| RECIPHOTO
meus olhos hasselblad
dignificam esta cidade
mais que o surpreendente
cor de telha, nuvens chumbo
entre os dentes da manhã
meus olhos rolleyflex
emprestam romances de bossa nova
sussurradas as vozes ainda
dos camelôs operários e vagabundos
policiais sonolentos
prostitutas arrasadas
meus olhos japoneses, digitais
filtram a miséria
passam pelo photoshop
e agradeço à maré cheia
que esconde a lama
e mostra o mangue
meus olhos polaroid
de instantâneos efêmeros
enquadram barracas de frutas
e nem penso mais
nesta cidade de filhos da puta
DANTES
no quintal do inferno do mundo
murcham maracujás
crianças não brincam mais
ratos assustam princesas
e só restaram tragédias
fumando a poeira do cérebro
na sucursal do inferno de pragas
de duríssimas esquinas
e absurdas encruzilhadas
colibris engaiolados, semáforos
vermelho buzina
pneus prateados e homens
aqui, nesses dias abafados
trocentos desejos surdos
sete mil danações
e apenas um da legião de nenhures
aqui, um poeta
DESCULPA AÍ, DYLAN THOMAS
estou cansado de bêbados
que ficam bêbados
cansado de poetas
que morrem cedo
de amigos inúteis, drogados
de fantasmas assaltando retinas
de ex-mulheres, amigas ferinas
ex-companheiros de trabalho
a quem não tenho nada a dizer
estou cansado de cidades
(queria morar no mar)
cansado de companhia
e de solidão, cansado
mas sobretudo
estou cansado de bêbados
que ficam bêbados
POEMA FRITO NA LÍNGUA
da janela
maré enchendo
no mangue do quintal
saúnas festejam não-sei-o-que
aratus sobem nas cercas
os barcos, sábios
não dizem nada, balançam
e a manhã tem dois caminhos:
a espiral dos erros
as esquinas do caos
e um terceiro, inominável
e surdo, hermeticamente calado
não suporto esses dias
que começam com poemas assim
EVANGELHO SEGUNDO AS MÃES
god god god
um dia disse à minha mãe
que deus em inglês
parecia com o cão:
dog dog dog
ela me ameaçou com apocalipses
e não se falou mais nisso |