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RECITATA
O GRANDE ENCONTRO DA POESIA

por Meca Moreno

 

A vocação do Recife como cidade literária é algo tão límpido e cristalino que não há como gerar dúvida. Entretanto, ao longo da história, percebemos períodos de grande efervescência, contrapondo-se a outros de mera apatia. Inócuos, pode-se assim dizer. Da mesma maneira vejo reflexos nas demais formas de manifestação e expressão cultural. Isso leva-nos a uma conclusão tão triste quanto óbvia: nunca houve um planejamento sistemático no âmbito cultural, dentro e além das nossas fronteiras. Inúmeras variantes têm contribuído para que isso aconteça, mas não vamos aqui, debatermo-nos sobre elas. O que quero, de fato, é falar sobre algumas gratas constatações verificadas nos últimos anos. O que me leva a crer que, mesmo que incipientes – cinco ou seis passos podem ser apenas o início de uma grande caminhada. Ainda é pouco, mas sem eles não existirá caminhada alguma. - são iniciativas assim, por parte do poder público, da iniciativa privada ou das chamadas Parcerias Público Privadas – PPP, em pequena ou grande escala, que farão o motor da cultura girar sistematicamente.

Primeiro quero abordar sobre o Festival Recifense de Literatura, que vem acontecendo com sucesso e está festejando a sua quinta edição anual, no período de 16 a 26 de agosto de 2007, ao custo de muito suor e dedicação dos seus organizadores, sob os auspícios do poder público municipal, o que nos deixa contentes pela conscientização da necessidade de uma política pública que venha contemplar a cultura como um todo, sabendo que a literatura é apenas um veio das inúmeras possibilidades de um povo bravo e de uma multiculturalidade pujante.

Outro ponto sobre o qual quero referir-me é a Recitata, ou seja, Recife em cantata, que tem a sua segunda edição este ano, dentro da programação do V Festival Recifense de Literatura. Acho por demais salutar, que a poesia venha ao povo dentro de um festival literário. Até aí, nada de novo, mas o que torna a Recitata uma novidade é o formato no qual foi concebida e está sendo levada a cabo. Diferentemente de outros certames poético-literários, o participante da Recitata é obrigado a colocar letra e voz, ao vivo, para uma platéia inquieta, porém atenta e ávida por poesia da melhor qualidade. É esta a grande sacada do concurso, trazer de volta a oralidade poética dos nossos vates.

Por outro lado, os desdobramentos da iniciativa são de um valor imensurável, posto que para participar, o poeta sai do seu gabinete ou da sua bancada, enfim, sai de casa e vai ver e sentir de perto, a praça, as ruas, os rios, o mercado, o povo, o cheiro do povo. Aclamado ou não, o poeta torna-se mais gente.

Participantes às vezes desconhecidos, chegam timidamente para mostrar a cara e entrosar-se com os demais. Novas vivências e experiências surgem a partir de então. O Recife não descrimina. Qualquer poeta, de qualquer lugar do Brasil pode participar. A limitação espacial ao território nacional não se dá por uma questão de bairrismo, mas, acredito, por uma questão da necessidade de uma comunicação mais próxima possível da perfeição, do entendimento dos signos criados e emitidos pelo poeta-ator, que está a interpretar a si mesmo ou a personagens seus, com o júri popular. Os poemas devem ser recitados em língua portuguesa. É bom lembrar que os componentes do júri são escolhidos dentre os da platéia, inscritos ali mesmo, para essa finalidade.

O desencadeamento dessas ações tem valor sem medida. Que venham todos os poetas, recifenses ou não. Pernambucanos, paraibanos, alagoanos, norte-rio-grandenses, cearences, piauienses, maranhenses, sergipanos, baianos, brasilienses, sul-rio-grandenses e mais todos os poetas desta nação. Venham ver e viver o Recife. Juntos, todos esses poetas fazem da nossa Recitata, nas palavras dos poetas Pedro Américo de Farias e Ivan Marinho, “um dos grandes encontros da poesia Brasileira”. É claro que eu engrosso o cordão daqueles que também pensam assim.

Ademais, vale ressaltar uma outra constatação de sucesso no âmbito cultural, refiro-me ao COCANE – Congresso de Cantadores do Nordeste, que este ano fará a sua VI edição, durante o mês de novembro. Algo que começou por iniciativa do poeta-repentista Antonio Lisboa. Uma excelente idéia que terminou sendo encampada pela Secretaria de Cultura do governo municipal, com a FCCR – Fundação de Cultura da Cidade do Recife assumindo a responsabilidade da organização e execução. Há também o Festival de Cantadores, patrocinado pelo governo estadual, com edições classificatórias em várias cidades de Pernambuco e com uma final em Brasília.

No que diz respeito à cantoria, segundo Antonio Lisboa, 95% das iniciativas de festivais e noitadas de baiões de viola em toda a região Nordeste, são patrocinados pelos próprios cantadores e/ou apologistas da cantoria, tendo a cidade do Recife, o privilégio de ter mais apoio oficial do que outra qualquer.

Quero parabenizar a esses trabalhadores da cultura, que possibilitam essas manifestações aos artistas e ao público, estejam eles à sombra de qualquer governo ou da iniciativa privada. A cultura agradece.

Grande abraço!

(agosto de 2007)

mecamoreno@click21.com.br

 

 

 

 

 

 


REVERSO:
o lado prosa da poesia

MECA MORENO é pesquisador, poeta e compositor.

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