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Tereza Tenório
(1949 Recife/Pernambuco)

 

 


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DOS RECIFES SOMBRIOS

Os silêncios partidos das vidraças
lembram os rios que carpem o Amado morto
ó pescador de pérolas tão claras
cintilações acesas no teu dorso

oriental de afogados e estrela Rara
formosura a dos traços do teu rosto
refletido nas águas cor de prata
dos recifes sombrios lá do porto

dissolvido nas dunas dessas praias
nas áperas marés de sal e lodo
baronesas e lírios e douradas

águas-vivas em vórtices e pousos
impossíveis nas acendidas águas
onde imerso tu jazes em repouso.

 

SONETO DO PÁTIO

A Maria de Lourdes Hortas

Eram todas as tardes luz e outono
nos fusos dessa sacra hagiologia
As mulheres vestiam a cor do encanto
sob os vitrais do pátio Alegorias

fluíam dos meus dedos Desencantos
renasciam das lágrimas tão frias
pelas Horas perdidas Pirilampos
cintilavam na acesa geografia

da paisagem lunar Sonhava o Pátio
quando o tempo tecia sua teia
de filigrana e musgo Nossos lábios

desfrutavam da chama que incendeia
o casario o templo iluminado
o relógio de sombra sol e areia

 

MARINHA

Marujos do mar de sombras
ávidos de maresia
peixes e líquens Os últimos
raios de sol refletiam

as velas rotas das naus
quando a maré diluía
suavemente ao crepúsculo
os mortos daquele dia

Nos rostos impenetráveis
o olhar de sal dissolvia
ardentes cismas e ausências
dos pais irmãos noivas filhas

Boiavam claras lembranças
das amorosas porfias
Sereias nuas choravam
Tecendo mortalhas líquidas

nos corpos dos afogados
marujos vindo das Ilhas
de Páscoa de Trinidad
longínquas praias idílicas

Os corações destroçados
Submersos em sua agonia
traziam às ondas aladas
a dor de quem os carpia

Fluíam na correnteza
pedaços de remos quilhas
mais ecos de antigas rezas
de universais liturgias

Marujos de areia e treva
bêbado de maresia
impossível resgatá-los
do Silêncio à luz do dia

 

MEDIDA

a medida do amor é ser deserto
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo axial

porque o real do amor é fragmentar-se
no decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
a lembranças inconsútil desvelar-se.

 

INVENTÁRIO DE TUDO

Teu Amor me deixou nua
seu brilho de água clara
Vestida da luz da lua
penetrei na tua casa

Passeei pela mobília
repleta de peças caras
Mergulhei nos candelabros
envoltos em ouro e prata

Nas alamedas de vidro
repousei nas almofadas
dispostas sobre o assoalho
de brancas lajes tão raras

Através dos corredores
descerrei portas e salas
Nos jardins achei intactos
pedaços de nossas almas

Teu Amor me deixou muda
seu gosto de pura lágrima
Perdida na luz da lua
desapareci na praia.

 

VIA SACRA

Ó Santa Tereza dá-me
a luz do dia
a fé o rosário a amarga
lágrima fria

Descalça pura sem mácula
serás meu guia
ó lírio do sol de Ávila
tal qual Maria

Nestes claustros te procuro
geometria
líricas sombras te falem
sobre a agonia

da que usa nome igual
ao teu Seria
triste máscara lunar
sua porfia

Terra semente de nuvem
ó picardia
mitos dourados castelos
de fantasia

Sob os pés vales de espinhos
melancolia
no verde olival o pássaro
que silencia

Hoje és ponto cardeal
em plena Via
Sacra deste mundo ateu
da alegoria

Ó Santa Tereza d'Ávila
será tardia
minha invocação que o sopro
já principia

a escassear no peito
da que teria
nome claro igual ao teu
e alma vazia.

 

7. ULISSES

O meu amor inundará o tempo
e sobreviverá a Tróia, aos deuses
ao meu nome e ao teu nome.

O meu amor acenderá a ilha
e ocupará o trono vazio.
Será como um farol sobre o promontório
guiando as últimas naus ao porto de Ítaca
na esperança de te envolver para sempre na luz.

O meu amor será mais forte que o braço de Heitor
e o ódio de Poseidon
Seus raios cegarão eternamente o olho de Polifemo
e acenderão no teu sono a imagem de Ítaca:
- acompanharás embora longe do nosso país
o crescer silencioso de Telêmaco
e contarás o número de vezes que perscruto o horizonte
longa e ansiosamente.

O meu amor construirá uma muralha de ferro em torno
de teu peito
tornando-te insensível ao encantamento das outras mulheres
até mesmo das filhas dos deuses.

O meu amor nos unirá num círculo intemporal
além do ritmo das armas e do engodo de um cavalo
além dos mares estrangeiros e dos rios de Ítaca
além da morte dos nossos irmãos e da violência dos meus
pretendentes
além do infinito de uma teia e do teu desejo de voltar

O meu amor arderá com a perenidade de Apolo
tão certo como eu me chamo Penélope.

 

 

Fonte:
Estação Recife
Coletânea Poética III
Recife - 2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
Organizadores: Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos