principal  |   contexto   |   prosa

CABEÇÃO

por Antonio Gueiros

 

Otávio virou a cabeça e recebeu o impacto do soco. Foi um direto que pegou ao mesmo tempo o nariz e a boca com uma força descomunal. Levou a porrada, o mundo girou e  ele caiu de um jeito esquisito batendo a cabeça no asfalto. Sentiu apenas o impacto, sem dor, como uma onda que vira tudo ao avesso. A falta da dor, ele sabia, por instinto, era apenas o prenúncio de que o estrago tinha sido grande demais para o cérebro entender de imediato aquilo que mais tarde iria doer um bocado.

Lembrou do primeiro soco que levou na cara. Foi numa daquelas peladas, na escola, durante as aulas de educação física. Tinha oito anos, era da segunda série e ruim de bola. Depois de uma disputa a bola saiu pelo lado do campinho de areia. Pegou por último em Cabeção. “É nossa”, disse Otávio. Cabeção deu um sorriso cretino e foi bater o lateral. “Deixa de ser ladrão, Cabeçudo, tu tocasse por último, é nossa”, insistiu indignado. Cabeção, que também era perna-de-pau, esqueceu o lateral e foi tirar satisfações. Só quem não sabe jogar bola se preocupa tanto com um lateral. “Que é? Ladrão é tu!”, “Eu o que? Ladrão é tu!”, trocavam acusações, empurrões e quando Otávio ciscava para aplicar o osotogari que aprendeu no judô, Cabeção deu um murro desajeitado na sua boca. Todo mundo parou.

 Existia, naquela época, um código implícito entre os garotos de oito anos que estipulava os golpes que eram permitidos numa briga. Valia rasteira, ombrada, chute e murro na barriga. Valia também agarrar, em que de fato consistia a maioria dos combates. Mas Cabeção, como sempre, descumpria as regras. O soco abriu um pequeno corte no lábio inferior. Saiu um pouco de sangue. Otávio sentiu o gosto metálico e ficou assustado. Não estava preparado para um murro na cara. A goela deu um nó. Sabia que não podia chorar na frente dos colegas. Transformou o choro numa raiva enlouquecida e partiu para cima de Cabeção. Não conseguiu alcançá-lo. Foi levantado no ar, esperneando, por Sérgio, o professor de educação física.

Otávio e Cabeção foram suspensos por dois dias. Na diretoria, horas de reclamação e Otávio não chorou. Quando a diretora se virou, Cabeção, como de costume, deu um sorriso de deboche. Não se falaram mais até a conclusão da quarta série. Cabeção o evitava, Otávio não procurava. Cabeção era grande, galego, de olhos azuis. Tinha todos os atributos de menino dos filmes da sessão da tarde, mas não era bonito e não valia nada. Era filho de militar e tinha o cabelo espetado, como o de um soldado americano. No último dia de aula, Caio, um colega, disse a Otávio que na verdade Cabeção morria de medo dele, por isso o evitava.

Quando estava na faculdade, durante uma festa, Otávio foi abordado por um cara musculoso de camisa apertada. Era Cabeção, expansivo, cumprimentando-o como se fossem grandes amigos no passado. Tinha o mesmo corte de cabelo e o sorriso era ainda mais acanalhado. Otávio apertou a sua mão por reflexo. Meio exibido e desajeitado, Cabeção queria mostrar que ficou forte, mas continuava um covarde, dava para notar. O tipo do cara que só enfrenta os distraídos. “Quanto tempo, hein? Como tá a vida?”, perguntou Cabeção sem olhá-lo nos olhos. Otávio balançou a cabeça afirmativamente, sem convicção. Cabeção não soube o que dizer. Deu mais um sorriso, virou as costas e foi embora. Continuava morrendo de medo.

Depois de levar o primeiro, Otávio perdeu a frescura de dar murro na cara. Não era muito de briga, mas não perdeu nenhuma dali em diante. Exceto uma vez, no ginásio. A aula anterior tinha sido substituída por uma cansativa palestra sobre AIDS e doenças sexualmente transmissíveis. Ao final da exposição, foram distribuídos preservativos, que nas mãos de adolescentes de treze anos viraram um festival de bexigas durante o recreio. Depois do barulho, Otávio conversava com Marcelo na mureta da quadra, que ainda estava lotada. Ao lado deles, Negão, melhor amigo de Otávio na escola. Negão passou o dia meio calado e não estava interessado na conversa. Otávio, abusando da intimidade, esticou ao máximo o látex de um dos muitos pedaços de camisinhas estouradas pela quadra e sapecou na nuca de Negão, que gritou de dor. O grito chamou a atenção de algumas pessoas. Otávio percebeu que a brincadeira tinha dado errado e levantou sem jeito. Negão demorou a virar. Otávio tentou dizer alguma coisa para pedir desculpa, mas não conseguiu concluir. Negão já se virou rebocando. Acertou quatro socos no rosto de Otávio, que caiu no chão desnorteado, na frente de toda a platéia. Tentou se levantar, mas Negão passou-lhe o rodo. Não viu nem quem separou.

Confusão de gente, gritos. Foram levados à coordenação. Otávio não se conteve e chorou com um dos olhos inchado. Sentia que aquilo era injusto - tinha feito uma brincadeira e foi agredido sem chance de se defender. Queria se vingar, queria quebrar-lhe a cara. Chorava de dor, vergonha e ódio. Indignado, ouviu o choro tímido de Negão. “Foi covardia”, balbuciou o amigo entre soluços mudos. Não resistiu e o abraçou. Foram suspensos por uma semana. Otávio nunca mais agrediu uma pessoa. “É injusto, principalmente no rosto”, concluiu, aos treze anos.

Otávio abriu os olhos. O cheiro de gás era insuportável, a cabeça latejava. Não conseguiu se levantar. Uma jovem bonita se aproximou assustada, falou baixinho: “Calma, senhor, já pediram ajuda”. Tentou entender porque estava ali. A multidão, a polícia e os cavalos no meio da rua lembraram-lhe que estava em uma manifestação. Sentiu certo orgulho por naquela idade ser candidato a mártir da juventude. Achou graça disso. Tinha ido apoiar a garotada e deu de cara com policiais que se empenhavam em “dispersar a multidão” a pauladas. Passaram a espancar alguns garotos e Otávio tentou puxar um deles para fora do raio de ação dos cacetetes. Levou uma lapada, porém conseguiu se afastar um pouco. Um policial apontou em sua direção e o desafiou: “E aí, vai encarar, covarde?”. Trajava coturnos, caneleiras, colete a prova de balas e capacete; empunhava escudo e porrete. Otávio lembrou-se de Cabeção, deu uma risada e virou o rosto.

 

Conto premiado no Concurso Maximiano Campos 2011.

Antonio Gueiros é advogado e escritor.

 

  Voltar à página inicial

Olho morto amarelo

Chão movediço

Meia fio 40

O Caso do Cisne ou O Ocaso de Inês

TODAS AS MULHERES DO MUNDO

NÃO ESTAMOS SÓS

O Grito

CABEÇÃO

Amêndoas glaçadas de marzipã.

Silêncio e sons

Cadê Denise?

Meu pedido nas nuvens

LACAIO:

Encurralado

O velório de Mateus

Nhá Nhá

No ônibus...


Flash player required!






Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsites

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa