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Rogério Generoso
(1963 Recife/Pernambuco)

 

 


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QUE MAIS HÁ A DIZER?

Que mais há a dizer?
Pátios vazios
féretros de anjinhos
tomates rubros de véspera
rumor do aroma de Dulcinéa
pedras portuguesas do cais;
ilhas de Neruda
cores de Miró
narcisos amando outros
o rio Capibaribe sem pontes
a ponte de ferro sem rio
o inexistir

A úbere fêmea
a ubiqüidade de Tánatos
o terceiro reich, a panacéia
a higiene dos octogenários
a literatura pobre da ex-literatura
a poesia enjoativa decassílaba;
a crisma a crema o creme chantilly
a alfazema Hugo Boss, a América
o toque de recolher, todos os tiranos
a meta: física, linguagem, etc.
a palavra CONCRETA, a reta
Que mais há a dizer num poema?

– Eu prefiro abrir a janela.

 

NOTURNO

Não leia o meu poema noturno.
Ele e eu precisamos adormecer.
Ele precisará colher nos vãos da memória
as suas vestes (indumentárias ilusórias)
de alquimias de amianto e chumbo
da pesquisa, do experimento
do futuro extinto, da vida in vitro
das águas, dos sóis violeta e azuis
do íntimo do outono, do vazio
do naufrágio dos apóstolos
do pássaro voando vigílias
do escuro para sempre: e eu
de confeccionar a poesia da vida, sempre.

 

CANAVIAIS INTERMINÁVEIS

Quando dobrei a esquina das ruas de engenho
apressei-me nos passos até vencer o entorno
da Casa Grande e dos canaviais intermináveis.
E tropecei, me arrastei... te amaldiçoei
por tanta terra até perder de vista
a tua matéria (corpo imenso onde
cabem a casa, os canaviais e o desejo
imenso de ficar).

E quando atingi a estrada
que me levaria à liberdade do labirinto
a significação de permanência
inundou os poros que compõem
exalando o teu olor às minhas vestes
e teu vapor às mãos trêmulas do corte.
Então percebi que a fuga eternizara o mito
E tua paisagem me afligiria ‘té o infinito.

 

POEMA DOS ÚLTIMOS DIAS

Não há salvação para mim.
Sabê-lo consola meu coração
poeta dos últimos dias.

Os santos esperarão mil anos
a consumação dos tempos:
de manhã esperar a noite
no breu correr para o dia.

Mil anos apodrecem carnes
esfarelam ossos; remidos ou não
no fundo é tudo o mesmo.

Não ergui altares a baal
nem ofertei dízimos a profetas michês:
não há salvação para mim
poeta dos últimos dias.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

 

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