por
Meca Moreno
Tem sido surpreendente a participação
popular, nos nossos eventos literários. Para dizer melhor, faço
breve relato dos três grandes eventos ocorridos recentemente,
no Estado de Pernambuco.
Primeiro sobre o V Festival Recifense
de Literatura, evento que a cada ano vem se consolidando da melhor maneira,
com a efetiva participação de todos os segmentos literários.
Entretanto, foi a Recitata (Recife em Cantata), certame poético-declamatório,
na sua segunda edição dentro da programação
do festival, que obteve o indicador de maior atenção do
público e dos artistas, passando de 48 inscritos em 2006 para
100 em 2008. Uma superação de mais de 100% na quantidade
dos participantes, que abrilhantaram manhãs e tardes do Mercado
da Boa Vista durante as duas eliminatórias, selecionando cinco
poetas em cada uma das etapas. Na final, os classificados deram um verdadeiro
show de poesia e interpretação. Dos 12 poetas que subiram
ao palco (duas duplas e oito individuais), nove são poetas populares
(incluindo as duas duplas) ou apresentaram-se como tal, com destaque
para o arrebatador do prêmio de campeão, Altair Leal, membro
da União dos Cordelistas de Pernambuco, UNICORDEL.
A surpresa seguinte foi na FLIPORTO,
Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas. O que para
alguns poderia ser visto como um evento elitista, terminou contrariando
essa lógica. Ao final ficou comprovado que a boa arte cabe em
toda parte, especialmente a arte do povo.
Além de grandes nomes da
literatura brasileira, renomados escritores e críticos de outros
países de línguas portuguesa e espanhola, grandes empresas
do segmento editorial, entre elas as pernambucanas Edições
Bagaço e Livraria Expressa. Na Fliportinho, espaço reservado
para o público infanto-juvenil, uma merecida homenagem a Elita
Ferreira, escritora palmarense que se encantou um dia desses, tendo
em seus livros o imaginário fantástico do povo como tema
principal.
Dos grandes nomes, o mais aguardado
e festejado foi Ariano Suassuna, que dispensa comentário sobre
a sua relação com a arte popular, mas é quando
saímos dos auditórios e vamos para as ruas e palcos externos
que percebemos a forte presença dos artistas do povo, a começar
pelo artesão e poeta popular Davi Teixeira, mais um membro da
UNICORDEL, que com seu boneco Bastião, roubava a cena por onde
passava, fazendo a alegria de crianças e adultos. Outro destaque
foi o poeta Chico Pedrosa, encantando aos ouvintes com sua poesia e
seus causos. O poeta Felipe Júnior, outro membro da UNICORDEL,
também estava lá com o seu mais novo livro Relicário,
esbanjando poesia, mostrando a todos que a juventude também está
diretamente envolvida com a poesia popular. O grupo Literatrupe deu
o ar da sua graça, animando as ruas com muita poesia e música
durante todo o evento. O folheteiro Lampião foi mais uma das
atrações das ruas de Porto de Galinhas. O poeta Edvaldo
Bronzeado levou sua alegria e sua música para Porto, com sua
gaita encantada. A cordelista Rivani Nasario, que também é
jornalista e pedagoga, era mais uma a atrair a atenção
dos visitantes, fazendo recitais e divulgando seu projeto pedagógico
através da literatura de cordel. Violeiros e sanfoneiros também
levaram poesia e muita música para Porto de Galinhas.
A ressaca da Fliporto ainda não
havia acabado quando teve início a VI Bienal Internacional do
Livro de Pernambuco, de 05 a 14 de outubro. Novamente arte e artistas
do povo marcaram presença. Outra vez o poeta e artesão
Davi Teixeira chamava a atenção de todos como seu boneco
falante Bastião, cantando e recitando a boa poesia, posando para
fotografias e até dando entrevistas para empresas de rádio
e televisão. Outros bonecos seus foram vistos em vários
estandes da Bienal do Livro, ora servindo de decoração,
ora expostos para a venda. Vale destacar que os seus bonecos de mamulengo
são confeccionados a partir de materiais recicláveis como
garrafas pet e pó-de- serra. Assim, o artista diverte o mundo
e dá lições de ecologia. Vale a pena uma visita
ao seu site: www.daviteixeira.com
A VI Bienal Internacional do Livro
de Pernambuco bateu todos os recordes. Este ano tivemos 535 mil visitantes.
Em 2005 foram 470 mil. O volume de vendas ultrapassou a barreira dos
600 mil livros vendidos, o que dá uma média superior a
60 mil livros por dia, gerando um volume de negócios com um valor
total superior a 12 milhões de reais, superando em 5 milhões
de reais o volume gerado durante a bienal de 2005.
Nos 10 dias da Bienal, o público
teve à sua disposição um total de 286 eventos como
palestras, filmes, mesas-redondas, seminários, discussões,
etc, sendo 65 deles na sala Cecília Meireles, 53 no Café
Literário, 59 no Cine Letras, 35 no Espaço Universitário
e 71 no Espaço pedagógico, ou seja, sucesso total.
É claro que todo esse sucesso
teve a contribuição valiosíssima do governo do
Estado de Pernambuco, que distribuiu bônus de 200 reais para mais
de 31 mil professores da Rede Pública Estadual de Ensino, para
aquisição de livros e outros produtos educacionais, além
de equipar as bibliotecas das escolas públicas, num total de
7 milhões de investimento.
Na Bienal do livro não
poderia ser diferente da Fliporto ou de outros locais onde o mestre
Ariano Suassuna faça alguma apresentação. Para
recebê-lo, um time de primeira: a cantora Bia Marinho e seus filhos
Antonio Marinho e Miguel Marinho, com muita poesia, causos e o melhor
da nossa música. A apresentação seria na sala Cecília
Meireles, por ser a maior, mas mesmo assim não deu. O público
era superior ao esperado e a apresentação foi transferida
para o lado de fora da sala, com boa parte do público sentada
no chão e outra grande parte, em pé, por trás dos
primeiros. E tome poesia, música, causos e gargalhadas, muitas
gargalhadas.
Outros representantes da cultura
popular que estão sempre presentes são os cordelistas.
A literatura de cordel vem ganhando espaço e respeito com o persistente
trabalho da União dos Cordelistas de Pernambuco, tendo à
frente o grande e dedicado poeta José Honório, com a presença
de todos os seus poetas e exposição de seus trabalhos,
como o cordel “A Avó Que Deu à Luz, os Filhos de
Sua Filha”, do próprio José Honório, falando
do nascimento dos gêmeos desenvolvidos no ventre da avó.
Caso ocorrido recentemente no Recife. “O Encontro do Capitão
Nascimento Com Lampião no Inferno”, numa referência
ao filme nacional “Tropa de Elite”, do jovem poeta Mauro
Machado, é outro folheto de cordel que demonstra a capacidade
do poeta-cordelista criar a partir do seu cotidiano. A UNICORDEL teve
um dos estandes mais visitados da bienal. Ao lado, o mestre da xilogravura
e também cordelista Marcelo Soares, mostrava sua arte com entusiasmo
e sabedoria. Presentes, outros gravadores de respeitável trabalho,
como Severino Borges. Também marcaram presença, xilogravadores
e cordelistas de outros estados, como o mestre Abraão Batista
(Juazeiro do Norte – CE), os irmãos cordelistas e ilustradores
de Fortaleza – CE, Klevisson Viana (Tupynanquim Editora) e Arievaldo
Viana (Academia Brasileira de Literatura de Cordel), sempre participando
dos nossos recitais. Do Rio Grande do Norte vieram os poetas populares
Neuza e Izaías e seus cordéis, além de outros.
Ressaltamos o lançamento
do livro Cuia de Poeta Cego Tem Verso de Toda Cor, do poeta José
Mauro de Alencar, mais conhecido como Júnior do Bode, poeta da
UNICORDEL. Aliás o mote-título do livro de Júnior
do Bode já caiu na boca do povo e está inspirando outros
poetas a glosá-lo.
Mais um sucesso foi o lançamento
do livro de Hérlon Cavalcanti, presidente da Academia Caruaruense
de Literatura de Cordel, sobre a obra de um dos nossos maiores mestres
da xilogravura e do cordel, o mestre Dila, com a presença do
próprio, abrigado na tenda da Uião dos Cordelistas de
Pernambuco, que agradeceu a presença do mestre, ao som envenenado
da banda Forró de Cana, com a presença dos irmãos
poetas e músicos Cristiano Bastos e Rafa da Rabeca. Título
do livro: “Xilogravuras do Mestre Dila”. Um grande e merecido
estudo sobre a obra do mestre.
Além dos recitais e venda
de cordéis, a UNICORDEL participou da Bienal dando oficina de
cordel através o poeta Altair Leal. O poeta José Honório
foi um dos palestrantes sobre tema que versava sobre a interface entre
o popular e o erudito, onde também abrilhantaram a mesa, o escritor
romancista Luiz Berto, como mediador, o poeta e contador de causos Joselito
Nunes e o poeta Dedé Monteiro, fazendo versos de improviso, arrancando
gargalhadas e suspiros da platéia.
Nos últimos tempos, em
nenhum outro lugar do mundo, houve uma concentração tão
grande de matutos por metro quadrado. Estamos falando do Armazém
Cultural Cariri & Pajeú – Toda Cultura de Lá.
Uma romaria enorme para participar dos recitais, para tomar uma cachaça
e comer um pernil de bode assado, e outros quitutes, além de
tantas outras coisas do sertão como alpercata e cinturão
de couro cru, queijo de leite de cabra, candeeiro a querosene, bucha
natural pra lavar prato ou tomar banho, mel de abelha uruçu,
livros, muitos livros, histórias e mais histórias. Tudo
com o carinho e a delicadeza das irmãs Ferraz, Neurides e Nelcita,
que transformaram aquilo ali numa filial do seu Box Sertanejo, do Mercado
da Madalena.
Foi lá que Carlito lima,
o Duque de Jaraguá, com a presença do Papa Berto I e todo
Colégio Cardinalício da Igreja Católica Apostólica
Sertaneja – ICAS, fez o lançamento do seu livro “7
Pecados e 3 Amores”, romance estradeiro de um viúvo tesudo
no Nordeste brasileiro. Um livro da bexiga lixa, que está sendo
lançado também na Bienal do Livro de Alagoas, onde mora
o também Cardeal Carlito Lima.
Presentes os criadores e contadores
de histórias, como o poeta João Badalo, Antonio de Catarina,
Dedé Monteiro, Joselito Nunes, os irmãos poetas e músicos
da melhor qualidade, Maviael, Marcone e Maciel Melo, aliás, o
poeta Maviael trouxe no matulão um livreto com seus mais recentes
trabalhos. Uma jóia da poesia popular. O grupo Fim de Feira,
retornando de turnê pela Europa, mostrou que não perdeu
o sotaque. Nádia Maia e Irah Caldeira embelezaram a tudo e a
todos, Josildo Sá, Xico Bizerra, Santanna, e outros representantes
do nosso forró, além de outros grandes artistas que reacenderam
a fogueira do coração da gente, como Allan Sales,Eduardo
Abrantes, Tales Ribeiro, o grupo Vates e Violas e o seu produtor, poeta
Jorge Filó e tantos mais. Presente também o professor
e poeta Maciel Cordeiro, trazendo a poesia de Tuparetama através
do seu livro Bricolagens, com poesia da melhor qualidade, exposto também
na UNICORDEL e na Livraria Expressa, com o nosso amigo e poeta Alberto
Oliveira, que durante toda a Bienal esteve junto com a FUNDARPE, onde
diariamente havia o Chá das 5, ou seja, todo final de tarde a
poesia rolava solta para os poetas de todas as tribos.
Cida Pedrosa e Sennor Ramos, mantenedores
do site Interpoetica estiveram conosco. Aliás, a poetisa Cida
Pedrosa foi uma das palestrantes mais festejadas do evento, juntamente
com a atriz e também poetisa Silvana Menezes.
Merece destaque o trabalho do
poeta Jorge de Souza, intitulado Retrato de Pernambuco, das mais belas
páginas cantando e decantando as coisas e a alma de Pernambuco
e sua gente, que ganhou versão em livreto de excelente qualidade
através da Livraria Expressa (www.livrariaexpressa.com.br),
um dos mais arrojados projetos culturais ao qual todos podem ter acesso.
Presenciei a assinatura do convênio da Livraria Expressa e seu
Clube Amigos da Cultura – CAMIC, com o Banco do Nordeste do Brasil,
um agente e grande empreendedor da nossa cultura.
O poeta Marcos Passos esteve presente
em todas, sendo um dos mais perseguidos pelos fotógrafos do Jornal
da Besta Fubana. Houve um dia que toda a família Passos resolveu
aparecer, ou seja, uma verdadeira caminhada. Outro poeta que não
consegue deixar sua passagem despercebida é o poeta Jessier Quirino,
que além de fazer o projeto arquitetônico do Armazém
Cultural Cariri & Pajeú, deu um show de poesia e humor. O
poeta Zé Moura foi uma das figuras mais abraçadas, mostrando
seu mais recente livro, um primor. Dedé Monteiro foi um dos poetas
homenageados pelo Armazém, além de outros poetas, entre
eles, alguns que já se encantaram, mas que continuam a nos embevecer
a alma com o que há de melhor na poesia, como Lourival Batista,
Manoel Filó e Pinto do Monteiro.
Os bonecos do estande da Prefeitura
de Olinda chamavam a atenção, mas quem de fato juntava
gente era a poetisa Rivani Nasario, a cangaceira do cordel, declamando
e chamando a atenção para o seu projeto pedagógico
de usar o cordel como mais uma ferramenta na sala de aula, lembrando
o educador Paulo Freire e sua pedagogia.
Ainda no estande da Prefeitura
de Olinda, encontrei um livro belíssimo intitulado Os Gigantes
de Olinda, de Erick Vasconcelos Araújo. O livro é o resultado
de um trabalho de graduação do Curso de Design gráfico
da UFPE. O projeto ganhou o apoio do Funcultura. É voltado para
o público infantil, a fim de divertir e preservar as nossas tradições.
Entretanto, com seu design arrojado e de excelente bom gosto, está
encantando também aos adultos.
Ao passar no estande do escritor
Sérgio Buarque, com seus livros de auto-ajuda, deparo-me com
as revistas de música “Disco de Ouro”, do amigo Vilarim,
um trabalho fantástico que me fez viajar ao tempo do velho e
bom “jornal de samba”. “Disco de Ouro” é
um trabalho primoroso feito no computador para em seguida ganhar velocidade
industrial, porém com uma grande diferença ao seu favor,
ou seja, o cliente pode escolher dentro de um catálogo imenso
e até mesmo customizar a sua revista colocando nela apenas as
músicas do seu gosto. Vale a pena conferir entrando em contato
com o editor através do endereço discodeouro@zipmail.com.br
ou através do telefone 34354742.
Lembro-me que ainda criança,
morei no Engenho Verde, à época pertencente à Usina
Serro Azul, onde nasci, no município de Palmares, Pernambuco.
Mais tarde fiquei sabendo que o escritor, pesquisador e dramaturgo Hermilo
Borba Filho havia nascido no Verde. A partir de então fiquei
curioso sobre Hermilo. Vejo agora que por mais que já tenham
falado sobre o mesmo, muito ainda há por se contar. Grande e
profícuo foi o seu trabalho para a nossa cultura.
A Companhia Editora de Pernambuco
– CEPE lançou muitos livros, dentre os quais destaco A
Palavra de Hermilo, volume organizado por Juarez Correya, poeta palmarense
e especialista em Hermilo Borba Filho, e Leda Alves (viúva de
Hermilo). O livro reúne entrevistas para jornais e revistas,
dadas por Hermilo desde 1940 até 1976, ano do seu encantamento.
O livro traz uma nova maneira de estudarmos o homem, através
de suas próprias palavras, em respostas aos questionamentos de
grandes nomes do nosso jornalismo e da nossa literatura.
O leitor mais atento já
deve ter percebido que o título desta coluna foi inspirado no
título do livro “Bacamarte, Pólvora e Povo”
(Edições Bagaço), do acadêmico, jornalista,
pesquisador e professor Olímpio Bonald Neto, onde o autor apresenta
o resultado de um enorme trabalho de pesquisa que vai além do
folclórico. Ele mostra-nos aspectos históricos, antropológicos
e sociais, de maneira gostosa, o que só quem tem a capacidade
de construir o bom texto literário é capaz de traduzir.
É também de Olímpio
Bonald Neto o excelente livro “Os Gigantes Foliões de Pernambuco”,
pela Compahia editora de Pernambuco – CEPE, em sua segunda edição.
Um livro bonito e bem cuidado. Antes do lançamento de sua primeira
edição (1992) já havia sido contemplado com o prêmio
Katarina Real – 1991, da Fundação Joaquim Nabuco
de Pesquisas Sociais. O livro também ajudou a levar a nossa cultura
aos confins do Brasil e do mundo. Os nossos gigantes são reconhecidos
como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
O autor mostra-nos bonecos gigantes
do mundo inteiro, em diversas épocas, a fim de nos contextualizar
para melhor entendermos. E consegue.
Além da sua própria
vivência, no livro contada com arte, ao final, Olímpio
apresenta-nos uma vasta bibliografia onde ele pesquisou, e que pode
ajudar a abrir caminho para muita gente que queira enveredar pelos caminhos
dos gigantes.
Com um grande abraço, parabéns
a todos!