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Wilson Araújo de Souza
(1945 São João dos Patos/Maranhão)

 

 


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ENCANTO GREGORIANO

o que é que o canto diz
do encanto daquele
que nunca dobrou a cerviz?
feito
de ferro
e de flor
flor
de obsessão
comunista
de foice
e martelo
agalopado
acoplado
na internacional socialista
pelo assobio voluntário
e encantatório
de grivaldo Tenório

 

ROCK AND WARHOL

música
de uma contaminação poética

oiticica:
o que faço é música

artista
fazendo colagem musical cubista

cage ao piano
duchampiano

kandinsky in the sky
with velvet underground

som de jazz
em jackson pollock

rock and warhol

 

A UM PASSO DA ALTERIDADE

paciência
de voyeur
e sapiência
de bricoleur
num flâneur
zanzando
e manzanzando
pelos quatro cantos
da alma do outro.
anotações,
rascunhos,
esboços
e fragmentos:
é a obsessão
possessiva
pela dissecação
complexa
das flutuações
do outro.
compulsão
obsessiva
das pontuações
etnográficas
adentra
o outro
pelas coleções
de hábitos
e costumes alheios
sem as sábias
certezas
das convicções
ortodoxas.
é a recepção
do outro
com a percepção
clarividente
de que o evidente
é precário,
efêmero.
o outro,
o mesmo,
mesmo
que a esmo
ou mesmo
ensimesmado
de dedo enfiado
no umbigo
do ego
de narciso
em tarde cinza
de uma viagem
pelo espelho
das múltiplas imagens.

 

AUDIÇÃO EM PROGRESSO

ouvir
dizer
o ver

nas ambigüidades
semânticas
por afinidades
fonéticas

dos escritos
com palavras
de poesia concreta

poesia concreta
de nutrição
dos impulsos

em permanente
he(x)s(c)itação
entre o som
e o sentido

 

BREVIDADE TRANSLÚCIDA

poeta cidadão
do mundo
eterno
de todo dia
de todo dia
dos motivos
da eterna
brevidade
que passeia
translúcida
pela cidade
de todas as misérias
que rolam desabrigadas
nas esquinas
onde vocábulos
tumultuam
com revelações
do repouso
atormentado
pela fragilidade
das paixões desmedidas
em paroxismo existencial

 

BORDÕES DO NORÕES

bordões
bordados
a ferro
no fogo estranho
que reluz
nas entranhas
da noite de são joão
da cruz,
onde, ao sabor
descalço do medo,
o degredo da cor
toma o licor
do segredo
do poema de sete frases
que perambula
pela brisa
sonâmbula,
envolve lâminas
de febre,
esquiva-se da lepra
do silêncio
e da serpente
que dorme no umbigo
do sono,
enquanto o soluço
desata a boca
num grito que desce
entre gerânios
e, de dentro dos gomos,
um lagarto espreita
os passos de DEUS
no centro da dança
que o olhar desviado
para a rota (encabulada)
dos espelhos
não alcança.

 

MILITANTE

metralhadora giratória
do político-poeta em crise
grafita no céu
sobre a terra em transe:
a política e a poesia
são demais para uma só pessoa.
não para marcelo
mário
de melo,
uma pessoa plenária
plena
de ária

 

ÂNUS-LUZ

escória
do corpo?
metáfora
do espúrio?

mesmo doído
de hemorróida,
o cu evacua
nossos podres
como quem
compõe odes.

e o poema? proclama
que o cu é sagrado
e declama
adélia prado:

de tal ordem é
e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima
a sensação de um roubo:
CU É LINDO!

 

SAGACIDADE

com o cacife
da cidade
do recife,

pernambuco é osso
é ossobuco!

com a sagacidade
da saga
da cidade,

pernambucano é osso
é osso de tutano!

 

LUA BADIA

se essa lua
fosse minha
eu mandava
ela brilhar
no céu da noite totem
dos tambores silenciosos

catarse!
catar-me nos bumbares
dos tambores

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

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