Passada a euforia consumista do
final de ano, à medida que a ressaca vai passando, volto a agradecer
a Deus pelas graças recebidas em 2007. Num balanço rapidíssimo
vou observando as riquezas e bênçãos que nos chegaram.
Mas são tantas que não dá pra enumerá-las
aqui. Assim, quero apenas lembrar algumas dessas dádivas e dizer
que todos ainda podem desfrutar delas porque estou falando de literatura.
Mas o campo literário é algo muito vasto. Então
lembro e recomendo algumas preciosidades que nos chegaram através
das letras, falando e revelando coisas do povo. Citarei apenas algumas
jóias, na certeza de que estarei falando apenas de uma pequena
parte da enorme produção da literatura popular no ano
de 2007.
Fim de Feira é o título
do recomendado livro de Dedé Monteiro, poeta grande da cidade
de Tabira, sertão do Pajeú. O livro retrata a si e ao
seu povo sem arrodeios, de maneira simplória e emocionante. Fala
de gente modesta, de heróis e anti-heróis. Está
sempre disposto e agradecido a Deus, a tudo e a todos, e particularmente
aos familiares e aos seus padrinhos no que diz respeito ao livro: Evilácio
Feitosa, João Veiga e Joselito Nunes. Fala do seu lugar, o centro
do seu universo poético e vital. Das histórias e estórias,
dos animais, da chuva, do sol, dos costumes, das coisas que compõem
a essência do viver. No decorrer da leitura, percebemos a esperança
e a garra vindo a todo instante para acudir a alma da gente que ri e
que sofre, que canta e chora para deixar de herança apenas uma
palavra, que alimenta desde sempre a alma verdadeiramente nordestina:
dignidade.
Felipe Júnior é
outro poeta pajeuzeiro que nos trouxe o seu livro Relicário.
Onde temos a abundante poesia popular do jovem poeta que também
traz um pouco da sua poesia moderna. Felipe também é membro
da União dos cordelistas de Pernambuco, UNICORDEL.
Lembranças do Recife em
cordel, livro do poeta, médico, matuto e amante da cultura nordestina
Ernando Carvallho, que faz homenagem à cidade do Recife pelos
seus 470 anos, bem como ao frevo pelo seu centenário. Um brilhante
trabalho editado pela Editora Coqueiro.
Com o livro Amores Perfeitos na
Beira do Mar, o poeta Marcos Passos conseguiu reunir 60 poetas que nos
brindaram com 60 estrofes de um dos gêneros mais belos da poesia
popular, o galope à beira mar. O trabalho teve o patrocínio
da Prefeitura da Cidade do Recife, e traz o selo de uma das maiores
editoras do Brasil: Edições Bagaço.
A Recitata passou a ser a grande
atração dentro do Festival Recifense de Literatura. Mais
uma vez a poesia popular se presente, revelando novos e consagrando
veteranos. Os 10 primeiros classificados foram Altair Leal, Marcus Cavalcanti,
Anaíra Mahin & Luciana Rabelo, Mariane Bígio, Toninho
D’Olinda, Júnior Vieira, Kerlle Magalhães &
Adiel Luna, Manuel Buarque, Vanessa Sueidy, Dedé Monteiro.
Jorge de Souza trouxe-nos o seu
belíssimo Retrato de Pernambuco. Um trabalho magistral que fala
da gente, das coisas e do jeito de ser Pernambuco, na cadência
gostosa da redondilha maior. O trabalho merece a apreciação
de todos nós e está ganhando uma nova versão através
de documentário audiovisual.
A Livraria Expressa é outro
trunfo da cultura do povo. O projeto do poeta Alberto Oliveira ganha
corpo e parceiros de peso como, por exemplo, o Banco do Nordeste do
Brasil S. A. – BNB e a Editora Idéia, de bandeira paulistana
que publicou o grande sucesso da literatura infantil As Formiguinhas,
da escritora sertaniense Vanuza Silva.
Duas grandes feras do cordel e
da xilogravura destacam-se. Louvo a José Costa Leite, poeta cordelista
e xilogravador reconhecido até no estrangeiro, que na altura
dos seus 80 anos, deu-nos o divertido ABC da Sacanagem, trabalho feito
meramente para diversão, segundo o próprio autor. Outra
louvação para o mestre Dila, de Caruaru, que acabou de
completar 70 anos de muita poesia e xilogravura. Para comemorar o seu
aniversário, tivemos o lançamento do livro Xilogravuras
do Mestre Dila, livro-álbum organizado pelo poeta Hérlon
Cavalcanti, da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel.
E por falar em cordel, a União
dos Cordelistas de Pernambuco teve um ano dos mais produtivos. Desde
sua criação em 2005, a UNICORDEL apresenta-se como um
movimento de valorização da poesia popular nordestina
e vem cada vez mais se aproximando do público que aprecia esse
gênero poético.
A Feira de Literatura de Porto
de Galinhas – Fliporto de 2007 foi um sucesso absoluto. O nome
mais aguardado e festejado foi Ariano Suassuna, que dispensa comentário
sobre a sua relação com a arte popular. Repentistas e
poetas de cordel cantavam e declamavam, divertiam e divertiam-se nos
palcos e nas ruas, como o poeta Davi Teixeira (www.daviteixeira.com)
e seu boneco Bastião.
Ainda sob a ressaca da Fliporto,
teve início a Bienal do Livro de Pernambuco. O evento bateu todos
os records: 535 mil visitantes. Em 2005 foram 470 mil. O volume de vendas
ultrapassou a barreira dos 600 mil livros vendidos, o que dá
uma média superior a 60 mil livros
por dia, gerando um volume de negócios com um valor total superior
a 12 milhões de reais, superando em 5 milhões de reais
o volume gerado durante a bienal de 2005. Foram 286 eventos como palestras,
filmes, mesas-redondas, seminários, discussões, etc.,
sendo 65 deles na sala Cecília Meireles, 53 no Café Literário,
59 no Cine Letras, 35 no Espaço Universitário e 71 no
Espaço pedagógico, ou seja, sucesso total.
Novamente o mestre Suassuna foi
grande atração. Para recebê-lo, um time de primeira:
a cantora Bia Marinho e seus filhos Antonio Marinho e Miguel Marinho,
com muita poesia, causos e o melhor da nossa música.
A UNICORDEL sempre presente, com
um dos stands mais animados. O mestre Marcelo Soares era somente alegria,
com seus cordéis e xilogravuras. Presentes, outros gravadores
de respeitável trabalho, como Severino Borges. Também
marcaram presença, xilogravadores e cordelistas de outros estados,
como o mestre Abraão Batista (Juazeiro do Norte – CE),
os irmãos cordelistas e ilustradores de Fortaleza – CE,
Klevisson Viana (Tupynanquim Editora) e Arievaldo Viana (Academia Brasileira
de Literatura de Cordel), sempre participando dos nossos recitais. Do
Rio Grande do Norte vieram os poetas populares Neuza e Izaías
e seus cordéis, além de outros.
Ressaltamos o lançamento
do livro Cuia de Poeta Cego Tem Verso de Toda Cor, do poeta José
Mauro de Alencar, mais conhecido como Júnior do Bode, poeta da
UNICORDEL. Aliás o mote-título do livro de Júnior
do Bode já caiu na boca do povo e está inspirando outros
poetas a glosá-lo.
O poeta e professor Maciel Carneiro,
trouxe-nos a poesia de Tuparetama através do seu livro Bricolagens,
com trabalhos da melhor qualidade. Os Gigantes de Olinda, de Erick Vasconcelos
Araújo. O livro é o resultado de um trabalho de graduação
do Curso de Design gráfico da UFPE. O projeto ganhou o apoio
do Funcultura. É voltado para o público infantil, a fim
de divertir e preservar as nossas tradições.
A Companhia Editora de Pernambuco
– CEPE lançou muitos livros, dentre os quais destaco A
Palavra de Hermilo, volume organizado por Juarez Correya, poeta palmarense
e especialista em Hermilo Borba Filho, e Leda Alves (viúva de
Hermilo). O livro reúne entrevistas para jornais e revistas,
dadas por Hermilo desde 1940 até 1976, ano do seu encantamento.
O livro traz uma nova maneira de estudarmos o homem, através
de suas próprias palavras, em respostas aos questionamentos de
grandes nomes do nosso jornalismo e da nossa literatura.
Bacamarte, Pólvora e Povo
(Edições Bagaço), do acadêmico, jornalista,
pesquisador e professor Olímpio Bonald Neto, onde o autor apresenta
o resultado de um enorme trabalho de pesquisa que vai além do
folclórico. Ele mostra-nos aspectos históricos, antropológicos
e sociais, de maneira gostosa, o que só quem tem a capacidade
de construir o bom texto literário é capaz de traduzir.
É também de Olímpio
Bonald Neto o excelente livro “Os Gigantes Foliões de Pernambuco”,
pela Compahia editora de Pernambuco – CEPE, em sua segunda edição.
Um livro bonito e bem cuidado. Antes do lançamento de sua primeira
edição (1992) já havia sido contemplado com o prêmio
Katarina Real – 1991, da Fundação Joaquim Nabuco
de Pesquisas Sociais. O livro também ajudou a levar a nossa cultura
aos confins do Brasil e do mundo. Os nossos gigantes são reconhecidos
como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
O autor mostra-nos bonecos gigantes
do mundo inteiro, em diversas épocas, a fim de nos contextualizar
para melhor entendermos. E consegue. A professora, poeta e jornalista
Rivani Nasario lançou o seu livro Encantos Poéticos no
Toque Feminino, um trabalho delicado e sutil sobre a alma feminina.
Tivemos, felizmente, a continuidade
do Festival de Repente de Pernambuco e do Congresso de Cantadores do
Nordeste – COCANE, que repetiu o sucesso dos anos anteriores.
Palavras ao Plenilúnio
é o título de uma das mais esperadas obras de 2007. Seu
organizador, o poeta e professor Lindoaldo Vieira Campos Júnior
fez um esmerado e merecido trabalho sobre a obra do poeta João
Batista de Siqueira – Cancão: Musa Sertaneja (1967), Flores
do Pajeú (1969) e Meu Lugarejo (1979), além dos poemas
inéditos do seu livro Chave de Ouro, que ele não teve
tempo de publicar, e outros poemas do grande mestre, gravados por amigos,
alguns presos a sete chaves nas memórias de tantos.
Todas as obras acima podem ser
encontradas no Box Sertanejo, fone (81) 3446-8596, no Mercado da Madalena.
Grande abraço!
(janeiro
de 2008)