| BALADA DA NOITE
LAMA
A noite está no chão.
Molhada, diluída.
Pastosa espessa trama
concentrada, de argila.
Caiu das nebulosas.
Retraço de infinito.
Agora é terra morta,
parada, apodrecida.
De rodear o mundo
e de assistir, passiva,
aos sonos do seu rumo
por serras e por ilhas,
prendeu-se nas escarpas
corais dos arrecifes,
e se estendeu, farrapos,
na lama anoitecida.
A noite está deitada
na cama desse rio,
no forro de retalhos
das restingas baldias,
borrando mãos e pernas
de quem lhe busca os filhos
pra distrair a treva
da fome do seu dia.
A noite está no mangue
por onde (inversa) abisma.
No firmamento lama,
constelação vazia.
BALADA À BALADA
Ay filha de prouença
bordada em langue d'oc
que o doce da península
arredondou na voz
que vinha desde o Pai
Soares Taveiroos
y amoleceu cantigas
de Mestre, Amigo y Amor
Cantar em romaria
mentre queredes uos
El Rey Dinis renovo
y un Bernardim pastor
invés de coita e éclogas
y um jogral trouador
tereis a dor sem nome
non Mestre, Amigo y Amor
Se ao menos retornassem
Guillaume de Machaut,
Villon, Schiller, Deschamps
e Percy, o bom pastor,
talvez canção de gesta
te houvessem resplendor
conquanto não tivesses
teus Mestre, Amigo y Amor
E, ao fim, Dedicatória,
Oferta escrita em Flor,
Brinde, Envio, Oferenda
Ao Mestre, Amigo y Amor
DESABALADAS
Baladas combalidas, emboladas
pelas ruas, o giz o seu falar,
autores as pessoas sobre os quadros,
desesperança esponja de apagar.
Malhas estreitas enlinhadas redes
onde crustáceos-homens sem lugar
fluem refluem vagalhões de medos,
refúgio temporário cada bar.
Porque tivesse uma cadência exata
mesmo sem ter ao certo onde pulsar,
balada foi seu nome irrevogável,
como se em dor pudesse se embalar,
ou se escutasse as badaladas dentro
nas horas de querer e de assustar,
ou fosse um sino que abalasse o vento
sem nunca se saber em que lugar.
O fato é que, no tempo das baladas,
cada bala palavra fere o ar,
e desfere o seu curso como a máquina
seus êmbolos de aço a martelar,
de tal maneira que se faz em grito
por quem sem voz afunda nesse mar
de lama, com barragem de arrecifes,
sangrador a balada a derramar.
Na angústia de fugir das armadilhas
de cada um, fechado em seu pensar,
fala quem pode, canta quem precisa
de uma balada pra não se afogar.
PEDRABALADA
Pedra mole em água dura
que a tanta vida lhe bate
que faz a pedra futura
nascer do mesmo combate,
e a pedra-viva, crescente,
se estende muro, amurada,
pra reviver no batente
levando a mesma pancada.
Água de sal, amargura
que morde feito alicate,
colônia rocha insegura
que vive de quem lhe abate.
Parede cortada rente
no topo da água afiada
pra defender a semente
da vida pedra abalada.
Ai pedra povo figura
apregoada a remate,
na borda da noite escura,
quem pagará teu resgate?
Quem saberá tua gente
miúda, de areia-armada,
a resistir contra o dente
das ondas seu quase nada?
Coral por si diferente,
garganta silenciada:
recife pedra movente
que amadurece a pedrada.
BALADALAMA
Nem mar, nem terra.
Solo ideal.
Massapê bêbado
de água e sal.
Massa de noite,
lodo vadio
que o sol não corta
com todo o fio.
Chão que se esquiva
quase animal,
luto vestido
de funeral,
com que acompanha,
cego e sombrio,
a última volta
do morto-rio.
Pedra abalada,
contra-metal,
geléia turva
de avesso cal.
Rota perdida,
falso desvio
que descaminha
vidas a fio.
Campo doentio
de estranho mal.
Verso vazio:
ponto final.
BALADA DO RECIFE
Ninguém canta sua lama,
mas eu vou cantar a nossa.
Entre atoleiros e mangues
qual delas será mais morta?
Qual delas a mais impura
mesclada em sangue pisado,
que lodo vem de tão dentro
que o dentro é mais atolado?
Ai filha dos mares quentes,
brocado verde das bordas,
pregão da terra dos verdes
por quem anuncia as grotas,
coração de terra mole
de calor doce queimado
jardim estranho perdido
depois de ser encontrado.
Quem pelo mundo onde inundas
te quis amar e onde moras
cravou estacas e vidas
no dorso das carnes mornas?
Que povo te quis por terra
- país de solo assolado -
conquanto fosse abalada,
noturno barro molhado?
Só tu - Recife - escolheste
as pontes como legado
as águas como vestidos
o mangue por principado. |