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SONETO DE UM
SÁBADO SURREAL
Tu, anjo do “Teorema” e também
bruxo,
cevada nas carícias, fel na fala,
pastor de pedras, âncora de surtos,
córrego azul, raposa, avenca, magma.
Eu, certa belle de jour, sal de soluços,
frasco de versos, útero de asas,
peregrina das noites, nau sem prumo,
alma de nácar, águia, orquídea, calda.
Nas vísceras do oceano nos amamos,
embarcamos um no outro noite adentro,
espumando os delírios mais insanos.
Depois, viraste tronco, e eu, filodendro.
Amores
podem ser longos e poucos,
mas
pelo menos um tem que ser louco.
SONETO DO FALO FALHO OU DO QUIXOTESCO
Unir os pólos nus gerando um sol
áureo, senhor, fidalgo de um archote,
que tremeluz na alcova e no lençol,
não pude com meu casto D. Quixote.
Nosso gozo se dava nas idéias
que nos suavam das bocas ao luar,
com vários cantos, como epopéias
ingênuas, sem potência, sem raiar.
Bem quis percorrer léguas de epiderme,
tocar banjo nos fios das madeixas,
amarrá-lo a dosséis e, vendo-o inerme,
atacá-lo com o mel voraz das gueixas.
Mas o amor pleno
pus no desalento
e meu cio em moinhos
só de vento.
SONETO DE EXALTAÇÃO PARA O
AMOR MAIOR
Como tudo era um ápice, era cume
quando nos escalávamos e fundíamos.
E como era loquaz nossa quietude
passado o apogeu dionisíaco.
Era tudo feliz, tão terno o ajuste
que poderias, como o velho Príamo,
dar-me cinqüenta filhos, duas mil nuvens,
e eu pariria todos lá nos píncaros.
Mas houve uma avalanche e nós descemos
pela encosta, aturdidos pelos demos
que constroem a atmosfera do vazio.
Perdemos esperanças dado o frio,
mas eu esquento a chave do soneto
te exaltando no pico do terceto.
SONETO DO LUTO GRADUAL
Ainda não vivi luto total.
Tanto te vi morrer e renascer
que minha mão hesita em verter cal,
meu coração hesita em esquecer.
Lento, tem que ser lento e bem gradual
despir-me de tuas cores, esmaecer,
e dar ao fato o negro do fatal,
e dar ao tempo o vácuo do perder.
A dor, imperatriz do desespero,
descoroa-me já desses espinhos
que cingem meus momentos de exaspero.
Que restem após o luto azuis carinhos
e uma saudade mansa, um manso esmero
em aprender a revoar com passarinhos. |