Uma incelência entrou no Paraíso
por Antonio Leite Falcão
O corpo inerte de Vitalino jazia na rede axadrezada e, em redor, um sobressalto alcançou as coisas. Sacolejou os nervos argilosos de Deodato, tremulou na luzinha tênue do alcoviteiro. Enfastiou naco de fumo-de-rolo, pedra de amolar, garrafa de aguardente. Tornou em dasalinho a solidão. O pífano sem som velava silêncio deprimido, um guarda-chuva enlutado, tamboretes cabisbaixos. Desolado, o alguidar, onde ele molhava os dedos no alisamento, guardava suvelas, quicés e gravetos roliços - todos, instrumentos improvisados do ofício de oleiro. Lá fora, o forno redondo ardia nostálgico. Roupas simples faziam ginástica nos varais. Galos e cães discursavam para a madrugada. Escandalosos e agrestes, agitaram-se todos os adjetivos. O Alto do Moura de olhos úmidos. O Mestre se findara.
A notícia agigantou-se. Chegaram filhos, ceramistas e curiosos, irmãos de varíola e esquistossomose. Em volta do corpo coberto pelo madapolão do lençol encardido, os santeiros Zé Rodrigues e Severino de Tracunhaém, os jarreiros Eudócio e Severino dos Anjos - mais Zé Caboclo, que esculpiu no barro maracatus e bumbas-meu-boi. Uma vizinha explicava a febre da bexiga que o matara. Cada detalhe queimava a hipocondria popular. De cima do velho petisqueiro, o boi Deodato ouvia dos artistas causos sobre o seu criador.
Antes do caixão da Caridade Pública, veio Nô Caboclo, que iniciou com Vitalino, trinta anos atrás, o ofício na região. O velho, com um rosário de continhas brancas e azuis pendurado no pescoço, levantou o lenço que cobria o rosto do defunto e balançou a cabeça como que aninhando no peito a saudade do amigo. Juntou-se aos demais. Contou que, no princípio, o trabalho não era tido como arte. Bonecos eram brinquedos e peças utilitárias - quartinhas, panelas, pratos, xícaras e penicos - vendidos a pobres feito eles. O barro jacaré, bom de liga e de queima, os dois traziam de longe, em caçuás. Na extração, lambuzavam-se e escorregavam igual a muçum. Nem erva daninha se aprumava no local. Naquela época, explicou, não existiam as tintas de hoje. A arte estava na peça de barro cru e não na cor. Apontando Deodato com o beiço, quis saber:
- Vocês vêem aquele boi?
Os artistas e curiosos olharam. Nô Caboclo contou que ele foi feito para tirar uma teima com Porfírio Faustino. O oleiro de Canhotinho havia dito ser Vitalino, apenas, um artista de bonecos. Nô elogiou a beleza do animal. Depois, disse que o Mestre, homem cheio de nove-horas, nunca quis se desfazer da peça e cismou em batizá-la com nome de gente: Deodato. E blasfemando:
- Pra fazer Adão, Deus deveria ter pedido conselhos a ele, porque, no barro, Vitalino instruía até a Divina Providência.
Deodato se encheu de orgulho. Recordou Vitalino, seus pileques, desabafos - "Um homem com raiva fecha a alma e não se pertence mais. Tem que ser artista, nem que seja pra fazer um cachimbo de barro". Passou na memória o Mestre que jamais cobrou pelos ensinamentos dos segredos do ofício. O Mestre de muito amor no peito, fiel à sua arte, de muita ternura pela paisagem do Agreste, pelos homens sofridos e pobres como ele. Ruminou lembranças...
O enterro saiu. Trancaram-se portas e janelas. Só, Deodato se deu conta da orfandade. Perguntou-se de que valia a obra de arte sem contemplação, a utilidade inútil, o sentido da criatura sem o criador. E, atestando que paciência bovina tem limite, animou-se. Num impulso, foi de cima do velho móvel para se espatifar no chão. Um vento aloprado penetrou pelas frestas do casebre. Espalhou o pó de Deodato, raspas da alma artística do Mestre. E o Alto do Moura de canto fúnebre politonando:
Adeus irmão, adeus. Até o dia de Juízo...
ANTONIO LEITE FALCÃO é escritor e ensaísta.