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Cícero Belmar
Rossellini amou a Pensão de Dona Bombom

 

 

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Natural de Bodocó (PE), filho de Adrina e Cícero (Bé), nasceu a 20 de janeiro de 1963. Ele acabou de lançar o romance "Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom", que recebeu os prêmios de ficção Vânia Souto Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, e o Lucilo Varejão do Conselho Municipal de Politica Cultural, da Fundação de Cultura do Recife.

Este é o segundo romance de Cícero. Em 2001, ele lançou "Umbilina e Sua Grande Rival", que também recebeu o mesmo prêmio da Fundação de Cultura. Além desses dois romances, ele tem também um livro de contos, "Tudo na Primeira Pessoa" e duas biografias: "POla" e "O homem que arrastou rochedos".
                                                

 
 

Ele também é autor de teatro, com três peças de sua autoria encenadas no Recife: "A Flor e o Sol", "A Floresta Encntada" e "Coração de Mel". Além de escritor, Cícero Belmar tem uma larga experiência como jornalista, já tendo recebido duas vezes o prêmio Cristina Tavares de Reportagem. Ele trabalhou em Redações de vários jornais e televisões em Pernambuco. (belmarsr@hotmail.com)
  

 

 

Rossellini e a Geografia da Fome

por Amin Stepple*

 

Os bons e velhos jornais profissionais pernambucanos dos anos 40/50 se tornaram, com a elipse do tempo, fontes inspiradoras para o cinema e a literatura. Se não fosse a antenada Imprensa da época, como saberíamos, em minuciosos detalhes, da noitada boêmia do cineasta americano Orson Welles? Ou da curta temporada do escritor francês Jean-Paul Sartre e da agenda de trabalho do diretor italiano Roberto Rossellini, todos recepcionados a bolo-de-rolo, licor de pitanga e bem acolhidos pela hospitalidade pernambucana? À semelhança dos cometas deixaram rastros brilhantes nos horizontes recifenses. Fogo-fátuo que já rendeu dezenas de artigos, um filme e agora um romance. Em 1942, Orson Welles, então já um mito por ter dirigido o clássico “Cidadão Kane”, passou pelo Recife. Nos anos 90, a farra de Welles nos cabarés se transformou num filme premiado: “That`s a lero-lero”. Já Sartre perambulou pelas ruas do Recife no final dos 50. A presença do filósofo existencialista ainda hoje rende crônicas e comentários. Restava o cineasta Roberto Rossellini, um dos criadores do neo-realismo italiano, autor de clássicos como “Roma, cidade aberta” e ex-marido de uma das mais belas mulheres do mundo, a atriz sueca Ingrid Bergman. A aventura de Rossellini no Recife, até então esquecida nos jornais amarelados do Arquivo Público, agora se substanciou neste belo romance, “Rossellini amou a Pensão de Dona Bombom”, de Cícero Belmar. A saga reconstituída de Rossellini na capital pernambucana não é o primeiro romance de Belmar. Escritor que não tem receio de dar corpo e alma a personagens femininas fortes, totalizantes, o leitor já o conhece do realismo mágico-sertanejo de “Umbilina e a Sua Grande Rival”. Ou de “Pola”, denso relato de uma sobrevivente judia romena dos campos de concentração nazista. Uma obra-prima, comovente às lágrimas, um testemunho de que estamos condenados à dor e à insensatez. Ao horror! O horror, que não cessou com o fim da Segunda Guerra, e que hoje revigorado, se banaliza nas trevas apocalípticas do mapa-múndi, inclusive nos massacres diários do Oriente Médio. Em “Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom”, Cícero Belmar recorre mais uma vez, com recortes precisos, às técnicas do jornalismo literário. Personagens extraviados do neo-realismo à pernambucana – marafonas, rufiões, marinheiros, estivadores e catimbozeiras – convivem e entrecruzam com artistas e intelectuais refinados. A literatura se faz simulacro em pensões e becos fronteiriços, entre o apetite das divindades negras e a vontade cinematográfica de se acabar com a fome, nas paixões abandonadas do cais do porto à descoberta das beleza e sensualidade das putas morenas. Sempre à margem do Capibaribe.

Em 1958, Rossellini desembarca no Recife. Ele veio conhecer a região, cenário do seu próximo filme: “Geografia da Fome”, baseado no livro-denúncia do pernambucno Josué de Castro. O filme sobre a nossa fome endêmica jamais foi feito. Mas o romance sobre este filme irrealizado e o Recife dos anos 50 está agora nas mãos do leitor.

O romance de Cícero Belmar trata do personagem Roberto Rossellini como de fato ele merece. A de uma verdadeira celebridade, com a mesma dimensão mítica de Sartre e Welles. Cada vez mais rara nos dias atuais. Não podemos deixar de pensar na observação definitiva sobre o assunto feita por outro pernambucano ilustre, o geólogo Milton Santos: “As mitologias hoje são manufaturadas em áreas de serviço.”

Morto de um ataque cardíaco em 1977, Rossellini sempre será poeira de estrela, imortalizada na extensa e fundamental obra cinematográfica. No romance de Belmar, o cineasta famoso continua a freqüentar a pensão de Dona Bombom. E a enrolar os pernambucanos com a conversa do filme inspirado na obra de Josué de Castro.

Rossellini, simpático sacana de bandeira italiana. Cícero Belmar, um dos melhores escritores da nova literatura pernambucana.


*Amin Stepple é jornalisa e cineasta

 

 

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