por
Meca Moreno
Sobre este assunto muita gente
já falou. Para referendar o que estou dizendo, quero lembrar
dois grandes nomes da literatura brasileira: João Guimarães
Rosa e João Cabral de Melo Neto. O primeiro, romancista de Grande
Sertão: Veredas, mineiro de nascimento; o outro, poeta pernambucano
consagrado, autor de Morte e Vida Severina. Para complementar
o raciocínio, cito o poeta português Ernesto de Melo e
Castro. Todos me ajudaram a compreender e aprofundar-me um pouco mais
na discussão, que continua.
Ninguém ignora João
Cabral, categórico em afirmar a busca da objetividade na construção
do verso; que a inspiração não é algo presente
na sua obra; que o rigor formal e a consciência determinam a composição
literária; que tudo se faz com muito trabalho e suor. Em parte,
de certa maneira isso mexia e mexe comigo. Não no que se refere
ao trabalho ou transpiração do criador, mas por não
entender o fazer poético sem o bafejo da inspiração.
Porém, em se tratando de João Cabral, isso merece ao menos
uma reflexão.
Analisando algumas de suas afirmativas
e a lógica existente na sua obra, juntamente com comentários
de outros autores e críticos, percebo certas nuances. Na minha
interpretação de aprendiz, Cabral rechaça a presença
da inspiração, entretanto, o próprio Cabral admite
um certo sopro do instinto quando afirma em “Poesia e
composição: a inspiração e o trabalho de
arte” (Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 1997):
O trabalho de arte deixa de ser essa
atividade limitada, de aplicar a regra, posterior ao sopro do
instinto. Também não se exerce nunca num exercício
formal, de atletismo intelectual. O trabalho de arte está, também,
subordinado às necessidades de comunicação.
João Cabral continua:
Essa espécie de poesia, geralmente, e hoje em dia, sobretudo,
atinge mais facilmente o leitor. Ela é escrita em linguagem corrente,
não por amor à linguagem corrente, mas como um resultado
de sua pouca elaboração.”
E ainda:
“Falei em que esse tipo de poeta é um ser passivo que
espera o poema. Note-se bem, ele não espera somente um momento
propício para realizar o poema. Ele espera o poema, com seu tema
e sua forma”.
O que Cabral chama de sopro do
instinto, para mim soa como inspiração. Assim, interpreto
que para o poeta de O Cão Sem Plumas, necessariamente
não basta esse sopro instintivo ou, para mim, inspiração.
Ela deve ser acompanhada (sempre) de trabalho, muito trabalho. Atento
e minucioso. Consciente e proposital. É aí que entra o
rigor formal e estético exigido pela arte poética.
Entretanto, essa mesma exigência
é o que leva o romancista Guimarães Rosa a desvencilhar-se
da forma poética, chegando ele a afirmar numa entrevista dada
ao crítico alemão Günter Lorenz, durante o Congresso
de Escritores Latino-Americanos, no ano de 1965, na cidade de Gênova,
(ROSA, João Guimarães. Diálogo com Guimarães
Rosa. COUTINHO, Eduardo de Faria (Org.). Guimarães Rosa
– Fortuna Crítica. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1991):
Quando mais tarde chegou o tempo em que eu não quis continuar
escrevendo, instintivamente, eu que quis ser ‘poeta’, comecei
a fazê-lo conscientemente.
Mais tarde, Rosa justifica porque
não continuou com a poesia, retornando à prosa:
Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se
deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser
a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”,
à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é
a vida e não a lei das regras chamadas poéticas.
No meu entender, Rosa volta a
escrever sobre assuntos escritos pela vida, sim. Mas não
ao “conto simples”, posto que uma das características
principais na sua obra é justamente a esmerada composição
textual, o que faz com maestria. Aliás, foi também ele
quem falou: “A língua serve para expressar idéias,
mas a linguagem corrente apenas clichês e não idéias”.
Acredito que Guimarães
Rosa, na verdade, descobriu que era impossível viver sem a prosa.
Poderia continuar produzindo nas duas formas, mas resolveu dedicar-se
inteiramente à forma prosaica. O tempo mostra que o que poderia
ser apenas uma questão de opção estética,
era, a bem da verdade, a escolha da melhor maneira que o autor encontrou
para se comunicar com o seu público, mesmo porque na prosa do
romancista, desde o início até o final, há uma
trama perceptivelmente bem trabalhada, elaborada de maneira miúda,
minuciosa, com a preocupação de comunicar bem. Criando,
inquestionavelmente, imagens recheadas de poesia.
O pensamento de Rosa assemelha-se
ao de Cabral quando o primeiro diz:
A personalidade do escritor, ao escrever, é sempre seu maior
obstáculo, já que deve trabalhar como um cientista e segundo
as leis da ciência; ela o faz perder seu equilíbrio, tornando-o
objetivo quando deveria buscar a objetividade. A personalidade, é
preciso encarcerá-la no momento de escrever.
Estamos falando de dois ícones
da literatura nacional, ambos com níveis intelectuais muito acima
da média, mas que também escreveram sobre coisas e acontecimentos
do campo e de sua gente simples, na maioria das vezes, iletrados. Então
me vem a idéia de comparar os processos de criação
e elaboração estética dos mestres acima, com os
dos nossos poetas populares.
Quero salientar que ser iletrado
ou ter baixo grau de escolaridade formal não significa ter baixo
nível de conhecimento. Às vezes, pessoas de condições
mais humildes e menos favorecidas demonstram níveis de conhecimento
geral ou específico bem acima de muitos sabichões arrogantes
e prepotentes.
Outra constatação
é que os nossos poetas populares, como homens atuais, também
têm plena consciência da necessidade e direito legítimo
de acesso aos conhecimentos mais aprofundados em todos os campos. Dentre
eles encontramos muitos com cursos concluídos no nível
de graduação universitária e até mesmo mestres
e doutores.
Imaginemos então o cantador
nordestino mais simples e humilde, adepto confesso e orgulhoso do baião
de viola ou o cordelista que dita seus versos para que alguém
registre, porque não sabe escrever. A primeira questão
é imaginar o que seria de um poeta nessas condições,
caso não existisse a inspiração ou o “sopro
do instinto”, como diria João Cabral de Melo Neto.
É de se imaginar que a inspiração é certamente
o seu grande trunfo.
Mas o que dizer quando, analisando
sua obra, encontramos nos seus versos, construções complexas,
sistematicamente bem elaboradas, dentro de um esquema de rimas que obedece
determinado padrão de combinações, que considera
e obedece as regras lingüísticas da fonética quanto
à acentuação tônica, com suas rimas agudas
ou masculinas para as palavras oxítonas; graves ou femininas
para as paroxítonas ou monossílabos tônicos, e até
mesmo o uso de rimas menos comuns, como as chamadas rimas esdrúxulas,
com sua tonicidade proparoxítona. Ainda falando de rima, percebemos
que o poeta sabe que a tradição exige, no que diz respeito
à coincidência de sons, o uso das chamadas rimas perfeitas
ou soantes, ou seja, aquelas onde há correspondência completa
de sons a partir da vogal tônica, como em cabelo
e camelo. Deixando as rimas toantes, também
ditas imperfeitas, aquelas que depois da vogal tônica, coincidem
apenas as vogais seguintes, mas não as consoantes, como em leito
e beijo, para gêneros
poéticos que não sejam a típica poesia popular
nordestina. Sem preciosismos, nossa poesia popular exige, também,
rima perfeita. Simples, porém, perfeita.
Quanto ao seu valor, a rima pode
ser rica ou pobre (não confundir com rima ruim). São diferentes
apenas quanto à classe gramatical das palavras rimadas. A rima
rica é aquela que ocorre entre palavras de classes gramaticais
diferentes, como mar (substantivo) e sonhar
(verbo) ou esta (pronome demonstrativo) e
modesta (adjetivo), enquanto as rimas pobres
podem ser reconhecidas por pertencerem à mesma classe gramatical,
como conhecer (verbo) e comover
(verbo) ou garupa (substantivo) e lupa
(substantivo). Quanto ao valor, temos ainda as rimas raras, compostas
por palavras de poucas rimas possíveis, como obscura
e nervura; A rima preciosa é aquela
composta por palavras artificiais como desposar-te
e aparte. Para o poeta popular, o valor rimático
talvez seja o que menos interessa. Ele busca a rima perfeita quanto
à coincidência de sons, procurando evitar, quando possível,
aquelas reconhecidamente mais fáceis, como as terminadas em “ão”,
erroneamente confundidas com rimas pobres.
Dentro da poesia popular nordestina,
a tradição exige metrificação perfeita.
Na velocidade entre o pensamento e a articulação para
a explosão verbal, o repentista encanta aos ouvintes e a si próprio,
compondo o verso na hora, de repente. Numa seqüência lógica
impressionante, a estrofe sai perfeita, permitindo imagens inconfundíveis.
Ocorre como se houvesse alguém invisível, ali juntinho,
dizendo algo, enquanto ele traduz para todos, colocando no seu devido
lugar, palavras suas ou da voz que lhe traz mensagens ao pé-do-ouvido,
captadas através da intuição. Tudo com rima, métrica,
imagem e oração, características basilares para
a poesia do povo. Nos versos à viola podemos perceber mais: ritmo
perfeito, com os ictos (sílabas tônicas principais do verso)
recaindo sempre no mesmo lugar, determinando a isorritmia nos versos
isométricos, dando cadência singular a cada gênero.
No cordel, os versos podem ser também, heterorrítmicos,
mas, necessariamente devem ser isométricos.
Vem então a pergunta: -
Se não houver a inspiração, ou o bafejo intuitivo
a soprar-lhe aos ouvidos, como é possível ao poeta compor
o poema, se ele nunca parou para estudar e às vezes nem sequer
ouviu falar nesse palavreado esquisito que a gente só encontra
nos livros sobre versificação, às vezes em alguns
livros de gramática portuguesa, dentro das academias ou quando
algum maluco resolve tocar no assunto?
Recorro então ao poeta
Ernesto de Melo e Castro, certamente um dos mais conhecidos nomes da
literatura portuguesa da atualidade, quando ele diz:
“O poeta inspirado não existe. Mesmo os poetas populares
analfabetos, tanto os do Alentejo, em Portugal como os nordestinos do
Brasil, têm uma profundíssima cultura poética recebida
por via oral e são herdeiros de um saber indissociável
das suas existências.”
Assim, o poeta remete-me a outro
assunto. À transposição marítima da matriz
poética árabe para as bandas de cá. Trazida da
Península Ibérica pelos europeus cristãos “arabizados”
e principalmente pelos não cristãos árabes (muçulmanos
ou não) e judeus que adentraram os nossos sertões para
fugir da inquisição católica, mantendo-se em núcleos
isolados durante muitos anos, repassando a matriz poética (árabe
por excelência) através da via oral, de geração
em geração, para revelar-se no final do século
XVIII e início do século XIX, na Serra do Teixeira, Paraíba,
para a partir dali, conquistar todo o nordeste brasileiro e depois ganhar
o mundo.
Apesar de toda a trama poder ser
construída com areias do mesmo deserto, um oásis não
surge do dia para a noite. Voltaremos noutras luas...
Grande abraço!
Referências
bibliográficas:
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro:
Ed. Lucerna, 37ª edição, 1999.
MARTINS, Carlos. Noções
de Versificação Portuguesa. In:
http://www.sobresites.com/poesia/forum/viewtopic.php?t=2243,
em 01/02/2006
MELO NETO, João
Cabral de. “Poesia e composição: a inspiração
e o trabalho de arte”. In: João Cabral de Melo Neto: prosa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
MORENO, Meca. GIRAMUNDO,
O Espectador do Fim & Gêneros da Poesia Popular. Ed. Bagaço:
Recife, 2005.
ROSA, João Guimarães.
“Diálogo com Guimarães Rosa”. In:COUTINHO,
Eduardo de Faria (Org.). Guimarães Rosa – Fortuna Crítica.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
REVISTA DA LÍNGUA
PORTUGUESA. Ed. Segmento, edição número 30, página
9. Ano III: 2008.
REVISTA MULTIDISCIPLINAR
N° 04 - DEZEMBRO DE 2007 / ISSN 1980-5950
Saber acadêmico
http://www.uniesp.edu.br/revista4/publi-art2.php?codigo=7,
em 01/05/2008
(maio
de 2008)