Há norte demais em mim
para que eu seja o homem da adesão plena.
(André Breton)
Há pessoas que vivem como bichos,
longe das manhãs particularmente azuis.
Atrás dos balcões, dos fregueses,
dos cortes de tecido,
dos patrões absurdamente chatos.
Comprando pãezinhos na padaria da esquina
para seus cafés melancólicos.
Uma vida inteira atrás dos birôs
e das meninas
com peitinhos de pitomba.
Seus relicários, suas imagens de santo
e a lapadinha de cana
que ninguém é de ferro.
Apenas comem,
bebem
e defecam.
Serenamente,
com a ingenuidade das crianças
e a malícia dos sátiros.
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Nós somos do tempo das escolhas,
dos nervos expostos,
de ossos
no oco da noite.
Nós somos do tempo dos silêncios,
do sangue nas narinas,
da agonia plenamente dádiva.
Cavalgamos tempestades
de rifles temerosos.
Nós somos do tempo dos vivos,
dos mortos por ofício.
Viemos de dançar um tango
em olhos de mil furacões.
Mas estamos vivos,
sobretudo.
MILES DAVIS
I.
silêncio de eleitos
fogueira
de novidades suspensas
cápsula
trilho
nave
mel que destoa
segues
semeando arestas
este vôo de rupturas
II.
metálica túnica
sopro de sabre
ouvir-te
é crepúsculo
pequena ave
de tempestades
PÁSSARO, PÁSSARO...
I.
Trinado férreo,
locomotiva
em ascensão.
Canto de astronave, ilha.
Um bailado de vírgulas
sobre os andaimes.
Da linguagem
presa
e armadilha.
II.
Senhora de sabres,
insônia
de asas simétricas.
Sesmarias, sonetos,
sextilhas sobre incestos.
Uma sabiá
sendo sol
em setembro.
III.
Diria ouvir tua sombra
galopando nos quintais.
Nesta manhã
de dedos telegráficos
o silêncio
em cores profundas.
IV.
Vôo célebre,
vou célere.
Um pássaro
azul como a divindade.
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ousar
obscurecer
a dor
apascentar
mentir
o amor
infernos
repartir
depor
do azul
grilhões
e flor
um ruído de flauta
para meninos distantes |