| ESCREVE
E se te oprimem,
E te negam o pão,
Te impõem calabouços,
Te decepam o não.
Sonegam sorrisos,
Te vedam e te vetam,
Te marcam a ferro
E te jogam nas valas,
Te mandam às galeras,
Te cortam e te expõem,
Retalhos nos postes,
Ceifam o que supões,
Te matam as crianças,
Defloram-te a mãe,
Desmancham-te o nome
E a casa em que moras.
E te enforcam o berro,
E enterram a idéia
E sendo já nada,
Se sobram tuas mãos,
E caneta e papel
E uma nesga de luz...
Taca versos neles, poeta!
CANTIGA DE LÁ
Maninha sempre cantando
Pro menino sossegar.
Passarim vinha de longe,
Vinha de longe espiar.
Passarim que não ousava
Aprender tal gorjear,
Babava toda a cantiga
Té Maninha terminar.
Dizem que não há mais canto
Naqueles cantos de lá...
Bobagem! Quem não se lembra?
Quem se lembra há de cantar.
PARA ACALMAR O MEU AMOR
Não tenha medo
Que não te farei sonetos.
FAZER MEU POEMA
Tenho que singrar minhas entranhas,
ir ao sul do mais longe de mim,
capturar qualquer pó,
qualquer cisco que for,
qualquer palavra que possa nutrir!
Tenho que assentar, que fluir
no fluxo e refluxo das minhas ondas,
as tripas do meu verso,
a energia que irradiam minhas cataratas lúcidas
ou amalucados jorros,
feito vômito ou paixão;
verter sempre!
PROCISSÃO
Meu verso tadinho
pelado na chuva
faz frio que só
ninguém dá lençol.
Tem febre o neguinho
o céu nem aí
desaba suas águas
meu verso: "que fri!"
Sabendo o danado
que não dá abrigo
juntou os farelos
de forças e já vai.
Morrerá decerto
com tanto sofrer
mas verso que é verso...
inda raia o sol!
Sentei-me em poltronas
deixei que ele fosse
não sei o que foi
que ele aprontou.
Saiu cabisbaixo
inda não voltou
tou juntando outro
pra ir trás do irmão.
TRÉGUA
Um olho marginal
No meu poema
Torceu o nariz,
Mas leu.
Meu medo de soar,
Meu grito afônico,
Marginais canônicos,
É meu.
Amo todos vós
Pelos vossos recados,
Pelo desmantelo
De vossos cabelos.
Pelas vossas vozes
Ou grilhões quebrados,
Ou realidade
Do triste que sois.
Amos vossos sérios,
Vossas brincadeiras,
Mas minha poesia
Não cabe em bandeira.
Quisera ser um
De vossas vanguardas,
Mas a barba feita
E a camisa limpa...
Deixai que eu busque
A minha poesia
E como ela venha
Eu assente.
Dai-me vossos enjôos
Mas não me vomiteis.
Sejamos bons vizinhos
Que há versos boiando.
A cada um seu verso,
E sejamos lindos
Pois cabemos todos.
Há versos boiando.
Não dormi na rua.
Não fumei maconha,
Nem aparento ser
O poeta que sou.
Mas louvo vossos corpos
E espíritos e jeitos.
Aceitemo-nos quites
No nosso imperfeito.
UMA PEQUENA SAUDADE
Cajueiro do Grupo Virgílio Távora!
Já morreste decerto,
Mas foste imponente
Quando eu era gente!
Era cada bitelão...
Era tanta solidão...
À sombra desta saudade
Vai-se um gole de tristeza.
Cajueiro paraplégico,
Suavas em nossas mãos!
Mal florias, mãos vorazes
Malinavam teus encantos.
No cantinho do Virgílio,
Sujeito à criançada,
Cajueiro, foste um verso
Que não amadureceu!
Caju que nunca foi doce,
Castanha de assombração,
Menino triste é danado
Pra ter saudade das coisas.
A DESPEITO DE TUDO
Jesus, como eu daria tudo por uma vitória!
A honra, o país, como eu daria tudo!
Mas esta coisa que me viaja o sangue,
Os meus litorais;
Esta lacraia que me percorre e insulta
Não há de ser o que preste.
O que presta tem nome ou não tem nome,
Mas presta na primeira sensação
E a todo instante.
Eu daria tudo por ganhar.
Mesmo o país, o meu tão amado, eu daria...
Mesmo a honra ou 30 dólares;
Mesmo as Dolores Durans
E seus 30 mil boleros bem contados;
Mesmo Sambaqüim recitando Carlos Pena inflacionado;
As minhas notas e manuscritos carcomidos...
Eu daria o meu escudo do Náutico!
COMPLETANDO A PAISAGEM
Meu desejo é que vocês leiam meus versos
sentados pachorrentamente,
na varanda de suas casas,
nas tardes sem compromisso,
quando o sol já desanima.
Meu desejo é mais que isso:
é que vocês, todos vocês,
adormeçam com meus versos
na tarde pachorrenta.
E ainda,
que eles sejam dignos.
Sim,
que sejam dignos do quadro.
SAMBA, SUOR E JESUS
O colibri beijou
a flor de frontal
a flor engravidou
e concebeu o carnaval.
O sol beijou a terra
e cedeu seu clarão,
a terra engravidou
e concebeu o verão.
Jesus parou, matutou,
chamou sua mãe Maroca.
Juntos modelaram o barro
e inventaram o carioca. |