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GERUSA LEAL
O poema perfeito é a morte

> por Stéphane Chao

 

A diversidade dos tratamentos poéticos, em versilêncios, promove resultados muito convincentes. Apesar dessa diversidade há, no entanto, uma constante, uma problemática geral que poderia enunciar-se da seguinte maneira: num mundo aparentemente “despoetizado”, dominado pela certeza maciça do “Aqui e Agora”, a poesia reside no “invisível que esboça o que um dia há de ser”. A busca da escrita de Gerusa Leal é a de resgatar esse invisível, apreender esse nada que antecede o ser e que portanto o fundamenta. Esse invisível, ou nada, que faz que o Aqui e Agora nunca seja uma plenitude total, pois inscreve uma dimensão de ausência no real, um dos principais aspectos da sua poesia.

Assim, o motivo da circularidade (e a estrutura circular que rege a construção de vários dos poemas) é uma das formas que a poetisa usa para tentar figurar esse nada: o papel do infinito circular é exorcizar o infinito linear, fugente, imagem do nada. Por isso, essa circularidade seria de uma certa forma “o reverso do nada” (um nada feito presença, um nada domado) ao qual afinal a poetisa consegue dar voz.

A poesia de Gerusa Leal constrói-se nessa contradição, ou melhor, nesse paradoxo necessário do signo feito presença, da relação feita substância, do infinito se fechando nele mesmo para deixar-se apreender (a “distância que recado bilhete ou telegrama não cobre e se descobre nunca tão presente em si”). Atinge algo profundo e o resultado é que consegue pôr o sujeito “à beira do precipício de mim”, assim como à beira das coisas e do Outro, à beira do “abismo”, o invisível, compreendido ora como fundamento do todo (origem e fim das coisas: “túmulo”, “ovo”), ora como fundamento da consciência definida como relação consigo mesma: o nada que separa o sujeito dele mesmo (metaforizado pela relação tautológica, infinita, paradoxal do sujeito com o seu reflexo no espelho).

A poetisa encontra o objeto da sua escritura no fundo desse invisível metafísico “materializado” pelo “abismo” no qual com efeito cresce “a flor de gelo” - esse objeto poético que parece ser a própria metáfora da poesia.

O invisível manifesta-se principalmente na relação consigo, com o mundo e com o Outro (o nada é a barreira invisível, mas intransponível que separa o sujeito das coisas): tentar fechar esse infinito permitiria criar as condições de uma presença do sujeito em relação a ele mesmo e dele em relação aos outros. Isso é particularmente explícito em alguns dos poemas no qual vejo um talento nítido, além de uma marca pessoal e uma voz singela: “encontro”, “lembrança”, “fotografia”, “há alguém ai?”, poemas nos quais é sensível o esforço para “abraçar” o nada que separa o sujeito da osmose, da fusão com o ser. O resultado seria uma impressão vertiginosa: o poema desenha como um movimento de espiral mental para tentar fechar o círculo salvador ou, talvez, até insatisfeito com a própria circularidade, atingir o próprio centro num movimento de “catabasis” rumo a sua própria fonte, que seria também a fonte das coisas. Movimento impossível que se resolve no “contemplação”, extático, oportunamente colocado no final do livro, onde o “Eu” e o Tudo se juntam num jogo de espelhos no qual o abismo interior é o reflexo do infinito do mundo. Nesse sentido o poema “contemplação” é o exato simétrico de “abismo”: movimento de “catabasis” neste segundo, movimento de “anabasis” no primeiro.

No poema “contemplação” resolve-se a tensão pela busca da osmose (serenidade da própria contemplação), ao mesmo tempo que se resolve a tensão imanência-transcendência. Interessante ver como nesse poema a problemática inicial – bem moderna em si – da separação do sujeito do mundo desemboca na afirmação de Deus como instância conciliadora dos dois, como garantia de uma relação consciência–mundo, ou seja, a afirmação da necessidade de uma metafisica, graças à qual os signos emitidos pelo sujeito poético não são vazios, mas encontram os seus objetos, fazem sentidos. Dito de uma outra forma, essa instância reguladora do sentido faz com que a comunicação seja possível, faz com que “entre a intenção e o gesto, me encontras no exato momento em que me falo de amor”.

No entanto, ao lado dessa linha metafisica de exploração poética, o sujeito poético faz também a experiência de uma serenidade, também epifânica (mas não exatamente mística), na simples contemplação do cotidiano, contemplação essa que muito felizmente a poetisa chama de “constatação”, nome falsamente prosaico do milagre de uma reconciliação do sujeito com o mundo na sua simplicidade absoluta, na sua simplicidade não afetada pelo nada, pelo invisível (“para que mais poesia?”). O cotidiano, mesmo como cotidiano, e justamente no seu prosaísmo, consegue manifestar a presença do ser, sem que ele fuja desse “invisível que um dia há de ser”, dessa linha de horizonte onde reside o mistério das coisas que ainda não são, mas já perturbam a delicada plenitude do aqui e agora; horizonte que, como “reserva” das coisas invisíveis, virtuais, como lado avesso da presença, contamina até o mundo mais cotidiano, o mais obviamente presente, deixando o “espaço supérfluo e fútil” - esvaziamento do mundo que o sujeito tenta exorcizar “tampando” essa fonte desvitalizadora das coisas que é o horizonte. Assim o olhar vai buscar não essa linha de fuga infinita onde o ser se perde, mas o seu próprio reflexo, “descobrir, enfim lá na varanda do prédio outra inútil igual a mim” (a estrutura circular, no modo especular, permite aqui também aliviar o vazio das coisas, sem no entanto resolver completamente a tensão anomia-osmose, criando o paradoxo necessário de uma osmose na solidão: paradoxo necessário do próprio espelho, onde se reflete uma ilusão de presença, ilusão que, no entanto, permite se conhecer, se aprofundar (principio da psiché).

As duas tentações do sujeito diante da impossibilidade de superar o vazio que o separa das coisas são: afirmar o nada em relação às coisas, isto é, o desejo de extinção das coisas (“provisória danação”, “só”); afirmar o nada em relação ao Eu: o ato de atingir-se coincide com o do seu próprio desaparecimento e portanto continua escapando; em outros termos: “Eu” para ser alcançado na sua profundeza tem que ser transgredido, violado e nessa transgressão o Eu desaparece. Ou seja, a solidão do Eu separado dele mesmo resolve-se no ato pelo qual ele se destrói: “um corte belo e profundo” instaura a osmose, e a transparência, com o mundo (que sangra transparente/que singra para o mundo/sem cura/ que sorte), e mais uma vez o sujeito realiza a beleza poética cuja essência é o “gelo” (“na mão a faca afiada/cravada/no gelo da solidão”): beleza cristalina, resultado da condensação dessa substância lábil, fluida, presença contraditória que é a água, como é contraditória a “arte de viver” (arte fundamentalmente poética?) cuja fluidez é ao mesmo tempo “todo” e “parte”. E é verdade que a poesia tenta fazer do signo (a “fumaça” como signo sem referência externa) uma substância no sentido profundo do termo: algo que se sustenta por si só, algo cuja beleza se auto-justifica: “o cristal” como “flor de gelo”, ou aqui como flor de fumaça petrificada, flor de carbono condensada.

Nesse sentido, a figura do “espelho” não é apenas uma estrutura presente nos poemas de Gerusa Leal, é a temática central: ela sintetiza os valores da circularidade além de remeter à idéia de condensação característica do cristal, de vitrificação do Eu, como meio de suspender o movimento de fuga de si para si mesmo. Por isso, o poema “há alguém aí?” é emblemático: a petrificação “cristálico-especular” pode impedir de prosseguir, mas sobretudo, nesse contexto angustiante, salva do medo do seu próprio nada. A “flor de gelo” aqui é o reflexo vitrificado de si mesmo no espelho, essa suspensão da labilidade, a instabilidade do Eu que na vertigem “em fluidas vestes me oferto” e que no espelho encontra, enfim, “a sabedoria de olhos grandes e profundos”. Não é à toa que na Bíblia, voltando-se para Sodoma, a mulher de Lot transforma-se numa estátua de sal: trata-se também de uma fuga, como se ela estivesse se espelhando na cidade com a qual se identifica (e que ao que parece não quer deixar), parando assim o movimento de fuga pelo qual estava se afastando da sua cidade e portanto dela mesma. Mas, aí é que a circularidade prevalece: pois esse objeto no qual desaparece qualquer opacidade (como a ferida “que sangra transparente”) é um objeto morto. Opaca é a própria vida.

A referência (da Bíblia) não é gratuita, introduz a dimensão da sexualidade, tratada também em virtude do paradigma especular, introduzindo um outro valor ligado ao espelho: o da simetria; por exemplo o excelente “saber secreto” que trata da experiência de Tirésias (aliás essa confusão masculino–feminino remete diretamente à do episódio bíblico de Sodoma, já que lá o modo de sexualidade era tal que de fato o homem era tratado como se fosse mulher).

Como disse de início, há vários tipos de tratamentos poéticos (formalmente falando) que talvez não apareçam numa primeira análise, por isso tentarei discriminá-los em termos de tipo de inspiração:

- inspiração mitológica – com talvez um tratamento de tipo armorial (arrisco essa interpretação): uso de figuras estereotipadas – do tipo emblemas - como pólo de condensação semântica: “macho-fêmea-serpente me tornei” (“saber secreto”); mesmas figuras funcionando como ideogramas no poema “lua negra”; de uma certa forma também nos poemas “do outro lado do paraíso”, “opostos?”; referências em outros poemas aos “vasos sagrados”, “alquimia”.

Essas referências remetem justamente a uma época pré-moderna, por definição poética, já que tudo sendo emblema, código secreto, deciframento, havia uma união do universo das imagens com o do sentido (do conceito). O universo poético é um universo “ideogramatizado” pelos emblemas, pelas imagens carregadas de sentidos. Importante ressaltar que nesses poemas está presente um eixo de simetria invisível, qual se depreende dos próprios títulos (“opostos?”, “do outro lado do paraíso”). Neles, as realidades emblemáticas são, por assim dizer, o reflexo da realidade prosaica.

- inspiração do cotidiano e do trivial – universo precisamente “despoetizado”, onde não há símbolo, emblemas, onde tudo está “desideogramatizado” - exemplificado pelos poemas “constatação”, “aqueles dias” - esse com um final surpreendente: “até o espelho do quarto/virou as costas pra mim”, porque de repente entre os objetos, como tal passivos, um deles toma uma iniciativa - o sentimento de estranheza é reforçado pela ambigüidade constitutiva do espelho: na fronteira entre o objeto e o sujeito, daí também a coerência da trama - estamos aqui numa perfeita atmosfera de realismo fantástico; “da janela da cozinha” - uma estrutura parecida, só que o espelho está na própria estrutura do poema (“só para descobrir, enfim lá na varanda do prédio outra inútil igual a mim”). Boa variação em torno do mesmo tema.

- inspiração meramente verbal: jogo com o “significante” (“sobriedade”, “de(mente)” - temos aqui uma “re-ideogramatização” da linguagem - a substância meramente sonora (e arbitrária) da palavra torna-se rica em significações, torna-se código  secreto a ser decifrado. Nesse sentido, o poema “de(mente)” tem algo de genial: a primeira estrofe é vertiginosa, a razão está ao mesmo tempo entre mentira (mente) e denegação (demente), entre o espírito (mente) e a loucura (demente); trata-se de uma transgressão do “cogito ergo sum”, já que só há incerteza e afirmação do outro da razão (loucura), e precisamente uma tal transgressão é reproduzida poeticamente no vertiginoso proporcionado pelas possibilidades semânticas ofertadas por essa primeira estrofe. Bela “arte ou manifesto” poético que faz um paralelo entre o nada paradoxal do espírito e a natureza negativa do poema - da mesma forma que o espírito afirma-se no ato de dizer que ele não é, o poema existe “dizendo o que não quero”, poema cujo papel é refazer “a senda do nada”(“arrimo”) e não a senda do ser (como o “cogito” cartesiano, que depois da dúvida hiperbólica atinge a existência). Teria algo no poema de circular e contraditório, justamente porque a sua matéria é o “nada” (“fruto da intuição”) - por isso também pode-se fazer um paralelo no poema “quando” com o lavrador que faz surgir o grão milagrosamente, pelo poder misterioso, poético, da terra (já que, como diz a Bíblia (João; 12, 24-25), o grão há de morrer – voltar ao nada - para renascer...).

- a poesia como lugar de experiência sensível renovada - essa forma contraditória que não é, mas da qual o poeta pretende falar, é a marca de vários dos poemas, que considero profundos: “lembrança” (“como se nunca fosse ser saciada/no meu não querer”, “deixando-me tonta/          de tanto não saber”, “uma certeza sem sentido”) - essa experimentação da positividade do nada (uma ausência que paradoxalmente “preenche”) leva naturalmente à experiência sensorial contraditória: (“uma madrugada nascente me acariciava/dolorosamente o corpo”) - contradição essa que leva, nos dois últimos versos, à ausência (o nada afetivo) fundadora do poema, graças à qual entendemos retrospectivamente essa ambigüidade “vazio-plenitude” (“prestes a esquecer daquele outro/que nunca mais deitaria a meu lado”).

Linda circularidade - mais uma vez para domar o vazio, um vazio-plenitude porque se trata aqui de um vazio feito imensidão, feito universo - a do poema “abismo”: o “túmulo” e o “ovo” ligados, entrelaçados pelo “espelho”, um sendo por assim dizer o reflexo do outro.

Em conclusão, diria que a poetisa consegue evitar a armadilha do psicologismo, sem abrir mão do conteúdo afetivo e da forte tensão emocional que inspira a escrita poética. A sua maneira para lidar com essa tensão foi, a meu ver, praticar uma poesia metafísica que tem ao mesmo tempo um tom sinceramente lírico. Por isso, o seu lirismo tem a particularidade de não ser somente a expressão de um Eu, mas também, e sobretudo, a elucidação do enigma do Eu. Seria algo como um lirismo objetivo, uma postura pela qual a poetisa toma a sua própria consciência como objeto, e ao mesmo tempo tenta se reapropriar dela: busca impossível, pois o objeto poético último é uma flor de gelo, uma flor mineralizada, desvitalizada. O poema perfeito é a morte.

 


STÉPHANE CHAO é formado em filosofia, 34 anos, nasceu em La Rochelle (França). Entre 1999 e 2003 foi encarregado da divulgação do livro francês na Embaixada da França no Brasil. Trabalha atualmente como agente literário no Rio de Janeiro. É organizador do Prêmio Cunhambebe de Literatura Estrangeira que seleciona, cada ano, o melhor livro de ficção estrangeira publicado no Brasil.


O livro apenas começou a ser distribuído mas já pode ser encontrado, por enquanto, na Via Livros, Av. Oliveira Lima, 987 - Boa vista (fone: 2137-0300) e na Livraria Imperatriz do Shopping Tacaruna - 3301-7800. A autora solicita que, em caso de dificuldade em adquirir nesses pontos de venda, ou caso prefira, o leitor faça contato pelo inter.g@terra.com.br

 

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