GUARDIÃ
Guardo segredos entre véus e argolas.
Pulseiras de asco, anéis de tortura.
Guardo liberdade enclausurada em falsa alegria
Encontro contido, acontecido jamais
Guardo a poeira da terra molhada
E o vôo dos cavalos caídos
Em dança soluçante
liberto vontade de rever mãos dadas.
ONÇA CORAÇÃO
Fala meu corpo línguas ligeiras
Transparece na gata doméstica
a onça desgarrada,
fugida da selva.
Onça pintada, unhas feitas.
Perfeitamente entregue a devaneios.
Loucura límpida e desejada.
Louça e fogão.
DEPURAÇÃO
Nossas dores se desdobram
em gemidos
Soluços, desencantos e esperanças.
Acordes que, no fim,
resta somente canção.
TRATAMENTO
Do sangramento o melhor foi o sangue escorrido
Pingado em pequenas doses.
Tempo de sangria.
Tempo de coagulação.
Da ferida, a crosta.
Quase bicho de estimação
DESEJO
Coloco na mão
o medo do espaço-tempo
que não posso contar,
nem conter,
nem ter,
nem estar.
Apenas e infinitamente ser.
MINGUANTE
As meias palavras
me fizeram entender o período inteiro.
Mergulhada na lua
vivenciei as fases. |