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Susana Morais
(1980 Recife/Pernambuco)

 

 


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SOMBRAS DO CANGAÇO ou
A VERSÃO DE MARIA BONITA

Meus amigos e irmãos
Nas folhas desse cordel
Aqui venho relatar
Vou tentar lhe ser fiel
À desgraça que fincou
O meu peito tão cruel

Pra viver um grande amor
Perdi minha mocidade
Eu vivia lá no campo
Com a falta da verdade
Não havia violência
Muito menos crueldade

E nas terras do Nordeste
Castigadas pelo sol
Um Brasil Republicano
Ofuscado pelo rol
De coronéis governantes
Que bebiam no parol

Contra uma reforma agrária
(A medida que não falha)
Pra matar a fome alheia
Surge um grupo que de talha
Vai de encontro ao sistema
Como ferro numa malha

Encontrei-me neste bando
De cruéis e forasteiros
Que da força se valia
A suar qual garimpeiros
Quando tiram a pepita
Que da terra sentem cheiros

Nos livros dessa história
O cangaço é conhecido
Porém a minha versão
Já dará certo sentido
Que estava encoberto
E agora eu lhe digo

É um conto de romance
De quimera, irreal
Fantasia, devaneio
Criação tão desigual
Da história verdadeira
Porém creio ser real

Minha sina foi traçada
Pois te sigo qual cangaço
Que na vida corre o risco
Da Caatinga, no escasso
Invisível caminhando
Nas sombras do teu mormaço

No meu nome sou Bonita
Sou Maria, sou a Santa
Lampião meu companheiro
No meu pranto ele canta
E se de noite ele chora
Cubro-o eu com minha manta

A família do cangaço
Enche o peito de alegria
Não se vive só tristeza
Meu Xaxado é folia
Todos dançam, todos tocam
Grandes noites de magia

Quando chega a Volante
O meu povo se liberta
Calça, perneira e gibão
É a tocaia que desperta
E no meio do Sertão
Só se vê o que não presta

Muito sangue na peixeira
De cabeças degoladas
Os Macacos logo correm
Vão abrindo das paradas
E os cangaceiros mostram
Que são todos camaradas

Acabada a confusão
Comprovada a valentia
Voltam todos para a festa
De viver nessa magia
Onde a cana é o tempero
Do pesar na cantoria

Mas a vida é arapuca
Que o destino complicou
E meu peito é só carência
Que ligeiro se fincou
Ocorreu que Lampião
Neste mundo me deixou

E agora o que faço?
Desatada a sangria
O meu peito se lamenta
De angústia e euforia
Meu amor não se findou
Não se findará um dia?

E por isso hoje eu sou
Sombras de desilusão
Onde passo, deixo rasgo
Desamor sem compaixão
Se me volto no passado
Logo vem a comoção

O que eu tentei dizer-te
Lampião meu camafeu
Por desejo de te ter
Para sempre em braço meu
Eu pedi para a Volante
Impor credo a ti ateu!

Mas ela se misturou
Complicou-se no mandado
Tua vida se exauriu
E meu mundo desolado
Hoje anda na penumbra
De quem vive angustiado

Eu cheguei a conclusão:
Minha vida é sem abrigo
Me entreguei a tal volante
Pra morrer junto contigo
E aqui eu te confesso
Que não sou feliz comigo

Nesta noite de agonia
Te dedico este verso
E os faço porque que sei
Que meu amor submerso
Nunca mais virá à tona
Pois que hoje está disperso

E agora desabafo
Num poema tortuoso:
Nesta vida hoje sou
Como um fardo tenebroso
Pois que já fui condenada
Num caminho nebuloso

Que não há felicidade
E tampouco há sossego
Pois então o que me resta
É o chorar o desapego
De ter dado ao meu amor
Um destino sem apego

Com um papo amarelo
Tanta vida consumada
Capitão e companheiros
Sem bater em retirada
Lutando contra má sorte
Que por mim foi empregada

Degolada e descarnada
Com o peito a céu aberto
Encontrei felicidade
Pois que tenho aqui bem perto
Virgulino Capitão
A razão por qual desperto...

 

SONETO DA INOCÊNCIA

(Susana Morais de França & Paulo Dunga)

Foi aqui que vivi minha inocência
Nessas terras tão secas do sertão
Foi aqui que o lendário e Lampião
Me legaram estudo e paciência

Misturando História com ciência
Suas lutas, batalhas e vitórias
Lhe trouxeram as perdas e as glórias
Que o povo não teve consciência

O pior do seu mal foi a demência
Uma mulher que lhe fez por capataz
O tornando fiel, atroz, audaz

Foi assim que a vida o definhou
E o seu manto ate desmascarou
Tendo a morte seu mais triste cartaz.

 

SONETO DO AMARELO IGUAL

(Susana Morais de França & Paulo Dunga)

Teu sorriso, uma imagem tão igual
Uma coisa assim tão amarela
Que mesmo se tudo na panela
Não se pode separar o bem do mal

Tu me fazes uma margem tão real
De um sonho que não aconteceu
Inda assim me perco nesse breu
És a minha parte anormal

E eu fico pensando no final
Desse filme de enredo tão assim
Que eu penso que não teria fim

Nem tristeza e nem final feliz
Pois você foi o sonho que não quis
Mas foi tudo de bom que eu quis pra mim.

 

SONETO DE AMOR PERDIDO

A melhor forma de amar
Um amor que está perdido
É ir num mundo parecido
Pra tentar se encontrar

Neste mundo diferente
Busque apenas ser feliz
Faça tudo o que eu não fiz
Se permita simplesmente

Sinta apenas os perfumes
Se embriague de amor
Se entregue sem furor

Que a chama não se apaga
Pois no amor não há resvala
Nem medidas nem costumes

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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