NO
POMAR DO ESTRO *
Milhares de vezes
Orvalhei
A rosa do meu riso
Com o meu pranto
Outros milhares de vezes
Despetalei
Com inquietos e indecisos dedos
A rosa do meu desencanto
Fibra por fibra
Teci
Com olhares encharcados de indefinidas luzes
Um sonho tolo
Quimera ingênua
De menino roubando frutas
Do pomar do estro
Fiz-me luzir
Ao embalo de enluaradas redes
Que duvido terem existido
A areia
Onde rabisquei etéreos projetos
Nem movediça era
Que abrisse a entranha
À infantil quimera
O menino
Que tinha os pés sujos do chão
Vestindo rotos trajes de príncipe encabulado
Apaixonou-se por estelares néctares
Através dos olhos
Detectou as almas dos desvalidos
E as habitou
Trazendo para si as marcas do improvável
Os caminhos da dúvida
A perdição das dívidas impagáveis
E a perfeição dos sonhos inatingíveis
Não hesitou
Em invadir territórios sagrados
Dominados por asas precisas e ágeis
Encantado e envolvido
Pela harmonia dos cantos e pelos encantos
Da nobreza de multicoloridas plumas
Entregou-se à essência
De áridos ares
Impregnados de aragens
Que só os homens de corpo e alma
Feitos de couro e de sol sabem aspirar
Um dia
Querendo imitar pétalas
Atirou-se borboleta
Num vôo sem volta
Quem voa por sobre o abismo da busca
Não volta ao porto-seguro da inércia
UM QUADRO À MARGEM
DO RIO SÃO FRANCISCO *
Nunca vi
Quem tenha visto o rio
Como Celestino
Um dia o viu
Naquele dia
Alma, olhos e mãos
Trouxeram à tela
Exatas formas e cores
O sol
Nunca fora tão explícito
Como naquele momento
Em que, escondido
Por trás da ponte e das nuvens
Explodia em luzes
Ao mesmo tempo
Definidas e intrigantes
Os pincéis
Como que acesos
Em precisos movimentos
Foram a extensão de seus dedos iluminados
As tintas
Preparadas no alquímico engenho
De um coração transbordante de vivências
Realizaram o sonho das tonalidades desejadas
Química
Que se oferecera em sua plenitude
Aos olhos, às mãos e aos anseios
Do homem liberto
O quadro
De textura úmida e luminosa
Transbordava em translúcidas transparências
E em harmonias profundamente belas
Traduzia
Com clareza rara
As marcas de alguém
Que transforma traços, cores e luzes
Em realidade mágica
Um abraço pleno
Em seu sonho de liberdade
Para todos os homens
Nunca vi
Quem tenha visto o rio
Como Celestino
Um dia o viu
|