PERFIS DA CIDADE
- AQUÁRIO
Em algumas horas de torrente,
os vitrais perdem seu viço,
a mendiga tropeça na noite
e ampara-se sob a penúltima marquise,
cobrindo as avenidas com efeitos cênicos,
veludo preto e um hálito de mangue
que o rio deixa,
serpenteando-se para o ar,
transformando a cidade em anteboca de Inferno.
É ali onde o aguaceiro a espreita e cobiça,
mistura de noite, de hálito e concreto,
anônima melancolia de tragédia urbana,
sem palavras,
poema-imagem de inusitada chuva e sombras
escrito pelos faróis e timbre de sino,
mulher-poema, silhueta de templo ou pedra.