por
Meca Moreno
Foi durante reunião da
União dos Cordelistas de Pernambuco – UNICORDEL, que tomei
conhecimento, em primeira mão, de uma preciosidade histórico-literária
de rara beleza, intitulada LEMBRANÇAS DO RECIFE EM CORDEL, livro
do poeta, médico, matuto e amante da cultura nordestina Ernando
Carvallho. Obra recentemente parida dos prelos da Editora Coqueiro,
que tem como maestrina e articuladora a poetisa Ana Cely Ferraz. Um
trabalho que impressiona a partir da capa, com o colorido exuberante
e tropical da Rua da Aurora, tendo o Capibaribe como espelho a capturar
imagens do casario, permanentemente colorindo suas águas, tornando-o
o rio-casa que conhecemos. Uma imagem transportada para um belíssimo
quadro em aquarela, captada pelas lentes do olhar arguto do artista
plástico Leonardo Filho, com técnica invejável,
reproduzido na capa pelo editor e mago da computação gráfica
Ígor Santos. Leonardo Filho ainda ilustra cada capítulo
com desenhos primorosos feitos a bico-de-pena, de monumentos e paisagens
que só o Recife tem.
Iniciando, temos três dedicatórias
emocionadas. A primeira a José Pereira de Barros, Zezinho, irmão
adotivo do autor de quem ele, ainda criança, escutou a primeira
leitura de um folheto de cordel, influenciando sua paixão pela
poética dos nossos versejadores; a segunda ao mestre, poeta,
apologista e professor José Rabelo de Vasconcelos. A terceira
a Lucas Soares Cardoso, que incentivou a sua primeira empreitada na
literatura de cordel como autor.
Ernando Carvalho faz homenagem
à cidade do Recife pelos seus 470 anos, bem como ao frevo pelo
seu centenário. Na apresentação, conta-nos de sua
saída da terra natal, a querida e festiva São José
do Belmonte, onde no mês de maio, anualmente temos a tradicional
Cavalhada Zeca Miron, onde mouros e cristãos revivem embates
d’outrora. Brincadeira e festa que viraram tradição,
tendo o autor como um dos organizadores. Depois conta-nos de sua chegada
à capital pernambucana e de suas paixões pelo Recife de
todos nós.
O autor abre cada capítulo
com citações de versos d’outros poetas que, como
todos nós, tiveram ou têm o Recife como referência
poética universal. A começar por Carlos Pena Filho, como
se estivesse o poeta do azul, apresentando-nos o livro com o seu genial
Guia Prático da Cidade do Recife.
Mas não é só
junto ao rio
Que o Recife está plantado,
Hoje a cidade se estende
Por sítios nunca pensados,
Dos subúrbios coloridos
Aos horizontes molhados.
Em seguida temos Lopes Gama, o
padre Carapuceiro, com trecho do seu poema O Novo Recife, que
antecede o capítulo Geografia Urbana. O poeta mostra
o Recife mágico que encantou o menino sertanejo. Depois temos
o vate compositor Antônio Maria, abrindo o capítulo Bairros,
ruas e pontes, com o seu Frevo Nº 2, para em seguida,
embriagarmo-nos com as bem trabalhadas septilhas ernandeanas a respeito
dos arrabaldes, com suas ruas e vielas de nomes encantadores e suas
magestosas pontes, ligando lugares e pessoas. Logo depois temos Monumentos
e Prédios, capítulo antecedido por Jerônimo
Vilela, com reprodução de parte do seu poema A Minha
Terra Natal. É aí que o poeta belmontense revela-nos
monumentos como a Cruz do Patrão, os fortes e tantos outros locais
onde diariamente o recife reinventa-se através da cultura do
seu povo. No capítulo quarto, somos presenteados com Igrejas
e Festas Religiosas, onde o poeta fala da fé e das crenças
do povo altaneiro do Recife e de Pernambuco. Carvalho escolheu J. Baudel
Pessoa, com o seu poema Canto de Amor à Cidade do Recife,
como cabeçalho.
Praças, Parques e
Plantas é o título do capítulo quinto, ilustrado
por bico-de-pena de Leonardo Filho e trecho do poema Um Baobá
no Recife, de João Cabral de Melo Neto. Seguem ainda os
capítulos Teatros, Museus e Centros Culturais; Carnaval e
Futebol; Coisas da Terra; Recordações. Todos antecedidos
por poetas consagrados, numa homenagem do autor, que mostra seu respeito
e admiração por cada um deles. Assim, temos Carlos Martins
Moreira, com Pequeno Guia da Cidade do Recife, Getúlio
Cavalcanti, em Último Regresso, Deolindo Tavares, com
O Vendedor de Pitomba, do livro Pregões do Recife,
Manuel Bandeira, em Evocação do Recife.
Cidade de palcos sagrados, museus
e centros culturais, comprovando e fazendo jus ao título de capital
multicultural do Brasil. Cidade-carnaval, de passistas e demais foliões
vibrando ao som dos clarins, dos clubes, troças e blocos, ursos,
maracatus de baque solto e de baque virado, da Noite dos Tambores Silenciosos,
onde fazemos reverências e agradecimentos aos nossos antepassados.
Cidade-sentimento. Recife de todos os brinquedos populares, de um povo
bravo, heróico, brincalhão, hospitaleiro e irreverente.
Lembranças dos nossos mascates e dos pregões poéticos.
Dos saraus, do Graf Zeppelin, da Torre do Jiquiá e de tantas
outras lembranças que só olhando e lendo o Recife pela
lente de um poeta que traz no sangue e no olhar a herança e o
veio poético de mouros, judeus, cristãos, negros e índios,
numa grande mistura étnico-religiosa para poder enxergar.
Conheço e admiro outros
trabalhos literários do autor, em prosa e verso, especialmente
os trabalhos referentes às cavalhadas de São José
do Belmonte e à Pedra do Reino, além dos seus vários
folhetos de cordel.
O livro Lembranças
do Recife em Cordel traz à tona um outro conceito de literatura
de cordel, quanto à estética midiática, como o
meio e o formato de apresentação da literatura de cordel.
Diferentemente dos idos de 1976, quando o grande pesquisador Raymond
Cantel pontuou que o cordel seria “a poesia narrativa popular
impressa”, servindo de base para que muitos defendessem
que o que não fosse impresso no formato de folheto de cordel
(11 X 16 cm), em papel jornal, não poderia ser considerado literatura
de cordel.
É claro que as considerações
acima estão completamente superadas no que diz respeito à
forma de apresentação, sem mexer na estética da
essência poética exigida pelo gênero ou estilo literário
do cordel, com suas formas fixas bebidas da cantoria de viola, com métrica
rigorosa e rima perfeita.
O livro apresenta-nos a cidade
do Recife em literatura de cordel em um formato diferente do cordel
tradicional, e nem por isso deixa de ser cordel.
Cordel é campo e também
cidade. Poetas urbanos ou não, podem produzir literatura de cordel
com competência e qualidade. Hoje não temos apenas o meio
impresso como forma de gravação. As novas tecnologias
permitem-nos as mais diversas mídias para veiculação
e transporte de informações. Temos os recursos multimídia
como CD, DVD, MP5, etc. Imagens, dados, voz trafegando na Internet a
zilhões de bits por segundo. Peleja virtual, fotolog, blog, site,
rádio, cinema, TV, impressão a laser, jato de tinta, off-set,
em cores e P&B; tela do computador, tela do telefone celular, etc.
O cordel está nas escolas,
nos mais diversos níveis (básico, médio e superior),
inclusive nos de pós-graduação.
“Literatura de Cordel, com
uma subdivisão em Oralidade, a Cantoria, e em de Bancada. Em
ambos os casos, o cordel, mesmo que não haja cordel nenhum, ainda
que não se imprima o folheto, o gênero é cordel.
A palavra cordel vai além do folheto popular de poesia pendurado
num barbante. Cordel é a poesia popular, impressa ou não.”
(Eduardo Diatahy).
Entendo a expressão Literatura
de Cordel como sinônimo de Literatura Popular, enquanto que a
expressão Literatura é literatura dos livros, Literatura
de Estante, como diz Diatahy. E que o poeta pode viajar as três
viagens: a Cantoria, o Cordel e o Livro.
Ao final do livro, Ernando Carvalho
apresenta-nos vasta bibliografia que lhe serviu como fonte de pesquisa,
base e referência para o seu belíssimo Lembranças
do Recife em Cordel, que tenho certeza, logo estará sendo
lançado com grande sucesso, para deleite de todos nós,
ávidos por obras que tragam consigo a marca da qualidade e do
prazer de fazer bem feito.
Grande abraço!
(julho
de 2007)
mecamoreno@click21.com.br