Foi com encantamento que descobri
o poeta Jorge de Souza. Primeiro pela sua poesia, depois pelo poeta
e, ao longo da caminhada, pelo homem que ensina sem a petulância
de querer dar lições.
Atenho-me aqui ao seu poema RETRATO
DE PERNAMBUCO, onde o poeta sistematicamente apresenta-nos estrofes
em novenas (nove versos), usando a palavra Pernambuco como mote que
capitaliza cada uma das estrofes.
Na construção esmerada
da estrutura estrófica, até o sétimo verso, intencionalmente
ele utiliza-se do esquema rimático padrão e tradicional
da septilha (estrofe de sete versos) em versos setessílabos.
Gênero por demais apreciado pelos cordelistas e repentistas, criado
pelo cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador.
A partir daí, usa como oitavo verso a repetição
do primeiro, utilizando-se da aliteração para impor o
ritmo e dar ênfase ao nome de Pernambuco, completando cada estrofe
com um nono verso para fechar cada novena composta em redondilha maior
(versos heptassilábicos).
Querendo ou não, o autor
está dando muito mais do que uma simples contribuição
com um belo poema, está criando um novo gênero dentro da
poesia popular. Para isso, usou as regras fixas deixadas por serrador,
adicionando-lhes mais dois versos. Usou como trilha e não como
trilho, como diria o poeta José Honório. Esteticamente
usou a forma concebida pelos nossos ancestrais, advinda de matriz poética
árabe, de onde descende, aliás, a nossa poesia popular
nordestina, mas sem fazer dela uma fôrma. Colocou o seu próprio
jeito de brincar com as palavras, presenteando-nos com um grande trabalho.
Passando da questão estética
exigida dentro da poesia popular para a temática explorada, vejamos
alguns aspectos da obra:
Banhado de Pernambuco...
eu nunca mais vou secar;
batizei-me nessas águas...
açudes de mungunzá;
vesti-me dos esplendores,
variações multicores
da cultura popular.
Banhado de Pernambuco...
não vou despernambucar!
Na primeira estrofe, Jorge de
Souza, que é carioca de nascimento, declara-se apaixonado por
Pernambuco. Tanto que há muitos anos fixou residência no
Recife. A partir desse ponto ele inicia minuciosa descrição
das coisas e das gentes de Pernambuco, como numa louvação
ao lugar e às pessoas que conquistaram seu coração
para sempre.
O poeta pinta uma nova tela no
nosso imaginário, de maneira tal que a gama imagética
trazida pelo poema, aflora como um filme a deliciar-nos o espírito.
Desde a nossa riquíssima culinária, cantada e decantada
por tantos como Gilberto Freyre, Ascenço Ferreira e outros mais,
perpassando pelos sons, ritmos e danças do nosso povo:
São os sons de Pernambuco
um xamego sanfonado,
essas rodas de ciranda,
o Quinteto Violado;
evocações de Ferreira,
compassos de saideira
de Levino harmonizado...
São os sons de Pernambuco,
velho Lupércio chorado
Tens de sobra,Pernambuco,
Os talentos musicais
bem no teu frevo presentes
nos tríduos dos carnavais.
Ouves Petrúcio Amorim;
Maciel Melo?Mas,sim!
Dominguinhos e que tais...
Tens de sobra, Pernambuco,
Lenine e Alceu geniais!
E descamba o autor a pintar um
retrato com matizes absorvidas nos poros das gentes pernambucanas:
Tu escreves, Pernambuco,
pelas letras atuais
Villaça, Ewaldo, Carreiro,
Leal, Jomar e outros mais.
Quintas, Nelly, Luzilá,
Accioly e Waldemar
em levezas de hai-kais.
Tu escreves, Pernambuco,
por teus muitos imortais.
Poetas teus, Pernambuco,
filhos do chão de poeira;
mui férteis nos improvisos
os vates - cordéis de feira.
De Mauro Mota os duais,
graves cantos sociais
são Tecelã ... Mãe Solteira.
Poetas teus, Pernambuco,
Cabral, Cardozo e Bandeira.
Deste ao mundo,Pernambuco,
à mais pura das ciências
Mattos Peixoto ,Maurício,
e Nachbin eminências.
De Leite Lopes,José,
e o de Castro,Josué,
enormes por competências.
Deste ao mundo, Pernambuco,
as Freyre-Gilbertinências!
São gigantes,Pernambuco,
cada qual no seu estilo,
Agamenon Magalhães
que com Vargas foste ungi-lo.
Álvaro Lins e ademais
o mito Miguel Arraes
com Borba Filho, o Hermilo!
São gigantes, Pernambuco,
mas dos Coelhos, só Nilo!
Aqui, o autor o autor demonstra
o conhecimento histórico que tem do nosso povo. Fruto de pesquisas
que lhe deixam mais orgulhoso por estar e ser daqui:
Tu nasceste, Pernambuco,
por teus heróis de combates
como Vidal de Negreiros,
esse primeiro penates.
Parto de negros cativos
de par a índios altivos,
guerreiros de mil quilates.
Tu nasceste, Pernambuco,
no palco dos Guararapes.
Tu tens n’alma, Pernambuco,
um grande horror aos sicários
nos nomes de tua história
por tão imensos e vários.
De Frei Caneca a Nabuco
em tudo teu de mais pulcro
puseste a fé dos templários.
Tu tens n’alma, Pernambuco,
os ideais libertários.
Demonstrando pleno domínio
da arte poética, brinca com as palavras, a transportar-nos numa
deliciosa viagem imaginária aos tempos que não voltam
mais.
Quero voltar, Pernambuco,
às palavras empenhadas
pelos fios dos bigodes
-os avais feitos de nadas.
À água de flor,aos desmaios,
aos chistes de papagaios,
às damas ruborizadas.
Quero voltar, Pernambuco,
aos folguedos nas calçadas!
Como “antena da raça”,
o poeta faz-nos lembrar a necessidade de manter a altivez e a seriedade.
Para isso, a crítica severa do povo:
Vai livrar-te, Pernambuco,
dos que desonram teu nome,
os filhos da desgraçada
elite que te consome!
Não vês, são falsas as urnas
que referendam noturnas
escolhas de sobrenomes?
Vai livrar-te, Pernambuco,
da nódoa de tanta fome!
No moderno Pernambuco
veio o progresso e não mais
jornadas extenuantes
para o cassaco tenaz.
Já não há a fundo perdido
para o usineiro falido
as verbas das estatais...
No moderno Pernambuco
há lei nos canaviais!
Estamos falando de poesia popular,
entretanto, alguns podem observar que devido ao jargão usado
pelo poeta, e algumas abordagens de cunho mais crítico e até
mesmo filosófico, não estamos diante de uma obra popular.
Engana-se porém, quem acha
que o poeta do povo está condenado a falar matutês e o
tempo todo estar abaixando a cabeça pro coronelismo cultural.
O poeta do povo é também um poeta moderno, que estuda,
e atualiza-se, muito mais até, do que os pseudo-críticos
de plantão.
É canto de Pernambuco
(cantoria com alarde!)
semeando pelos ventos
sua especificidade.
Melodia de martelos
no ar, nas bocas, nos prelos,
pros velhos, pra mocidade.
É canto de Pernambuco,
só pernambucanidade!...
Por mim já sou Pernambuco,
meu novo jeito de ser;
tangido por seu aboio
como gado de tanger.
Crismado de sertanejo,
rendo graças e festejo
um direito de escolher.
Por mim já sou Pernambuco
sem certidão de nascer!
Quem quiser adquirir a versão
completa do poema Retrato de Pernambuco, deve solicitar através
do site da Livraria Expressa www.lirariaexpressa.com.br,
ou aguardar um pouco, porque nos próximos dias o poema completo
(60 estrofes) virá como anexo do suplemento cultural do Diário
de Pernambuco.
Grande abraço!
(novembro
de 2007)