Terra: pátria
de H.D. Thoreau e Joaquim Cardozo
Maria
da Paz Ribeiro Dantas*

À medida que eu avançava
na leitura, Caminhando, de Henri David Thoreau me mostrava vários
pontos de afinidade com a poesia e episódios importantes da vida
de Joaquim Cardozo. Alguns deles: o encanto pela natureza selvagem;
a atração pela solidão; a responsabilidade de arrimo
de família devido à morte do pai; a lida com a terra no
trabalho de medir ou topografar (que ambos fizeram em determinados períodos
de suas vidas).
É verdade que se pode ver
nesses detalhes simples coincidências externas; mas,
que chamam atenção as analogias, isso é inegável.
A ponto de sugerirem um rota comum – paralela ? – convergindo
para um plano (ou espaço ?) que certamente não é
o imediato em que nos movemos. E qual seria esse plano/espaço
? Conjecturas não fazem mal, portanto aqui vai uma: o Clube Transcendental(1),
um espaço para se aprofundar existencialmente o Transcendentalismo
de Ralph Waldo Emerson - autor de Natureza - e que, em 1835,
se tornou grande amigo de Thoreau. Falta agora unir as pontas: onde
entra Joaquim Cardozo nessa história: Bem, uma coisa é
estarmos no plano do pragmático, das evidências.Aí,
não tem nada a ver. As pontas começam a se entrelaçar
quando avançamos um pouco além delas, guiados pela intuição.
E adentramos o reino onde “Os Transcendentalistas buscavam a realidade
espiritual além das aparências, acreditavam que o homem
e o universo eram Deus, e numa vida de harmonia espiritual com as grandes
leis da natureza. (...) O desdobramento prático do Clube Transcendental
foi o Brooke Farm Institute, fundado em 1841 e que teve considerável
sucesso até 1847 – um grupo de homens e mulheres que viveram
comunitariamente compartilhando trabalhos manuais e investigações
intelectuais.”(2)
O que me impressiona e até
me dá uma certa inveja é o clima de companheirismo que
envolve o grupo, dando-lhe coesão em torno de um ideal comum,
transcendendo, assim, a mera busca de promoção pessoal.
Por aí se tem uma linha de convergência com o que Joaquim
Cardozo relata ao se referir ao trabalho em equipe, na redação
da Revista do Norte e do grupo que a compunha; ao qual não faltava
o aspecto comunitário, composto também de lazer, com suas
excursões ecológicas e seus passeios pelas cidades
vizinhas como Goiana, Itamaracá, Igarassu, guiados por uma motivação
que juntava lazer e o conhecimento das peculiaridades naturais e culturais
da região; a começar do barroco das igrejas. A propósito,
Cardozo via naquele grupo uma afinidade com os poetas franceses que
viviam comunitariamente em Créteil, Paris – o Abbaye –daí
o nome Abbaye de Créteil. Entre outras atividades, o grupo confeccionava
artesanalmente os seus livros.
É verdade que Joaquim Cardozo
não chegou a ser um andarilho, no sentido pleno da palavra –
ao menos nos moldes preconizados por Thoreau quando falou de sua concepção
a respeito do que para ele significava caminhar: “Só conheci
uma ou duas pessoas no curso de minha vida que entenderam a arte de
caminhar, isto é, fazer caminhadas – que possuíam
um gênio, por assim dizer, para flanar, para sauntering:
palavra que é belamente derivada de pessoas errantes que vagavam
pelo país, na Idade Média, e pediam caridade, a pretexto
de irem à la Sainte Terre, à Terra Santa, até
as crianças exclamarem: “Lá vai um Saint-Terrer”,
um santerreador. (...) Alguns porém, derivariam a palavra de
sans terre, sem terra ou sem lar, o que, portanto, no bom sentido,
significará sem nenhuma terra, sem lar, mas igualmente em casa
onde quer que seja. Pois este é o segredo de santerrear com sucesso.
Aquele que fica sentado em casa o tempo todo pode ser o mais errante
de todos; mas o santerreador, no bom sentido, não é mais
errante do que o rio que segue seus meandros enquanto vai diligentemente
buscando o caminho mais curto para o mar. (..) Cada caminhada é
uma espécie de cruzada pregada por algum Pedro-o-eremita dentro
de nós, para seguirmos em frente e reconquistarmos esta terra
das mãos dos Infiéis” (p. 68).
Certo, Joaquim não era
fundamentalista a esse ponto (vá lá o termo, já
que se trata de um caso de postura radical...). Talvez o fosse se tivesse
que optar entre a Terra planeta em seu estado natural e a versão
geopolítica na forma como hoje é administrado o mundo.Podemos,
aliás, refletir sobre isso tomando como referência o Canto
da Serra dos Órgãos (poema III, do Trivium,
1970), onde se encontra uma meditação que vale também
como profecia e julgamento:
Da vida natural se desfazendo
Se tornarão bonecos, robôs, títeres, fantoches...
E muito antes que a Terra deles prescinda,
Que a terra recuse suas presenças,
Os homens estarão mortos suicidas;
(fragmento)
Um aspecto a ser considerado
nesta aproximação entre Thoreau e Joaquim Cardozo é
a distinção entre a obra e a vida dessas duas excepcionais
figuras ligadas transcendentalmente pelo amor à natureza.Digamos
que Thoreau se definiu menos como poeta, no sentido de concretizar literariamente
uma produção escrita, - embora o tenha feito episodicamente.
Contudo, o que é senão fazer poesia emitir enunciados
como estes: “Acredito que existe um magnetismo sutil na natureza
que, se cedemos inconscientemente, nos dará a direção
certa. Não nos é indiferente para onde caminhamos. Existe
um caminho certo. Mas estamos muito sujeitos, por negligência
ou estupidez, a tomar o caminho errado. Gostaríamos de fazer
aquela caminhada jamais feita por nós neste mundo real, que é
perfeitamente simbólica da trilha que adoramos seguir no mundo
interior e ideal; e, às vezes, sem dúvida, achamos difícil
escolher nossa direção, porque ela não existe ainda
distintamente em nosso pensamento.” (p.82)
A poesia que se evola dessas linhas
tem sua fonte para além delas: vai dar numa cabana de madeira,
feita pelo próprio Thoreau e situada à margem de um lago.
Num dos 39 volumes de seu Journal (diário manuscrito),
ele confessa: “Fui para a floresta porque desejava ter total controle
sobre minha existência e escolhi me defrontar com os fatos essenciais
da vida e assim aprendi o que eles tinham para me ensinar, em vez de,
quando viesse a morrer, terminar descobrindo que não tinha vivido.
Não queria viver o que não era a vida. Viver é
tão maravilhoso e eu não pretendia viver a resignação.”
(p.51).
Como foi assinalado no início,
a atração pela solidão – no rumo do desconhecido
- é um dos pontos de afinidade entre Joaquim Cardozo e H. D.
Thoreau..O viajar pelo viajar, não em função do
chegar, é um dos pontos dessa afinidade. Ela vem expressa nestas
duas estrofes do poema Imagens do Nordeste:
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
Já que estamos no reino
das analogias, cabe aqui mais uma, para terminar: É a propósito
de uma das composições do livro Poemas: A leitura
mais previsível de Canção sugere que se
trata de um amor antigo – que não resiste à
volta, ao reencontro do amante. Os signos são os mesmos de outrora:
o sol, o mar, as jangadas, a flor do cajueiro. Só que, agora,
contêm para ele não o apelo de ficar, mas de partir, de
viajar; falam mais de despedida do que de reencontro. A realidade do
presente, cheio de apelos vitais, se faz contraponto a essa presença
congelada do antigo, do que parou no tempo, ou seja, o amor que não
se revestiu de hoje.
Venho para uma estação
de águas nos teus olhos.
Ouves ? É o rumor da noite que vem do mar.
Meu amor.
Perto de mim teu corpo cheirando
a flor de cajueiro...
Que saudades do sol. Do mar de sol.
Do nosso mar de jangadas.
Escuta:
É a noite que vem cantando
Vem do mar.
Para que eu voltasse tu me
prometeste novas carícias
No entanto o que me dás agora é ainda o mesmo amor
De antigamente.
E depois estás mais velha.
Os teus olhos bruxuleiam.
Os teus lábios se apagaram.
Eu vou partir.
As barcaças vão passando junto ao cais.
Eu vou partir, viajar.
Itapissuma. Goiana. Itamaracá.
Olha o verão que vem!
Viva o verão que vai chegar.
Viva a paisagem roxa dos cajueiros que vão florir!
Eu vou partir, viajar.
Na leitura menos previsível,
a amada tem hoje o corpo da Terra poluída e exangue
( rios, mares, lagoas). Venho para uma estação de
águas... O amante não encontra mais no corpo amado
a vitalidade comumente (e outrora) buscada numa estação
de águas.Que estação de águas tem ele hoje
nos olhos da amada ? As lágrimas nostálgicas do adeus
? De qual dos dois vem o pranto ?
Há, porém, um magnetismo
de esperança nos versos finais da canção cardoziana.
Trata-se do verão, mas de um verão em paisagem de cajueiros
florindo.
Vale a pena embarcar nesse chamado,
nessa viagem.
(1)Fundado em 1865,
em Concord, USA..
(2)THOREAU, Henri David. Caminhando. José Olympio, 2006, p.49.
* Autora dos livros
O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo (José Olympio,
1985); Joaquim Cardozo ensaio biográfico (Fundação
de Cultura Cidade do Recife, Prêmio Jordão Emerenciano
1984); Joaquim Cardozo contemporâneo do futuro. Ensol Editora,
2003). Editora do site www.joaquimcardozo.com