de pássaro são
teus passos
ainda assim eu sigo
teu vôo
teus passos
quando te vais
fica em mim
o silêncio dos haicais
um dia vou tentar esquecer
esses cavalos mortos
essas árvores tombadas
e esses casarões caídos
um dia vou tentar esquecer
esse vinho bebido no escuro
e esse rádio mudo, mudo, mudo
um dia vou tentar esquecer
que partistes
sem dizer adeus
O que mais fica na gente
É a sensação das coisas
Inacabadas
Enquanto o leite esfria na mesa
Bebo tua tristeza e te prometo:
Amanhã haverá tempo
Para rires todo o riso
Chorares todo o pranto
Amanhã haverá tempo
Para tomares teu leite
Quente
Enquanto eu beberei tua alegria
Já que detesto leite
procura
a vida inteira cavei
o chão em busca de estrelas
sem saber que me bastava
olhar o céu
para vê-las
guerra
a bota do soldado
ficou na neve
a borboleta pousou
o olhar fotografou
imortalizando o vôo
da borboleta sobre a bota
e sob a bota um pé:
morto
tentativa
tentei o vôo dos pássaros
mas só me restou
a gaiola
a vida
a vida
flor de papel crepom
com tudo pra ser
perfeita
vivida
pura ilusão
o barco
o leme deste barco
está sem rumo
a quilha rebentou
contra a tempestade
e eu me esqueci
o barco era de crepom
e chovia naquela noite
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