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Verônica Brayner
(1964 Arcoverde/Pernambuco)

 

 


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EXCEPCIONAL

Meu amor mora sozinho,
sem vizinhos,
e ninguém pode chegar.

Ninguém, ninguém
conseguiu tocar
em meu amor,
esse meu filho estranho
que nunca saiu para brincar.

 

DUPLA NATURALIDADE

Riacho me acho do Mel,
desemboco no Moxotó,
matutice que me preserva
uma esperança semi–árida.

Rio me refiz Capibaribe,
prometido a uma Veneza indecisa,
ilusão que me atravessa
uma paixão litoral.

 

PSICANÁLISE DE BOTEQUIM

Uma mulher amarga,
escorada na coragem
de uma aguardente amargosa,
discursava,
tramando contra a vida.
Enquanto isso
a razão dela,
ainda tão criança,
dormia,
na cadeira vazia ao lado.

 

MATERNIDADE

Eis a tua fatalidade!
Tal como será, para sempre,
na avermelhada melancolia do entardecer,
o afogamento lento do sol,
destinando-se ao mar,
vencido, enfim, pela noite,
para ressuscitar o amanhã de toda a humanidade.

Eis a tua felicidade!
Tal como será para sempre,
na tenra face da moça maria,
o olhar inibido sobre a primeira paixão,
destinando-se ao amor,
vencido, enfim, pelo prazer, em pecado,
para libertar o ser de toda mulher.

Eis a tua dignidade!
Tal como será, para sempre,
na imensidão de tua com-paixão
a capacidade de acolheres morte em vida,
destinando-te a multiplicar-te,
vencida, enfim, pela ventura de não ser mais em ti
para te recriares em tua cria.

 

SENTINELA

Minha alma é o teu anjo da guarda
que vela por ti, e faz-te zelo.
Teu guardião, Minha Alma,
rende-se de mim, enquanto durmo
e segue em marcha obediência
rumo as tuas luas.

Soldado das tuas noites,
perambula, Minha Alma,
por entre a penumbra dos teus minutos.

Vigia de olhos atentos,
espia, A meia distância,
se sonhos que te riem desconcertantes fantasias,
se saudades que te caem irreparáveis lágrimas
ou se angústias insolentes que te apedrejam o sono.
Delinqüentes!

Não tarda,
ao amanhecer de um bem-querer sol
regressa-me, Minha Alma,
e entrega-te aos cuidados
de meu coração a postos.
Acorda-me, assim, Minha Alma,
para mais um dia de amor por ti.

 

JOGANDO CONVERSA FORA

Bebemos vinho
e mastigamos
dois ou três assuntos,
levemente temperados.
Desconversamos,
longamente, sobre
nossas verdadeiras intenções

 

NO TEMPLO DA JUVENTUDE

Ficávamos, ali, de cara para a lua,
ditando palavras absurdas
que acabavam compondo
insólitos pensamentos.

Guerreávamos com os nossos medos.

Ficávamos, ali, encostados, na noite,
de braços cruzados,
recitando versos ao inverso,
aluando as rimas.

Coroávamos os nossos culpados.

Ficávamos, ali, de olhos fechados,
tapando os ouvidos, de bocas abertas,
saboreando um futuro,
apetitosamente, impossível.

Travestíamos as nossas vidas.

 

FUI...

Demoraste muito,
fiquei parada
no tempo cru..
O sol pôs fervura
sobre a minha
cabeça desprotegida
e evaporei de lá.

 

INCOMPATIBILIDADES DEMAIS

Por que me alegrei tanto
com aquela alegria estrangeira
que queria me alegrar?

Por me imprensei naquela
dor individual, se o indivíduo
não era eu, mas queria me imprensar ?

Por que levei meus antepassados
para decorar as paredes de uma história
que nem me sabia, que nem me podia,
que nem me queria, que nem eu queria?

Por que acendi as velas e servi
a comida, naquela ceia
que celebrava o meu alheio,
querendo me disfarçar?

Quanta inconveniência,
quanto ridículo,
quanta invasão recíproca!

 

PERSEVERANÇA

Por aquela estrada
não consegui,
era o meu descaminho.
Mais um.

Mas, as feridas se fecham,
sempre se fecharam,
chegará outra estação.

Desta vez,
foi até engraçado,
arrebentei-me num
porco-espinho DESfaçado.
Muito esquisito!

Daqui a pouco,
arremesso-me
para outros lados.

Existe sim,
não digas que não.
Existe ser humano
com fôlego de gato.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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