda vela,
Sem bússola que seja, nem da estrela
Matutina chamada e de bonança.
E a estrela se desdobra e se acrescenta
Porém, nessa tristeza grande e funda
De quem perdeu o riso que aviventa;
De quem bebe uma lágrima que desce
E o seu rosto de mármore lhe inunda,
Pois o lábio se esquiva mesmo à prece.
Almas irmãs
Partiste! E após teu rasto, dolorida
Foi-se minh'alma a te seguir os passos,
A dor, as mágoas, os letais cansaços,
Tudo afrontou, serena e destemida.
Se cansa, refugia-se em teus braços.
Sofre? Teu coração lhe dá guarida.
Desfalece? Em teus olhos bebe a vida
Que vai fugindo dos seus olhos baços.
Nunca, nunca estás só no lar deserto!
Por mais que faças, tens-na sempre perto;
Sabe o que pensas, ouve o que perguntas
E se fundiu com a tua de tal sorte
Que só desejam ambas, num transporte,
Viver se amando, eternamente juntas.
A noite cai
A noite cai, nostálgica, sombria,
triste como um adeus - por sobre a terra.
Que fundas mágoas, que mistério encerra
seu pranto feito de geada fria!
Noiva do sonho a demandar um beijo
erra, por entre as nuvens sonolenta;
segue-lhe os passos, nessa marcha lenta,
das estrelas o pálido cortejo.
Aos dúbios raios do luar, parece
uma viúva envolta em crepes, quando
pelo Ausente adorado, ergue uma prece.
E eu penso que é minh'alma disfarçada
em noite que, no espaço, anda vagando,
num manto de agonias rebuçada. |