| SONETO DA SOLIDÃO
Um homem e sua solidão. Nua,
a escura angústia. E o vário sonho e o intento -
puro logro do tempo, flor de lua,
ressonância do vago alumbramento.
Lento, o frio do tédio se insinua
como no amor a morte: lento e lento.
(Sombra que pela sombra continua,
quem o sonha, no fim? O esquecimento.)
Ânsia do eterno: ó Deus! ó nada! Claro
enigma de existir: em sim e não
o dilema do ser, fosso e anteparo.
Semente a apodrecer em céu e chão,
ou hóspede do tempo em mundo avaro
- quem vive? O homem e a sua solidão.
SONETO DOS PAPÉIS ANTIGOS
Esses velhos papéis... Ah, quanto dói
rasgá-los!
Contraponto do gesto, um vago pensamento
projeta por igual o dilaceramento
nas estruturas da alma, em íntimos abalos.
Sobe de cada folha um secreto lamento
de casa morta, em seus misteriosos estalos
na paz da noite escura; e tudo é sentimento:
segredos, solidões, espantos, medos, halos
de exaltado louvor. Apagam-se as paisagens.
Faz-se olvido e silêncio o painel das imagens
na branca superfície onde os sonhos arderam.
Mas o gesto detém-se ante as cartas antigas,
se o tempo emudeceu suas vozes amigas
e a morte imobiliza as mãos que as escreveram.
CANTO DE EXALTAÇÃO A JOAQUIM
CARDOZO
I
Sob o signo estrelado agora estás calado,
memória imensamente. E, entanto, dir-se-ia
que o sal de teu saber, em rio e mar formado,
é síntese e legado, é fonte e alegoria.
Fundiste espaço e tempo em luz e geometria,
o amanhã e o passado. Em teu ritmo pausado
humilde foste, e raro: o que tudo sabia
do poema, e seu mistério, e seu rito encantado.
Mais: ouviste o Irmão Povo e a dor de seu
lamento,
e deste nome à chuva, e comandaste o vento.
Tua leveza de anjo, as tuas frágeis pernas...
Preciso como o esquadro e, como o prumo, exato,
morreste? Não morreste. O verbo anula o fato:
no silêncio final soam vozes eternas.
II
Matagais de jurema, o teu chão de fadigas.
Sob o azul céu nordeste, alto e fino caminhas,
quando a luz matinal incendeia as espigas,
ou a morte do sol comove as andorinhas.
Várzea. Tracunhaém, Tramataia: aonde
sigas
há rastros de teu canto; e das terras vizinhas
à tua estrada irreal, sob o teu verso abrigas
o esplendor tropical das areias marinhas;
e as folhas cor de vinho, as folhas cajueiras,
caravelas que viste em verde mar distante,
aço de sol a arder na flor das ingazeiras...
Imagens de teu mundo, eterno no que dizes,
ecos do que foi teu, noitemente constante
nesse clamor profundo, a subir das raízes.
III
Era a nuvem mulher, paira/passando, leve.
Era o verdor vivaz de arbitrárias fronteiras.
Era a moça na rede, a bela!, e aquele breve
sonho do claro mel em flores forasteiras.
Era o agudo estalar dos relhos de almocreve.
Era o pranto rural, a gemer nas esteiras.
(Pôr o sangue da vida em tudo o que se escreve
foi o teu alto exemplo.) Era o amor das rameiras.
Era a paz da humildade em quietos arrabaldes:
papoula e bogari, cravina e resedá,
bens de pobre, a florir lama e pó, sobre os baldes
dos viveiros/marés de ágeis peixes
brilhantes.
Era o branco da linha, e a renda que lhe dá
graça e forma, ao crescer sob os bilros cantantes.
IV
A poesia do cais; os noturnos telhados
na terra de morrer; o fulvo flamboaiã;
a pungente visão dos braços mutilados;
o cântico da chuva antiga em telha-vã;
luz difusa a fremir nas curvas da rechã
como um incêndio de ouro; ares maravilhados
da nuvem Carolina - era a amada, era a irmã -
por gestos a chamar-te, asas dos céus velados;
aves bravias, luz campal, covo de estrelas,
e os girassóis da aurora, e as púrpuras jambeiras,
leve flor do terral, em seu vôo miragem:
tudo vive em teu canto e ainda palpita pelas
veredas do sem-fim, nas ondas sorrateiras,
e é luz, é cor, é som. Tudo agora é linguagem.
V
Régua, compasso, regra usaste, embora não
corrigindo a emoção, mas sempre reurdindo
o equilíbrio/harmonia, em que o vazio, o vão
têm a sua função, sombra da luz subindo.
Que viste, pois, na morte? O simples fim infindo.
Mesmo no azul em ponto, a escura antevisão
- partir, disseste, enquanto é noite (ou dia?) -, abrindo
sobre a terra salgada áreas/recordação.
Foi teu o trem mistério. Era a fábula
plástica,
tua álgebra estelar, a aventura fantástica
das galáxias afins; em suprema altitude,
era, trans/figurada, a equação da
verdade:
no AnteDepois da morte, a perfeita unidade
do ser, na solidão da extrema infinitude.
VI
Dormes. Dormes agora, à luz desconhecida
do reino conquistado. E as águas de teus rios
velam-te o puro sono; os seus surtos bravios
têm a força, o milagre, a comoção da vida.
Do efêmero venceste os rudes desafios.
És transcendência, amor, bravura repetida
dos heróis que exaltaste em ode comovida,
ao cantar do Recife as glórias e amavios.
Atenta agora e sempre aos ecos de teus passos,
celebra-te a cidade a arte, a fama, o destino:
atabaque e tambor ressoam junto ao banjo,
a chuva de caju cai no chão de cansaços
e o sopro do terral beija-te o corpo fino.
(Mais puro que um menino, o homem que dorme é Anjo.) |