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CUIA DE POETA CEGO
TEM VERSO DE TODA COR

por Meca Moreno

 

O poeta Júnior do Bode, que também atende pela alcunha de José Mauro de Alencar, dentro da sua genialidade de menino-poeta, concebeu o mote acima e, a partir daí, desenvolveu excelentes glosas. Zé de Cazuza, um dos nossos grandes mestres da arte poética, frisou muito bem que só os poetas grandes conseguem o entusiasmo criador para façanhas equivalentes. Para endossar sua afirmação, recitou o poema "Aos Críticos", de Rogaciano Leite, com o qual o poeta-mor inicia o seu livro "CARNE E ALMA". Podemos encontrar o poema na página 19, da terceira edição, CEPE, 1988, sob patrocínio do Governo do estado de Pernambuco, onde o poeta fala da influência dos grandes nomes da literatura como Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Drummond de Andrade, Castro Alves, Olavo Bilac e tantos outros mestres, mas que apesar de tudo, não esqueceu suas raízes brejeiras e sertanejas, justificando que no seu livro está presente o ecletismo das várias vertentes e diversas escolas, concluindo o poema com a estrofe seguinte:

Finalmente este volume
De tão fraca ressonância
Tanto tem risos da infância
Quanto guerra, fome e amor...
Numa palavra, senhores,
O livro que vos entrego
É como saco de cego:
Tem feijão de toda cor!...

Rogaciano usou como recurso imagético, um adágio popular muito mais antigo do que se possa imaginar: o saco de cego das feiras de todo o mundo, que de cada feirante vai recebendo um punhado ora de feijão mulatinho, ora de feijão branco ou preto, ora de milho, de farinha, de rapadura e de outros mantimentos, tudo dentro do mesmo saco.

O adágio tem séculos de existência, mas poucos foram os homens que o usaram de forma mais criativa. Tenho notícias de quatro poetas que foram felizes neste sentido: Júnior do Bode, de quem tomo emprestado o título do seu livro (2007) para encabeçar esta coluna, Rogaciano Leite, no poema "Aos Críticos" escrito em 1950, Oliveira de panelas, no poema "Saco de Cego", do seu livro "Biblioteca de Cordel" da Editora Hedra (2001) ao mesmo modo de Júnior e Rogaciano, referenciando-se ao conteúdo do seu livro:

... No meu livro tem doutrina,
Moral e filosofia,
Humorismo, poesia.
Romantismo e preconceito,
Na misturada não nego:
Meu livro e saco de cego
É tudo do mesmo jeito.

Também o poeta açoriano Vitorino Nemésio (1901-1978), no poema "Cantigas à minha viola", constante no seu livro "Festa Redonda", onde diz que sua viola é o seu saco de cego.

... Pendurada a tiracolo
No teu cordão cor de vinho,
És o meu saco de cego,
O meu burro e o meu moinho.

O livro do poeta Júnior do Bode, que tem a marca da Editora Araripe, traz na capa, xilogravura do mestre José Costa Leite, além de ilustrações de outros mestres como Marcelo Soares, Severino Borges, Costa Leite e do próprio autor.

O poeta viaja em muitas direções sem perder o rumo em momento algum. Tem plena consciência de que sabe versejar e que é com o seu verso que conseguirá iluminar consciências.

O soneto abaixo atesta e desperta para os sabores e cores da poesia de Júnior do Bode:

Sinto o cheiro das cores no escuro
Vem a brisa tranqüila e me conduz
Em meus pés, bate o chão, fico seguro
Retornando à estrada apalpo a luz

Na calçada de Deus, a fome eu curo
Quando o som da rabeca me deduz
Harmonias. Transcrevo um verso e furo
O silêncio e a réstia se introduz

Amolece a ganância e várias quedas
Já trinaram na cuia seis moedas
Seis beatas, seis choros, seis canções

Me recolhe a carência a suas dores
Rebatidas com versos e os temores
Vão sorrir escutando os meus baiões

O livro de Júnior pode ser encontrado no Box Sertanejo, dentro do Mercado da Madalena, nas melhores livrarias e outras bodegas, além de você poder adquirir com o próprio autor através do telefone 92870220 ou pelo e-mail: juniordobode@gmail.com

Grande abraço!

(março de 2008)

mecamoreno@click21.com.br
 

 

 

 

 

 

 


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MECA MORENO é pesquisador, poeta e compositor.

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