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Francisco Espinhara
um poeta que se vira pelo avesso

 


O poeta no lançamento de Bacantes

 

EPITÁFIO N° 529

Não vou a enterros.
Que o morto
Se guarde no que é seu.
Se incorro em erro,
Perdoem-me: irei ao meu.

Nasceu em 1960, na cidade de Arcoverde e faleceu em fevereiro de 2007, no Recife. Foi um dos coordenadores do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, na década de 80, e participa da vida literária local ativamente.

Foi editor do Jornal Alternativo Lítero Pessimista e publicou os livros: Vida Transparente (1981); Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco - histórico e coletânea (2000); Sangue Ruim (2005); os livretos: A batalha pelo poema, Teje preso, seu rapaz e Dose dupla. Participou das antologias do Conselho Municipal de Cultura - Revista Arrecifes (1985), Poesia do Recife (1996) e produziu o CD Vários Poemas Vários - 25 poetas contemporâneos (1999).

Em julho de 2006, publicou o livro Bacantes, organizado pela INTERPOÉTICA, firmando um etilo próprio de escrever pequenos contos, já iniciado no livro Sangue Ruim. No dia 22 de dezembro de 2006, durante a festa de comemoração do Natal dos poetas pernambucanos, lançou o livreto Claros Desígnios em parceria com o poeta Erickson Luna. Firme na luta e no ofício, o poeta continua produzindo a todo vapor, apesar das dificuldades vivenciadas no momento. Abaixo publicamos texto de Cida Pedrosa sobre o Livro, Bacantes. (os editores)

 

E É DE FEL A ÁGUA E É DE SOMBRA A SORTE E DE SOLIDÃO MATEI A MORTE

por Cida Pedrosa

Esqueça Bacantes se por agora não tens motivo nenhum de pranto. Sim, é de vida e de morte este livro, quem não quiser chorar não o leia, quem não quiser se compadecer com seu excesso de fraternidade não o abra, quem mora nas conchas e se esconde entre as falsas luzes não se aproxime dele, pois sua lucidez é contagiosa, sua ruptura estética incomoda as entranhas, sua coragem revira nossas tripas pelo avesso, sua ternura é tanta que constrange o mais indelével coração.

Não poderia ser diferente vindo de quem vem. O poeta e contista Francisco Espinhara é um desses homens que não passam em vão pelo mundo, vive a vida como ela é e se apresenta, com total honestidade. Assim são os textos deste livro, um grande canto de amor e de morte, onde as personagens, elas, as bacantes, se confundem com o próprio autor. Quem é o autor e quem são as bacantes? Esta talvez seja a grande interrogação desta obra.

Como conheço Chico há mais de 25 anos e nos consideramos amigos irmãos, sinto-me à vontade para dizê-Io: toda Ela é ela e ele mesmo. Digo isso com a confiança vinda dos amores fraternos e antigos. Ele - o bacante - é um desses amigos cuja história se confunde com a nossa própria história, cuja vida se entrelaça tanto com a nossa que seu nome é palavra obrigatória na nossa própria biografia. Vide tudo que já vivemos juntos e separados, nestes tantos anos. Quem quiser pode pesquisar nas "bocas de inferno" das margens do Capibaribe, Madeira, Jari, que fluem para o mar.

Bacantes é dividido em duas partes e mais um epílogo. O meu presságio é de que Aproximação, primeira parte do livro, fala de um amor recente e como se deu a chegada desse amor na vida do autor. Esta é uma parte descritiva em que o leitor é levado a conhecer o sentimento do escritor por uma bacante, aqui ele é pura rendição e já anuncia que as personagens ou a personagem, na verdade, são sombras vivas do seu próprio eu e isso fica claro quando termina o último canto desse capítulo dizendo: "... tão eu mesmo: ela sou eu". Ao ler a segunda parte, Pluralidades, me dou conta de vários amores perpassando um amor presente, em desejo, loucura e densidade, aqui se arrastam a dor a par e passo com o desejo, a vida a par e passo com a morte. São várias mulheres em uma só mulher, são vários homens em um só homem, o próprio autor. Quanto mais lemos esta parte, mais angustiados ficamos, tudo se encaminha, como nas tragédias, para um grande final... doloroso e só. A cada página lida a dor aguça e nós somos postos à prova quando o autor afirma no penúltimo canto de Pluralidades: "Era como quase eu mesmo me crucificando para contemplar, a olho nu e a sangue, os vestígios do que nunca existira" e finaliza o último canto, sentenciando as bacantes: "Ela se fez em nuvens ácidas: fazer da vida o que a vida lhe fizera: bacante". Chegamos ao final, com um gosto de céu e inferno na boca e tomamos um susto ao ler o Epílogo: nele tudo se esclarece. Sete são as bacantes, seis mulheres de carne e osso e uma última, diáfana e bela, a lhe beijar os lábios. Fica claro a partir daí que o autor desenhou em poesia-prosa, que aqui chamo de cantos, como cantos são os cantos da Divina Comédia, de Dante Alighieri, a vivência densa com as bacantes, passantes de sua vida, a partir do marco da bacante Ana Raio, mulher que lhe encomendou, por bruxaria, as outras seis como diz o autor no último canto do livro: "mais seis diabas, tais ela mesma, iguaizinhas-iguaizinhas, fariam de mim o mais triste dos homens". O desfecho deste canto nos faz fechar o livro e concretizar em nós a nossa dor e, então, nos é anunciada a chegada da última bacante: (A sétima bacante, dançarina da noite infinda, me selou nos lábios o peso da lápide.)

Quem pensar que estou falando aqui de um livro de amor nos moldes tradicionais, recolha-se a outras leituras. Este é um livro que provoca a partir do título: Bacantes. Provoca no conteúdo e na forma. Bebe na tragédia de Dante, nos Cantos de Maldoror, de Lautréamont, dialoga com Rimbaud e sua temporada no inferno. Bebe, dialoga, mas se refaz em uma forma nova, de dicção muito própria, para desaguar em um canto urbano e moderno. Por isso, por ser um canto, quiçá um mantra, Bacantes deve ser lido de um fôlego só, para não perder em impacto e densidade.

Aqui termino esta tarefa de falar sobre este livro, que não carece de apresentação, pois é início e fim de si mesmo. E, eu que não sei escrever cantos, ouso afirmar: é de fel a água e é de sombra a sorte e de solidão vai matar a morte.

 

Alguns cantos do livro Bacantes

 

O que me fez depor as armas ante o semblante trêmulo não foram as suas carícias na minha fronte torneada a suores, mas sim a sua visão vesga a sempre errar a seta num alvo a esmo, desde que também alvo e esma, nunca seta.

...

Ela habita a caverna. Eu habito a mesma caverna bem lá no fundo, no fim sem fim.

Ela acende o fogo e o fogo me chega por imaginá-la acender o fogo. Nunca nos encontraremos, mas convivemos na mesma toca.

...

Por assim dizer, seus sexos eram flácidos, folote. O meu sexo, na acoplagem, flutuava num vácuo, numa vastidão de longínquas ruínas. Tudo aquilo não me servia, mas era tanto-e-tanto para mim.

...

Tudo era muito fácil: não era uma questão de abrir e fechar de olhos, mas de uma abrir e fechar de pernas. Para ela era assim.



Lançamento do Livreto Claros Desígnios

 

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