por
Meca Moreno
Há poucos dias, durante
um sábado à tarde, estávamos acotovelando-nos nos
corredores do Mercado da Madalena, no Recife, para obtermos o privilégio
de participar de uma grande festa poética. Era o lançamento
do terceiro livro de um dos gigantes da poesia popular brasileira: Dedé
Monteiro. Um homem simples e bom. Querido e admirado por todos, desde
o litoral até as mais recônditas grotas dos sertões
do Brasil, sem nunca esquecer o caminho de casa, em sua querida e muito
mais que poética e hospitaleira Tabira, cidade encravada no Sertão
do Pajeú, Pernambuco, manancial de poetas.
Título do livro: FIM DE
FEIRA, dos mais sugestivos, especialmente para ser lançado no
mercado público do bairro da Madalena. De fato houve uma grande
festa dentro de uma enorme feira de cultura genuinamente nordestina.
Como poesia e música são
indissociáveis, estiveram por lá as mais respeitadas e
fulgurantes figuras da nossa música popular e, o que já
era esperado, os mais legítimos representantes da nossa poesia.
Recital, shows, autógrafos,
fotografias, abraços calorosos e verdadeiros, conversa, muita
conversa. Multidão de gente boa e mais cachaça e poesia
da melhor qualidade. Mais alegre, outro ambiente no mundo não
havia. Era tanto matuto por metro quadrado que os computadores do Box
Sertanejo ficaram doidos e não deram conta da estatística.
Na Confraria dos Chifrudos, mais conhecida como Bar dos Cornos, o sino
ficou rouco de tanto tocar para anunciar a chegada de mais um.
O calorão batia nas panelas
do bar de Fernando, de tal forma que ele não precisava nem ligar
o gás do fogão pra preparar o ponche. Diz ele que lá
tudo funciona com energia solar. Pois sim, só lá.
De volta pra casa, livro em punho,
coloquei-o junto aos outros da pequena biblioteca familiar. No domingo,
curada a ressaca, bati os olhos no danado e só larguei-o ao final
da leitura, com um misto de paz, emoção e deslumbramento.
Eu já conhecia parte da
obra do poeta, mas a partir de então pude perceber com mais clareza
a presença do tripé euclidiano presente em Os Sertões:
O Homem, a Terra, a Luta, também na obra do poeta de Tabira.
Dedé retrata a si e ao
seu povo sem arrodeios, de maneira simplória e emocionante. Fala
de gente modesta, de heróis e anti-heróis. Está
sempre disposto e agradecido a Deus, a tudo e a todos, e particularmente
aos familiares e aos seus padrinhos no que diz respeito ao livro: Evilácio
Feitosa, João Veiga e Joselito Nunes. Fala do seu lugar, o centro
do seu universo poético e vital. Das histórias e estórias,
dos animais, da chuva, do sol, dos costumes, das coisas que compõem
a essência do viver.
Nos seus versos, conta-nos o
poeta, muitas vezes alegre, noutras triste, mas sempre com uma carga
emocional fantástica, a labuta do seu povo, apesar de tudo e
apesar de todos, a firmeza de uma direção, um norte, uma
estrada que não tem volta, a estrada da bravura e da valentia.
No decorrer da leitura, percebemos a esperança e a garra vindo
a todo instante para acudir a alma da gente que ri e que sofre, que
canta e chora para deixar de herança apenas uma palavra, que
alimenta desde sempre a alma verdadeiramente nordestina: dignidade.
É com emoção
e com carinho que a todo instante recomendo a leitura do livro FIM DE
FEIRA, de Dedé Monteiro, um homem que se traduz em poesia.
Grande abraço!
(junho
de 2007)
mecamoreno@click21.com.br