CLOVES MARQUES
O Samurai da Palavra 1
por
Vital Corrêa de Araújo
A influência européia na literatura brasileira foi marcante, vital, longa, intensa, no entanto o modelo preponderou tanto, que descambou num tocante e algo oculto imitativismo, que impediu a espontaneidade e maculou o selo da autenticidade. Mesmo 1922, trouxe ostensivamente o timbre do criador, e a criatura, a marca ou o ferro da origem. A geração 45 encaminhou nossa literatura para os trilhos da brasilidade literária, em definitivo. Embora, muito do que aconteceu não foi de importação, mas de integração literária com a Europa.
Agora, os 100 anos da providencial imigração japonesa, essa saga épico-social, que trouxe frutos econômicos incalculáveis e mesclou nossa sociedade com o sangue oriental, enriquecendo-nos sobremaneira, revela, na perspectiva de um século, o fundamental contributo cultural, a integração íntima e permanente das culturas, que talvez seja o que de mais importante ocorreu, nessas dez décadas de comunhão, infusão e transfusão de experiências, conhecimentos, pessoas.
Nesse campo, ressaltam-se a poesia e a transformação operada na lírica brasileira, com a inclusão, nacionalização, a recepção cabal e completa, porque inovadora, da forma poética japonesa milenar, caracterizada por sua brevidade estrófica, concisão verbal e precisão de conteúdo, ou seja, a forma renga, tanka e haicai.
O haicai – estrofe encadeada individual – se desenvolveu paralelamente (embora sem relação casual direta) ao renascimento italiano, representou uma transformação da renga – estrofe encadeada coletiva e tradicional – que, desde os 800 (era Heian), vigia nos salões do império do Sol Nascente. A metamorfose teve como mediador a forma do tanka.
A renga é um tanka (estrofe de 5 versos, de 5, 7, 5, 7, 7 sílabas) em que os 3 primeiros é assinado por um poeta e os dois setessílabos compostos por outro, que encerra o poema, seguindo-se outra renga, dos mesmos ou de outros poetas. A renga resulta numa composição que nos traz à memória a estrofe popular (e coletiva) mote-glosa.
Enfatizo que a forma de poema nipônica aclimatou-se tão fundamente da 2ª metade do século 20, que o haicai, senryo e o tanka praticados, hoje, no Brasil, em vernáculo, com as adaptações e transformações criativas (desmetrificados, com rima, com ou sem títulos etc.), situam-se entre os melhores e mais perspicazes poemas breves do mundo, a exemplo da faina, da messe, da lavra (agora colheita ou recolha do tanka) do mestre Cloves Marques.
Cloves Marques, hoje, é, dentre os poetas brasileiros, o samurai da palavra, o ninja da estrofe curta, que, num relâmpago verbal, com a pena, golpeia o papel e esculpe a quintilha perfeita, de sentido acabado, tema apropriado e composição, em que a boda de yin e yang é completa e fecunda, posto que, no tanka, Cloves é duplamente nipônico, tanqueizando o haicai com os dois versos finais da forma escolhida neste opulento livro que é NOTURNO, Tankas da Madrugada.
No sentido de dar informações sobre essa antiga, dinâmica e ainda nebulosa forma de poesia, tão pouco praticada entre nós, de que Cloves Marques é mestre – e o melhor de todos os cultivadores do poema breve e complexo, farei uma digressão construtiva.
Numa possível linhagem hierárquica da poesia praticada no Japão, pode-se começar com a composição poética clássica (ou originária) sem rima (ou com rima ocasional) waca, que é o poema japonês, que atinge forma definitiva do século 8.
A característica vital e fundamentadora do poema japonês é a brevidade da estrofe ou concisão do verso e desde o inicio verifica-se esse pendor. O Tchoca ou poema longo (sic) apresentava-se com sete versos sem rima, com a métrica 5-7-5-7-5-7-7 sílabas, totalizando 43 sílabas. Começava a tendência de “dizer o poema” em poucos versos e assim se configurava o exercício poético, que colimava no conceito de poema sucinto, mas complexo, em busca da síntese da linguagem, e dessa forma realizava tal objeto.
O Sendoca, com seus versos de 5, 7, 7, 5, 7, 7 (com 38 sílabas) foi logo substituído pelo Tanka ou poema curto, a síntese poética maior, constituído de estrofe única de 5 versos, com 5, 7, 5, 7, 7 sílabas, totalizando 31 sílabas.
O tanka é a matriz do verso japonês, a forma mais cultivada e a mais antiga em prática, e é o antepassado do popular haicai, de 5, 7, 5 sílabas, que só alcançará personalidade definitiva no século 15, e hoje reina absoluto.
Sobre os Tankas de Cloves Marques 2
por Nelson Saldanha
A solidão, diz o poeta, “é bem pouco / no dorso da vida”. E o poeta, pode-se acrescentar, é um baseador de perspectivas novas: flagrantes da vida no meio das palavras, pedaços de coisas no meio dos dias.
Cultivador de hai-kais e de tankas, Cloves Marques se afeiçoou aos padrões da poesia oriental: não só aos seus modelos formais, nos quais ocorre uma fórmula permanente (e também um permanente desafio à criatividade), mas o seu sentido de insistência. Discreta insistência do fraseado curto e do dizer cheio de imagens.
Nessas estranhas estrofes, o poeta atravessa problemas formais de várias espécies, incluindo o coloquial e o misterioso. Nas estrofes, que parecem mudar de aspecto, aparecem as mais diversas faces da vida, e aparecem as estratégias verbais do poeta. Há um aparente recuo do sentimento, que passa a ser espectador de si mesmo: o poeta constrói temas e fixa momentos, que vão do trivial ao filosófico.
Não sou um conhecedor da poesia oriental, mas acompanho com interesse o assíduo trabalho de Cloves Marques, que vem procurando identificar-se com o espírito e com a forma daquela poesia, tão estranha para os padrões ocidentais. Mas como no fundo todas as formas de poesia se assemelham (como as formas de pintura ou as de dança), o leitor encontrará nos poemas de Cloves Marques pontos de contacto com outros padrões poéticos. Convincentes pontos de contacto. Pois que a poesia é sempre isto, um modo de ver as coisas como cúmplices do que sentimos.
Maceió, do bairro da Ponta Verde,
08 de abril de 2008 3
Grande poeta Cloves,
A leitura de Tankas da Madrugada, no final de um dia movimentado e exaustivo, levou-me ao Olimpo. Acredito piamente que o manjar dos deuses fossem os poemas, os melodiosos tankas de Cloves Marques. Sendo uma simples mortal, fiz-me imortal lendo os Noturnos da Liberdade, da Fome, do Amor, da Solidão, da Poesia, da Palavra, da Dor.
Cloves Marques abriga dentro de si um sentimento profundo e doce da realidade da vida, sem que a crueza do cotidiano, que ele observa e vive, cause nenhum arranhão em sua sensibilidade de artista refinado.
Como admiradora da cultura japonesa, rendo-me a maestria do poeta que, apesar do estilo oriental dos versos, tem em suas entranhas os sábios dizeres da Antiga Grécia. Vejam se tenho razão:
A álgida beleza
da fome, sombra do nada,
corta a vontade.
Uso o cavalo de Tróia,
vou às raias da verdade.
O livro é um primor. Viverá perto de mim enquanto eu na Terra habitar. Será um grande sucesso. Parabéns! Obrigada pelo presente que tanto minha alma necessitava. Parabéns pelo grande poeta que você é. Vou falar no Japão de você e sua obra.
Que a luz da poesia ilumine cada minuto de sua vida E que a sua criação poética nos faça ir de encontro às imperfeições do mundo.
Um grande abraço
Yara Falcon
