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Weydson Barros Leal
(1963 Recife/Pernambuco)

 

 


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A SEMANA

Devemos amar quando crianças.
Quando verdadeiramente somos
O medo e a solidão, a alegria e o contentamento
Em coisas demasiado simples, como
Parcerias em jogos de cartas, doces, guardados,
A vizinhança em assentos públicos.

Na idade adulta não se deve amar.

Não sabe o amor a idade da razão
Onde em si não cabe com o instinto animalesco da pureza.
Dizemos amar num tempo em que há o punho da sobrevivência,
Mas o amor não distingue a fome, e uma cegueira
Não alimenta o mesmo corpo que o pão corrói.

Amamos por piedade, por chão,
Amamos em agradecimento,
Amamos por pena, por cura, por limites,
Por precisão.
Amamos em detrimento, em culpa e abnegação;
Dizemos amar por paixão
Quando amamos em número,
E ávidos permanecemos escutando moedas e dentes
Em cerimônias e jornais.

Amamos por paz e por guerra,
Amamos por ódio, por reclusão,
Por definhamento e morte.
Somos amantes do companheiro, que é vão
Entre a arte e a solidão dos que só amam.
Amamos o medo que não nos deixa ficar sós,
E amamos as pessoas absolutamente sós, sós por nós
E que não tenham mais ninguém
A não ser os frutos do nosso conhecimento.
Buscamos amar o futuro e o passado -
Perseguimos o passado - e ambos não existem
Se o amor é onde e quando eternamente: amamos a vida -
A morte é a solidão desenvolvida.

Amamos sempre em 3ª. Pessoa,
Quando nosso cego propósito é um aniquilamento
Em nome de todas as formas verbais -
Amamos quando somos cegos.
E as vidas, como os amores e as mortes -
O amor e a morte são próximos
Como o ódio e a paixão -
Sempre acompanhadas de ritos e cerimônias ridículas,
Seguem pelas ruas a distribuir flores
E cartões de seasons.
Amamos quando estamos infinitamente doentes
De uma morte que se recupera - o amor é queda
E levitação.

Sejamos mais novos,
Envelheçamos como quixotes que geram sonhos e ilusões -
O amor é isto.
E não saberemos viver outra vida sem morte
Como não se cai sem estar de pé,
Como não se vê o sol sem estar de pé,
Como não se deve dizer como
Acabam os poemas,
Como findam as penas,
Como findam o amor e a semana,
Ou como ambos se renovam.

 

PONTE DA BOA VISTA
Mural de Francisco Brennand

Esta ponte não se curva
ante o império do rio.
São braços, varandas de ferro,
que em seu passeio se erguem...

De longe,
a ausência do arco
une um lado a outro lado -
trança de espelhos
que no espaço se inscreve.

Grade que guarda o passado,
gaiola aberta
peneirando a paisagem,
da rua Nova à Imperatriz,
a menor distância é a sua passagem.

Ponte do rio,
das gentes, dos carros,
da visão de imensas flores:
arte de um céu que nos invade.

NOITE

Docemente o tempo soava, ela contou como a noite que habitava seu corpo.

(as meninas choram quando perdem teorias, os meninos também criam teorias, as meninas e os meninos choram)

Não sei se agora é acordada a menina, pareceu mulher.

Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura, não voltará a vê-la o beijo que imaginei...

Pintamos o outro com o que chamamos afinidade - ela falou -
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicidade - lhe falei.

(há os olhos e os dentes por se tocar - a música dos gestos é sempre incerta como os corpos - esta sinfonia de cores e de líquidos...)

É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.

É assim sua teoria.

 

 

Fonte:
Jornal de Poesia

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos