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Sérgio Moacir de Albuquerque

 

 


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CANTOS DA DEFINITIVA PRIMAVERA

IV

Sob a cadência da cavalaria
Madrugadas clarinetadas explodem
Enquanto passeamos
Avenidas sucessivas

tentando pesar o absoluto
que a noite transcende
como se conhecêssemos
a Definitiva Primavera

a Negra Primavera aprisionada
sob nossa ancestal idiotia
com sabor de vidro e corte

estrada do inatingível
sede mortal de Auroras
nas conchas das mãos
"os olhos verdes da mulata
e o luar do sertão"

paisagem laminal

de tuas intranquilas mãos magras
desenhando compassos
de música acolhedora

como não se penetram conceitos
como raramente se penetram mulheres
como não existe nada sem um mínimo
de compreensão

como não se quebra o vidro mais fino
desde que suficientemente protegido
e como nascem flores

no pântano mais escuro

e o sol retorna
após o tempo tempestuoso

dos frutos colhidos.

VI

Um navio cruza a minha barra

e se esconde sob os teus pés
sobre a erva que me conhece
quando chego junto com o sol verde
acalmado nos braços teus

de quem me queira

entre trincheiras
sons e flautas
Cordilheira de Sonhos
espaço sideral limitado
às ondas do pequeno rádio
transmitindo informações
em línguas nórdicas
primeiros dias de pássaros

e camponeses
e crianças
indígenas solitárias
tua solidão ativa
tua solidão de prata
cravada em cada ação ou gesto

teus cabelos negros
soltos ao vento
vasta cabeleira sulamericana
teus portos de pedras e cabras
e sabor amargo de tua luta
teus olhos de menino
tua sensibilidade de poeta

a cruz do teu peito amante
sobre a Cordilheira dos Andes

estrela de tua fronte
e pranto de cidades deixadas
a cada esquina
de cada continente
teu quente sentir
densidade de tua coragem
abatida pelos ratos

 

 

Fonte:
46 Poetas, Sempre
Organização: Almir Castro Barros
Edições Bagaço - Recife 2002

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos