por Delmo Montenegro*
A publicação do
novo título de Fabiano Calixto, Música Possível,
pela prestigiosa coleção Ás de Colete, das editoras
7Letras e Cosac Naify, pode ser encarada de duas maneiras. A primeira,
como o reconhecimento, enfim, por parte de grandes editoras, de toda
uma nova cena poética, eclodida em São Paulo, a partir
do final dos anos 90 e que agora parece atingir a sua primeira maturidade
artística. Nomes como Fabiano Calixto, Tarso de Melo, Eduardo
Sterzi, Kleber Mantovani e Virna Teixeira, que despontaram através
de publicações independentes como as revistas Monturo
e Cacto, começam agora a ocupar o espaço que
lhes é devido no cenário nacional. A segunda maneira tem
a ver com o destaque dado nos últimos anos a vários jovens
autores pernambucanos, que curiosamente, são primeiro editados
fora de Pernambuco e são pouquíssimo conhecidos no seu
estado de origem. Poderíamos citar pelo menos três exemplos
notórios: Micheliny Verunschk – finalista do prêmio
Portugal Telecom de 2003 com seu livro de estréia Geografia Íntima
do Deserto, editado pela Landy (SP); Jussara Salazar – que publicou
em 2005, o extraordinário Natália pela Travessa
dos Editores (PR); e Heron Moura – vencedor do prêmio Minas
de Cultura de 1998 com o seu Vendedores de Sono e Outros
Poemas, publicado pela Nankin Editorial (SP) e que acaba de lançar
neste ano O Respirante, pela coleção Guizos,
da editora 7Letras (RJ).
Este é o caso também
do jovem poeta Fabiano Calixto, nascido em Garanhuns (PE) em 1973. Estrangeiro
em sua própria terra, Fabiano atualmente reside em Santo André
(SP). Publicou Algum (edição do autor, 1998),
Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000) e, em parceria
com Kleber Mantovani e Tarso de Melo, Um mundo só para cada
par (Alpharrabio Edições, 2001). Traduziu, com Claudio
Daniel, poemas do dominicano León Félix Batista, reunidos
no volume Prosa do que está na esfera (Olavobrás,
2003). Organizou, em parceria com André Dick, A linha que
nunca termina – Pensando Paulo Leminski (Lamparina Editora,
2004), livro-homenagem que reuniu ensaios, depoimentos, contos e poemas
de mais de 40 escritores (entre os quais Haroldo de Campos, Eduardo
Milán, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, Rodrigo Garcia Lopes, Antônio
Risério, Marcelino Freire, Glauco Mattoso, Claudio Daniel e Frederico
Barbosa) a respeito da obra do grande bardo polaco-curitibano. Sua obra
póetica, porém, só agora atinge a perfeição
através deste Música Possível, onde Fabiano
finalmente cristaliza seus anos e anos de experimentação
com a linguagem e produz sua definitiva entrada no campo da literatura
nacional.
Realizando uma sintaxe angulosa,
de entorces, choques e imagens fragmentadas, Calixto recupera e radicaliza
a náusea, o asco e o seco da violência agônica drummondiana,
dessossando as páginas, suturando as frases com vírgulas,
parênteses e finais abruptos. Veja a forte clave expressionista
e urbana que permeia a música de poemas como:
Sem título ou
Fragmentos líquidos
réptil
este rio (espelho
de espasmos) rasteja
dentro de si.
este, ao sol desta hora
convulsiva. dia sem encanto
ou quina.
rio indigente
aborto
desta urbe.
(este, adeus à
pequena vila
que o esmerilha).
...
o rio,
este, cadáver
líquido.
O morcego
cruza aberto e sonoro
um coalho de treva
na noite aberta
à cidade
(ausência de ambiente
nas pupilas)
inventa o vento
um caco de vidro
sangrando
o tempo
esqueleto-dialeto
desaparecendo
– romãs
desabam
virgens
maculadas
Criança
rosto maquiado com
sombra. não a que
escapa-lhe ao corpo.
outra sombra, por dentro,
guache de pranto
em cores-hematoma.
rosto sob o soco,
sob o esgoto da
aldeia. catedral densa
de cólicas. cela de névoas.
sóbrio como a pálida morte
dentro do dorso. um dentro
vazio. último estalo. (sol a pino).
suspiro contido. útero de um tiro.
Esta dicção severa,
contudo, não transforma Música Possível num livro
amargo, suas glicínias também surgem de forma caledoscópica
nas tramas vegetais de poemas como:
Poema n. 18
(em Nice) (em
Leningrado) (aos
quatorze do sete
de vinte e sete (aos
quarenta e sete)
Isadora adeus-se)
(os dois não sangüíneos
filhos: a foice mortal
das águas) (o poeta
proletário (filho dos
filhos de
Riazan) dos fios
linhos rubros
do pulso até os
dos dias – amor
tecendo o futuro – ex / pulso)
Arpejo
derrotada pela palavra
que molhou com mel
ela não mais acredita
em cerâmicas chinesas, dicionários, flamboyants etc.
mas quando se debruça (como as glicínias
seus azuis
à atmosfera ainda nua)
à janela
a contemplar a tarde
algo premeditado
entre as forças do universo
age
deflagrando uma geometria particular
a partir de seu dedilhado
ao antebraço
Fabiano Calixto, demonstra que
sim, uma outra música é possível dentro da nova
poesia brasileira.
*Delmo Montenegro
é poeta e crítico literário.
(Este
texto foi publicado originalmente na revista Continente Multicultural
nº 68 - ano 6 - agosto/2006.)
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