THE GLOBALIZACIÓN
DI MARIE
(antes da Queda
do Muro de Berlim, antes da internet)
por Raimundo de Moraes
- MARIA! Ô MARIA! Onde está
a camisa que eu mandei você passar?
- Maria, você já
limpou este tapete?
- Maria, onde você esteve
ontem à noite? Por acaso foi o seu dia de folga? Você sai
pras farras e no dia seguinte fica parecendo uma doida com essa ressaca.
- Ó praí: acorda,
Maria! Corta direito essa verdura!
- Maria, você está
um tanto lerda.
- Maria, você já
comprou o pão e o leite?
- ...Maria... hoje à noite
deixe a porta do seu quarto aberta, viu?
Às vezes suas amigas se
enfureciam dizendo que ela parecia com uma escrava. “Tempo de
escravidão já passou, Maria. Você parece uma indiota
trabalhando sem parar. A gente num pode trabalhar muito pra erles não,
Maria. Se a gente trabalha muito, se lasca e fica duente, e erles nem
ligam. Num vê Quitéria? Pra quê trabalhar tanto?
Gente rica num se importa com a gente não”.
Então Maria vinha para
casa com idéias de igualdade social e falava que estava cansada
de tanto trabalhar.
O marido da patroa resmungava
na mesa:
- Aposto que essas outras empregadas
estão corrompendo a Maria.
E a patroa surgia, subitamente
conciliadora:
- Maria, você é tão
boazinha... Vai se deixar levar pela inveja dos outros? Essas empregadinhas
daí não sabem de nada, Maria. Aqui você tem tudo,
Maria, do bom e do melhor, até televisão no quarto e radinho
de pilha e todos aqui te adoram.
Ou então, quando Maria
reclamava do muito serviço, a patroa vinha bufando colérica
com o furor das sete pragas do inferno:
- Maria! Você é mesmo
uma sem-vergonha! O que você sabe fazer na vida? Sabe escrever?
Sabe ler? Maria! Cada um tem o emprego que merece! Se você soubesse
ler e escrever, falar direito e fazer contas, não estaria na
cozinha dos outros lavando panela. Se você não sabe fazer
nada disso, deve se contentar e agradecer a Deus por ter onde trabalhar
e morar. Você não tem pai nem mãe nem marido e filho
pra sustentar! Todo trabalho é honesto, Maria! Você é
uma ingrata! Ganha o suficiente e tem carteira assinada! É aqui
que você tem o seu prato de comida todos os dias! Se você
morasse nos Estados Unidos, onde as empregadas quase não existem,
você ia morrer de fome, Maria! Agradeça a Deus por ter
onde trabalhar, Maria! Agradeça a Deus!
- (Muito obrigada muito obrigada
muito obrigada. Muito obrigada).
Maria ficava tonta e enfim se
acostumava com a idéia que fazia o serviço ideal para
ela mesma, o que poderia almejar senão aquilo? Mas a vontade
de continuar os estudos e assim poder ler jornais e revistas, lhe angustiava,
e Maria murchava, toda triste.
Porém o melhor da vida
era ter namorados e Maria já tivera vários, sua boca,
quem diria, era um tufão de beijos calientes. Nos braços
de Maria dormiram marinheiros, soldados, passadores de bicho, vigilantes,
caminhoneiros, camelôs. Quando a noite vinha e a mesa posta, a
janta pronta, ela era acometida por um frenesi e se emperiquitava toda
com vestidos alegres (detestava aquela bata azul e branca que tinha
que vestir todos os dias) e se perfumava com rigor. Descia para as ruas
movimentadas do bairro e caminhava sedenta, sozinha ou em grupo. Acreditava
que era melhor andar sozinha, parecia ter mais sorte assim.
Atualmente estava na mais alta
felicidade. O filho da patroa começara a descobrir Maria. Era
um amor irrequieto, rápido demais, cheio de força e movimentos
bruscos. Maria se empolgava com tanta energia e rispidez. No escuro
do quarto o menino se esgueirava quase todas as noites. Maria ficava
irrequieta também, sufocada, atleticamente satisfeita. (Mas com
os meses, o filho da patroa iria ficar mais cheio de ciência,
o corpo de Maria não mais seria escuro e interrogativo. O casal,
por mais vontade dele do que dela, começou a fazer um amor parcimonioso
e requintado. O fogo de Maria foi baixando. Nessa época ela arranjou
um marinheiro francês, namorico de poucos dias. Ele pensava que
Maria era estrela de alguma escola de samba. E ela estava apaixonada
pela boca carnuda do marinheiro, a bunda dura e empinada, o cabelo castanho
e fino. Em alguns momentos se excitava imaginando que o marujo lhe dizia
palavrões enquanto a penetrava sem grandes novidades. Ele era
muito branco? Seria ele também um mistério? Pois assim
Maria achava que seu corpo era, porque nunca entendeu o corpo, nem o
seu nem os dos outros).
O marinheiro, curioso, perguntava:
tu aimez sambá? - e Maria ria, fora de si - ele também
ria e perguntava novamente: do you like sambá? - Maria
redobrava a gargalhada sem entender nada.
Maria às vezes acordava
adivinhando a sua própria importância e quando isso acontecia
seu trabalho rendia o dobro, ela entrava num ritmo alucinado de limpeza
e arte culinária. Adivinhava que era uma espécie de coisa
última. Antevia que depois dela, poucas ainda existiriam. Se
sentia uma raridade, um fenômeno. Até suas colegas diziam:
Maria, você é a doméstica mais besta que eu já
vi. Eu pensava que só os nordestino foissem burros. Maria não
ligava, pra quê?
Tinha de vez em quando acessos
de riso. Quando foi trabalhar em casa de família, não
podia atender ao telefone. Na hora que tirava o fone do gancho e ia
falar, começava a rir sem parar, era tão engraçado
ouvir a voz dos outros, assim miudinha dentro do aparelho.
Agora não, agora Maria
sabia fazer mousse de chocolate, atender ao telefone, passar direito
um vestido cheio de pregas e nome complicado, manejar a enceradeira
com desenvoltura e entrar num carro sem sentir medo.
E quando chegou o carnaval, com
muita alegria Mariazinha, Ma Petite Marie, virou uma cabrocha de verdade.
Suas carnes moles estavam prontas para desfilar envolta em lantejoulas
e muito brilho, vários salários economizados com sofrimento
e paciência. Ela iria enfim receber aplausos na avenida. Pegou
a identidade e uma sacolinha e foi pro galpão da escola. Estava
louca pra sambar.
Então Maria não
voltou na quarta-feira de Cinzas, nem na quinta, nem na sexta.
- Vamos à polícia.
- Melhor o necrotério.
- Luciene não sabe de nada?
- Já perguntei! Ninguém
sabe onde está Maria!
- Liga pralgum parente!
- Está louco??!! Maria
só tem a nós! Sem parentes, sem eira nem beira!!!
- Será que mataram a Maria??
No sábado finalmente Maria
liga felicíssima. Estava em Angra dos Reis, com Hans.
- Hans, que Hans é esse,
criatura?!?!
- Meu namorado!
- O quê? O quê, Maria??
Seu namorado???
- Desculpe não ter ligado
antes! A gente não pára de passear! Aqui é tão
lindo!!!
- Maria, você está
louca?? Maria!!
- Eu vou ligar depois! Eu vou
ligar!
- Maria!! Maria!! Alô??
ALÔ???
A bússola amorosa de Maria
a levava cada vez mais ao norte. Ligou de Porto Seguro, Salvador, Recife.
Hans descobriu o Brasil com Maria.
- Maria você é uma
ingrata!!! Uma ingrata!!! Entendeu?!
E assim passou o tempo.
Um dia chega à arrasada
família um envelope da Holanda, carimbo de Groningen. Atrás
de um lindo postal Francisca Maria do Nascimento finalmente dava seu
paradeiro e pedia desculpas por “tantos trainstornos” e
por não ter enviado notícias, pois afinal “foi uma
coisa tão inezperada”, “não deu tempo para
despedidas”. E avisava que estava morando com Hans numa “casa
muito grande”. Junto com o postal, uma foto Polaroid. Maria aparecia
aboletada em uma cadeira de espaldar alto, ao ar livre: uma paisagem
meio ocre e meio azul, ao fundo uma casa de três andares cheia
de portas e janelas. Em pé ao lado de Maria, o felicíssimo
Hans. Ao redor do casal, um alegre grupo de empregados uniformizados
de quepe e avental. A família pegou a lupa pra ver a cara da
ex-serviçal enfiada num casacão felpudo. Mal dava para
ver o seu rosto redondo, Maria parecia uma bola envolvida numa esponja.
E no centro de tudo isso - no centro da paisagem, no centro da casa,
no centro da foto, no centro do espanto, meu Deus - dois tracinhos brancos.
Era Maria mostrando os dentes num sorriso.
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Único pernambucano selecionado
O Sesc-DF divulgou
a lista dos autores selecionados nos seus prêmios Carlos
Drummond de Andrade (poesia), Monteiro Lobato (narrativa infantil)
e Machado de Assis (contos). Nosso colunista Raimundo de Moraes
ficou entre os 15 finalistas na categoria conto, que reuniu
632 inscritos de todo o Brasil. A entrega dos prêmios
e o lançamento da coletânea em livro estão
previstos para o dia 5 de novembro, em Brasília.
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