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Robson Sampaio
Um pacto de ternura com Recife

por Cida Pedrosa

 

É muito comum os poetas cantarem sua aldeia. Parece-me que essa territorialização do fazer poético está ligada a esse retorno atávico a tribo, ao sentimento de pertença e à afirmação da identidade. Sem ter dados estatísticos e recorrendo à lei do achismo, tão  próprio das nossas plagas, ouso dizer  que Recife é uma das aldeias mais cantadas desse país continental. Por que será? É muito forte o sentimento recifense, mais que isso: há um culto à recificidade. Posso enumerar aos montes poetas que escreveram vários poemas para Recife ou que dedicaram sua poética à cidade. Bandeira e sua Pasárgada, Pena Filho e o Savoy,  Austro Costa e Cabral e o Rio Capibaribe, Erickson  Luna e Santo Amaro da Salinas, Francisco Espinhara e  a Rua 7 e outros tantos mais, inclusive eu. Basta dizer que a edição do livro Poesia Viva do Recife, coletânea temática sobre a cidade com a participação de mais de 100 poetas e coordenada por Juareiz Correya, se encontra na sua terceira edição. Por que será? Não serei eu a responder a essa pergunta, na verdade vou colocar mais palavras na conversa e na roda, outro poeta picado pela recificidade que é o Robson Sampaio.

Vou começar citando o poeta:  O Recife não é uma aldeia / - O Recife é um estado de ser...  A radicalidade  com que o poeta exprime a sua relação com a cidade é tão grande que os torna um único ser, poeta e cidade se misturam e se confundem. É sob essa perspectiva que quero falar do livro  Eu Capibaribe. Um livro cujos poemas invariavelmente gravitam em torno do Recife, mesmo quando confessional e íntimo, vejamos:

Recife (Noturno)
 
Só gosto de ti à noite,
quantos os abstêmios dormem
e os boêmios saem às ruas
em busca do nada.
 
Só gosto de ti à noite,
quando batem lembranças
de amor e de sonhos perdidos
no tempo.
 
Só gosto de ti à noite,
quando me debruço sobre
o Capibaribe e, assim, consigo
ver a minha alma e a chorar
a dor do mundo.
 
Só gosto de ti à noite,
quando pertences por inteiro
aos boêmios,  vagabundos
e poetas.

É nessa atmosfera de cidade noturna, de mazelas e misérias, de boêmios e putas, de poetas e bares, de saudade e carnaval de frevo e rio que o livro se faz. Às vezes parece letra de música como em carnaval: Recife, / não mais te encontro / e sinto uma saudade/danada... Ou nomesmo tom: Saudades... Mais saudades do Azul / e do Recife-poético. / Saudades recifenses, / sempre azuladas... E continua em: É o canto do Galo, / é o som da Madrugada, / É o canto do Galo / do galo da Madrugada. O próprio poeta declara a sua forma de fazer poesia no poema Ao Bar e Restaurante 75: Para, no tilintar da sinfonia dos copos, / compor saudosos e eternos / poemas-canção...

E assim o poeta reafirma sua identidade e continua cantando sua aldeia, como já havia feito no seu livro  de 2007, O Recife e Outros Poemas, afinal, feliz de quem tece essa  rede urbana de amor e costura um pacto de ternura com sua cidade. E para fechar, já que não sei escrever prefácios,  faço um plágio do poeta Robson Sampaio: Amor não se mede / Amor não se compara / Amor é amor.
 
 

CIDA PEDROSA é poeta, advogada e editora do INTERPOÉTICA

 

 

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