por Amin Stepple*
Os bons e velhos jornais profissionais
pernambucanos dos anos 40/50 se tornaram, com a elipse do tempo, fontes
inspiradoras para o cinema e a literatura. Se não fosse a antenada
Imprensa da época, como saberíamos, em minuciosos detalhes,
da noitada boêmia do cineasta americano Orson Welles? Ou da curta
temporada do escritor francês Jean-Paul Sartre e da agenda de
trabalho do diretor italiano Roberto Rossellini, todos recepcionados
a bolo-de-rolo, licor de pitanga e bem acolhidos pela hospitalidade
pernambucana? À semelhança dos cometas deixaram rastros
brilhantes nos horizontes recifenses. Fogo-fátuo que já
rendeu dezenas de artigos, um filme e agora um romance. Em 1942, Orson
Welles, então já um mito por ter dirigido o clássico
“Cidadão Kane”, passou pelo Recife. Nos anos 90,
a farra de Welles nos cabarés se transformou num filme premiado:
“That`s a lero-lero”. Já Sartre perambulou pelas
ruas do Recife no final dos 50. A presença do filósofo
existencialista ainda hoje rende crônicas e comentários.
Restava o cineasta Roberto Rossellini, um dos criadores do neo-realismo
italiano, autor de clássicos como “Roma, cidade aberta”
e ex-marido de uma das mais belas mulheres do mundo, a atriz sueca Ingrid
Bergman. A aventura de Rossellini no Recife, até então
esquecida nos jornais amarelados do Arquivo Público, agora se
substanciou neste belo romance, “Rossellini amou a Pensão
de Dona Bombom”, de Cícero Belmar. A saga reconstituída
de Rossellini na capital pernambucana não é o primeiro
romance de Belmar. Escritor que não tem receio de dar corpo e
alma a personagens femininas fortes, totalizantes, o leitor já
o conhece do realismo mágico-sertanejo de “Umbilina e a
Sua Grande Rival”. Ou de “Pola”, denso relato de uma
sobrevivente judia romena dos campos de concentração nazista.
Uma obra-prima, comovente às lágrimas, um testemunho de
que estamos condenados à dor e à insensatez. Ao horror!
O horror, que não cessou com o fim da Segunda Guerra, e que hoje
revigorado, se banaliza nas trevas apocalípticas do mapa-múndi,
inclusive nos massacres diários do Oriente Médio. Em “Rossellini
Amou a Pensão de Dona Bombom”, Cícero Belmar recorre
mais uma vez, com recortes precisos, às técnicas do jornalismo
literário. Personagens extraviados do neo-realismo à pernambucana
– marafonas, rufiões, marinheiros, estivadores e catimbozeiras
– convivem e entrecruzam com artistas e intelectuais refinados.
A literatura se faz simulacro em pensões e becos fronteiriços,
entre o apetite das divindades negras e a vontade cinematográfica
de se acabar com a fome, nas paixões abandonadas do cais do porto
à descoberta das beleza e sensualidade das putas morenas. Sempre
à margem do Capibaribe.
Em 1958, Rossellini desembarca
no Recife. Ele veio conhecer a região, cenário do seu
próximo filme: “Geografia da Fome”, baseado no livro-denúncia
do pernambucno Josué de Castro. O filme sobre a nossa fome endêmica
jamais foi feito. Mas o romance sobre este filme irrealizado e o Recife
dos anos 50 está agora nas mãos do leitor.
O romance de Cícero Belmar
trata do personagem Roberto Rossellini como de fato ele merece. A de
uma verdadeira celebridade, com a mesma dimensão mítica
de Sartre e Welles. Cada vez mais rara nos dias atuais. Não podemos
deixar de pensar na observação definitiva sobre o assunto
feita por outro pernambucano ilustre, o geólogo Milton Santos:
“As mitologias hoje são manufaturadas em áreas de
serviço.”
Morto de um ataque cardíaco
em 1977, Rossellini sempre será poeira de estrela, imortalizada
na extensa e fundamental obra cinematográfica. No romance de
Belmar, o cineasta famoso continua a freqüentar a pensão
de Dona Bombom. E a enrolar os pernambucanos com a conversa do filme
inspirado na obra de Josué de Castro.
Rossellini, simpático sacana
de bandeira italiana. Cícero Belmar, um dos melhores escritores
da nova literatura pernambucana.
*Amin Stepple é jornalisa e
cineasta