| LEMBRANÇA
as flores alaranjadas de que não sei o nome
(sempre-vivas, margaridas, bem-te-queros ?
existem flores chamadas bem-te-queros ?
se não existem, deveriam existir. eu mandaria
ramalhetes de bem-te-queros à minha amada
com um bilhete dizendo assim: bem-te-quero !)
mas as flores bem cuidadas no canteiro
bem cuidado do jardim bem cuidado do convento
das freiras em Triunfo, Pernambuco -
mas as flores, enfim, e eu era criança
e é um mistério termos lembranças.
Nem todos os poemas se editam:
alguns não servem pra nada
além da distração do autor.
foram simples tentativas
sumirão sem ser notados
sementes que não vingaram
ovas que não germinaram.
não terão fortuna crítica
nem aplauso, e nem vaia
enfim, re nulla, não mais.
E quanto aos que se publicam:
por que haviam de ter
serventia que não fosse
a sua só existência ?
Os poemas são assim -
bastam-se a si, nada mais
o que não é pouca coisa
no mundo em que, aliás
tanta inutilidade
bem polida e embalada,
passa por ser necessária.
O poema pede uma flor
mas agora não há flores
e o tempo é um cardo
cheio de espinhos.
O poema medra a medo
achacado pelo tempo.
O sol resseca o poema,
os homens o apostemam.
O tempo não quer o poema,
que germina à revelia.
RESERVA INDÍGENA DE DOURADOS, BRASIL,
2005
Na reserva de Dourados
não há ouro, nem há prata
antes matas, hoje mortes.
Das mortes que são possíveis
nenhuma é tão vergonhosa
quanto a que mata de fome.
Das mortes que são de fome
nenhuma é tão aberrante
quanto a que mata crianças
(não que gritem, as crianças
pelo contrário, nem choram
mantêm-se de olhos secos
pra mostrar, com tal secura
e ver melhor, secamente
a aridez que as mata).
Na reserva de Dourados
não há ouro, nem há prata
antes matas, hoje morrem
de fome, de inanição
de ausência e sequidão
os pequenos curumis. |