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Virgílio Siqueira
(1956 Santa Cruz, Ouricuri/Pernambuco)

 

 


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NO POMAR DO ESTRO *

Milhares de vezes
Orvalhei
A rosa do meu riso
Com o meu pranto

Outros milhares de vezes
Despetalei
Com inquietos e indecisos dedos
A rosa do meu desencanto

Fibra por fibra
Teci
Com olhares encharcados de indefinidas luzes
Um sonho tolo
Quimera ingênua
De menino roubando frutas
Do pomar do estro

Fiz-me luzir
Ao embalo de enluaradas redes
Que duvido terem existido

A areia
Onde rabisquei etéreos projetos
Nem movediça era
Que abrisse a entranha
À infantil quimera

O menino
Que tinha os pés sujos do chão
Vestindo rotos trajes de príncipe encabulado
Apaixonou-se por estelares néctares

Através dos olhos
Detectou as almas dos desvalidos
E as habitou
Trazendo para si as marcas do improvável
Os caminhos da dúvida
A perdição das dívidas impagáveis
E a perfeição dos sonhos inatingíveis

Não hesitou
Em invadir territórios sagrados
Dominados por asas precisas e ágeis
Encantado e envolvido
Pela harmonia dos cantos e pelos encantos
Da nobreza de multicoloridas plumas

Entregou-se à essência
De áridos ares
Impregnados de aragens
Que só os homens de corpo e alma
Feitos de couro e de sol sabem aspirar

Um dia
Querendo imitar pétalas
Atirou-se borboleta
Num vôo sem volta

Quem voa por sobre o abismo da busca
Não volta ao porto-seguro da inércia

 

UM QUADRO À MARGEM DO RIO SÃO FRANCISCO *

Nunca vi
Quem tenha visto o rio
Como Celestino
Um dia o viu

Naquele dia
Alma, olhos e mãos
Trouxeram à tela
Exatas formas e cores

O sol
Nunca fora tão explícito
Como naquele momento
Em que, escondido
Por trás da ponte e das nuvens
Explodia em luzes
Ao mesmo tempo
Definidas e intrigantes

Os pincéis
Como que acesos
Em precisos movimentos
Foram a extensão de seus dedos iluminados

As tintas
Preparadas no alquímico engenho
De um coração transbordante de vivências
Realizaram o sonho das tonalidades desejadas

Química
Que se oferecera em sua plenitude
Aos olhos, às mãos e aos anseios
Do homem liberto

O quadro
De textura úmida e luminosa
Transbordava em translúcidas transparências
E em harmonias profundamente belas

Traduzia
Com clareza rara
As marcas de alguém
Que transforma traços, cores e luzes
Em realidade mágica

Um abraço pleno
Em seu sonho de liberdade
Para todos os homens

Nunca vi
Quem tenha visto o rio
Como Celestino
Um dia o viu

 

 

 

VAGA - LUMEAR

Fugir e abusar
de paradigmas
quebrantar
       estigmas
forjar
    enigmas
clarear. . .

Formar figuras
    de elipses
partes escuras
    de eclipses
desvendar. . .

Pisar espinhos
pedras e plumas

Palmilhar
retos e tortos caminhos
noites de minguantes luas
    vaga - lumear. . .

Ver
música por entre folhas
como por entre folhas
      o vento. . .

Vento e folhas
            folhas e vento
lírico enlace. . .

Ver
multi - coloridíssimos
voejantes arcos - celestes
em beija - flores
quando beijam flores. . .

Ser
do indireto
       direto
       objeto
do objetivo
       a seta

Bailar por sobre as palavras
lavrar o chão do poema
       ser poeta

 

SANGRIA

Rasgarei mil noites
pra engolir poesia
sorverei chicotes
no galope à melodia

Virarei mil copos
te amarei mil vezes
marcarei teu corpo
entravarei reveses
pra continuar. . .

Nunca temerei a sorte
- sou noite vadia-
já conheço a morte
amarguei a sangria
no meu calcanhar. . .

Já desvendei teus segredos
já sei dos teus desmantelos
descobri teus desenredos
nos teus mares sem zelos
aprendi a navegar

Tormenta doce vida!

 

Fonte:
* Poetas em Rebuliço
Perfil Contemporâneo da Criação
Poética no eixo Petrolina / Juazeiro
UBE-PE Núcleo de Petrolina
Petrolina 2001

Poética Ribeirinha – Antologia Literária de Petrolina
Elisabet Gonçalves Moreira
UPE - 1998

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