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Regina Carvalho
(1963 Recife/Pernambuco)

 

 


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Não é de violinos

Não é de violinos
o canto do meu povo
é de garganta
narinas,pífanos
atabaques e emboladas.
A baqueta de sua orquestra
é de quengas
tambores e tamancos.
Rege meu povo
o pescoço
a veia pulada
a raís dos pés
o sangue selvagem.
São cânticos ancestrais
de deuses desterrados
que ninguem lembra mais...
O canto do meu povo mestiço
amordaçado
em guitarras elétricas
e signos que desconheço.
Oh,jia na beira do rio
Oh,jia na beira do rio
quem vai querer estes signos?
Quero não quero não quero não...

 

Chumbo derretido

Chumbo derretido
as tenazes incandescentes
do olhar quase banal
deste mar de bananeiras
deste mal estar geral
que nos causamos.

Uma alma vestida de carne
sem graça o esqueleto rí
por tempo indefinido
uma alma
você olha

...e quatro cavalos enfurecidos
ripostam
nos pontos cardeais de mim.
Foram duas horas de agonia
duas horas e meia.
Mas não é o homem
um degredo de carne?

Agregado de pó
libélula de luz
liberdade.

 

Soneto de um amor egoísta

Não,não vá ainda
que o tempo voa
e a negridão da noite
é extensa e não finda.

Ai, não vá ainda
demore-se mais um pouco
pulsando assim
covardemente. Fica!

Não te arrisques
que se deres mais um passo
o abismo te engole

a velhice chega a juventude obsoleta há de estancar
deixa que se partam esses nossos pedaços devagar.

 

Fora de mim

Fora de mim
suspenso no ar
o sax sôfrego
do luar.
Dentro
o mármore rubro
inalterável
Taj-Mahal.

 

Somos das ultimas ramificações

Somos das ultimas
ramificações
das raíses
delicadas como olhos.
Poderosas
ao ligar
o extremo oposto
ao ápice das copas.
Somos o elo
entre o hálito
e a pedra.

 

Sobre as calçadas

Sobre as calçadas
Cristo caminha
calmamente
não há pupila que o trague
Ah,minha sede débil
minha aguda sede impudente
minha sede Titã!
Minha sede
quem te porá um fim?

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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