POEMA GROSSO
*
A puta que o carro matou
deixou três filhos órfãos agora,
agora tomates podres, agora,
a sós no mundo - lata-de-lixo todo.
A puta que abria as pernas
para os homens fedorentos todos
deixou três filhos - tomates podres -
para apodrecerem mais a lata-lixo-mundo.
A puta que abria as pernas
e que foi atropelada pelo carro,
não mais abrirá as pernas
e os três filhos sofrerão fome
pois não terão mais as pernas abertas
da mãe para comerem.
Os três órfãos da puta que abria
as pernas
para os homens fedorentos
e que morreu atropelada ainda há pouco
qualquer que fossem seus futuros
serão outros agora
pois não terão mais as pernas abertas da
mãe para comerem.
GÊNESE *
Os loucos são santos revoltados,
anjos expulsos do céu.
No princípio era a liberdade
e não havia jardins, mas flores,
não havia gramáticas, mas poesia
não havia saúde, mas prazer.
Então vieram os doutores do poder
com suas tábuas de restrição,
com suas formas de organização,
com suas idéias de propriedade
e regularam o amor,
inibiram o sorriso,
adulteraram a pureza
e o preconceito se fez.
Anjos expulsos do céu,
os loucos se rebelaram
e disseram não aos nãos
e, embora crucificados,
sorriem, amam e são puros.
VICIOSIDADE
Em casa
minha amada me espera.
E dói
ter casa e amada esperando.
Um atalho
e ir por ali
de frente pro sol
até o cansaço ninar o corpo ao sono!
Que miragem
de um densíssimo mundo de cores
inunda minha alma!
O atalho
ali
sem pés que o trilhem.
Poeiras
e
urtigas
e
ervas inundarão o atalho.
O atalho ali
E eu
sempre, sempre por aqui
voltando pra casa e a amada
de costas pro sol.
... Ai, ai, ai.
O SAPO
Após longa ausência,
da beira do rio,
Sai o sapo sem crença
"transido de frio".
É o sapo-cururu
que há tempos da forma
falou desconjuro
à dura e crua norma.
Vem em cautos pulos,
buscando o escuro,
por caminhos nulos:
sempre mais seguro.
Chegando à cidade
pára bem de frente
à festividade
de uns sapos frementes.
(Declamam-se poemas
pra população
que em grita estrema
se faz louvação).
Indaga o sapo
do rio, infeliz,
embora meio palpo
e mais, assim diz:
"O que ... O que se passa?"
um sapo garboso,
todo cheio de graça
diz-lhe assim ditoso:
- É a poesia moderna
em grande apogeu
e que se discerna
do que lhe aprendeu ...
"Impossível é!"
-Mas é! Não é!"
-É! "Ó, como triste é."
E vem-lhe outro sapo,
bem facultativo,
com seu longipalpo,
com ar bem altivo:
-Estes são "hermanos"
e trazem na veia
do itabirano
a áurea que o rodeia.
Outros sapos menos
só besteiras cantam,
dizem: não há extremos!
e besteiras cantam.
"Onde estão os críticos"
diz o visitante:
"que com todos os tipos
deixam sufocante
A poesia em suas mãos?
Estarão comprados?"
Diz um deles então:
-Cuidado ... cuidado.
Ao ver a poesia
tão fraca de encantos,
tão vã, sem porfia,
sem beleza tanto;
E os sapos pequenos
Com adoração
Aos vistos comenos
Na televisão;
Uns seguindo mitos,
Outros comerciais,
não ter próprios gritos
esses sendo os mais.
Então volve ao rio,
ao lodaçal cru
mais triste e com frio
o sapo-cururu. |