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DESVIRTUAL PROVISÓRIO
novo livro de Wellington de Melo

                                                          foto: Felipe Ferreira

 

> por Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

Com uma titulação em que se percebe a intenção da identificação de um jogo de palavras, lidas de diferentes formas, mas todas identificadoras do virtual e do provisório, Wellington de Melo coloca-nos frente a duas concepções: se o provisório reflete um dos signos do nosso tempo, isto é, a ausência de um chão definitivo, de raízes de permanência, o virtual nos coloca frente a substituição do real pelo próprio virtual, ou seja, por uma realidade paralela.

"meu desejo agora
vem de fora
de mim

é simulacro
em que me escondo
para não lembrar
quem sou"

Guiando-nos por entre esses labirintos, preparando-nos com cuidados evidentes para os horrores de nosso tempo

"foi nesta era estanque
de cal e treva
de concreto e silício
que finalmente a Máquina
me roubou a palavra
que me fazia humano,
que me imprimia a dor:
o horror
o horror
o horror"

ele nos dá de beber o que seria um antes, um antes com sabor dos tempos primeiros, tempo germinal, um tempo de antes, como diz:

"antes de todo o caos
depois de toda a paz
em mim
havia o poema"

E, com isso, declara a primazia do poema, como princípio e fim "centelha de vida que se eleva sobre a minha face como seiva primordial".

A sua poesia em tudo diferente – pela temática única perseguida e pela linguagem despida de artifícios lingüísticos para se tornar mais grito e mais protesto: "não alimenta a paz minha pena" – que se fazia construída num crescendo, toda centrada e bem dividida e que nos leva da Proto-Máquina, à Máquina, à Anti-Máquina e à Hiper-Máquina: "minha voz morre/ no momento em que a Máquina/ marcha sangrenta sobre o meu sonho".

"Te penso, Máquina,
Leviatã de meu tempo,
amada opressora,
esmagando naus
cibernéticas
que persistem no sonho."

Utilizando uma linguagem contundente proposital-mente despida de adjetivação, Wellington construiu a sua saga diante dos signos e paradoxos de nossos tempos, tempos de desumanização do homem e da máquina, que adquiriu o poder de pensar por ele.

Que poderei dizer do impacto que este instigante livro me causou? Estamos diante de uma lúcida consciência que detecta com aguda percepção a decadência do homem de agora frente aos desvalores e distorções simbolizados na figura desumanizadora da máquina.

"meu sonho
sob os pés
da Máquina
escorre
           entre
seus dedos"

Essa máquina que pretende subir aos céus e se sentar à direita do Pai?

"É a língua do silêncio
a do meu tempo
É a sala de espera do vazio
o nosso tempo (…)
e te sufoca o verbo mudo
e te arranca das entranhas
o nome secreto
que nos fará
de novo livres."

Mas, como no início, nele "havia o poema" e por isso resiste e nos convida à resistência                       

"em mim
havia o poema
e resisto à treva
de meu tempo"

Bendito seja!

 

MARIA DO CARMO BARRETO CAMPELLO DE MELO, Membro da Academia Pernambucana de Letras, membro honorário da Academia Pernambucana de Artes e Letras e da União Brasileira de Escritores.

 


PROVISORIAMENTE TAMBÉM FALO DE POESIA

por Artur Rogério

 

Não falo sobre bons poemas. Ninguém fala, vejo assim. Quando fala, fala qualquer coisa. É que qualquer coisa cabe a partir dum bom poema. Certamente não é adicional essa inclinação. Tudo é a partir da poesia, portanto tudo é o chapéu dum bom poema. Inda mais essa nova estação muito bem intencionada e muitíssimo equilibrada arranjada por Wellington. Provisoriamente, inverto a minha convicção. Troco, então, algumas inúteis impressões, virtuais relações, já que o companheiro me solicitou umas palavras. Qualquer coisa que eu lançar aqui não valerá mais que a trivialidade duma conversa de internet, não passará duma tentativa embaraçosa de me comunicar, achando ser eficiente, achando ser moderno, inteligente e doismileoito.

Acabo de ler o desvirtual provisório e o gosto que ainda tá na minha boca é, inesperadamente, dos mais saborosos. Não que eu tenha receios com relação à sagacidade e sensibilidade de Wellington, mas porque tenho todos os preconceitos diante de quase todos os poemas e poetas. Os poemas sempre me parecem saídos da mesma barriga, como se quase todos os poetas transassem com a mesma mulher, fizessem as mesmas viagens, falassem um único dialeto. Costumo ver os poetas (escritores que escrevem poemas) como se fossem uns alienados, uns condenados que seguem uma idéia do que seja um poema, apesar das aparentes diferenças que os teóricos costumam apontar como identificadoras de tais e tais períodos históricos e tal. Tenho certeza de que esse meu preconceito é filho da minha admiração sem fim pelos poetas e suas obras a ponto de eu considerar o poema a manifestação literária mais radical, a indefectível, é uma explosão semiótica imperdoável, irrevogável, absoluta, o tiro ao alvo infalível, é a morte e a vida unidas, sem blá blá blá. Também é a escrita mais difícil. Os bons poemas são definitivos, estão para o silêncio e tudo o que existe dentro     do  silêncio,  revelam  um  novo  céu mudamente.Wellington aborda, em seus poemas, com muita ousadia, o que está aí, as realidades em que vivemos nesses inícios dos anos 2000. A frustração e o orgasmo abraçadinhos no mesmo assento, todo mundo sentado na sala de espera, um salão de paredes apagadas, todos os olhos vidrados nas paredes impolutas, cada um grafitando e montando mosaicos como desejar. Trata-se dum hospital público, duma faculdade particular, duma igreja particular, cada um sabe o que quer, taí pra qualquer um. Só que ninguém comete o pecado de dizer onde está, o que tanto aguarda, o que inventou. Wellington quebra o silêncio e repassa os seus óculos a todos.

Num livro nada extenso, como cabe aos poetas ajuizados, Wellington nos dá a seqüência: A Proto-Máquina, A Máquina, A Anti-Máquina, A Hiper-Máquina, O Pó, mas não vejo nada parecido com linearidade no livro. Lendo os títulos das partes assim, só eles, também fica meio que aparente uma crítica voraz sobre tecnologia, Internet, realidade virtual etc., que nos leva a uma desumanização (despoetização). No entanto, quando caímos nos versos, encontramos o elemento vacilante, o que nos salva da pré-impressão duma já flácida crítica do mundo contemporâneo. A relação entre o, no caso, poeta e a tecnologia se complexifica, fica dúbia, toca a margem da reverência, volta ao oposto apocalíptico, prefere passar mais tempo numa outra paragem onde se exercite, como princípio, a poesia. Depois de chegar a essas conclusões foi que voltei ao nome desvirtual provisório e, finalmente, notei que Wellington já resume a alma do livro no título, e é tão evidente a dica!

A pegada do livro bateu em mim mais pras últimas páginas, pro último poema, o que tem mais versos, O Pó (que, sem dúvida, teria reduzida a sua força de impacto se lido isoladamente, sem o percurso de todo o corpo do livro). O Pó talvez seja o texto mais direto, isso lhe dá uma característica mais agressiva. É quando, no lugar de nos despedirmos do livro, somos levados a um ápice que se parece muito mais com a porta da frente dum ambiente nada apocalíptico. É num ápice que os textos chegam ao fim, mas o livro não pára, fica pro leitor o livro em aberto e o início duma manifestação  poderosamente  silenciosa.  Sem saber, me sentei num carro de montanha-russa que subiu lentamente a mais alta parte. Aqui, no mais alto, o carro brecou. Estou aqui em cima amando toda essa vulnerabilidade da situação, adorando a visão. Depois desses textos tão delicados e que me enlaçaram pelo minimalismo, pelo inesperado óbvio dum olhar nada comum, fico com esse gosto refinadíssimo na língua. É o fino da bossa da nova literatura pernambucana, é o peso do maracatu desse tal de "Uélinton", esse Wellington de Melo. 

 

ARTUR ROGÉRIO é contista e um dos idealizadores do Nós Pós

 

 

Wellington de Melo nasceu em Recife (1976). Poeta e tradutor. Membro de uma nova geração de escritores pernambucanos, publicou "O diálogo das coisas" (2007, Ed. Universitária, Recife) e "Desvirtual Provisório" (2008, Ed. Canal 6, Bauru / São Paulo), prefaciado por Maria do Carmo Barreto Campello de Melo. Organizou com Lucila Nogueira (UFPE) a edição de A musa roubada (CEPE), livro de Terêza Tenório com poemas inéditos que traduziu ao espanhol, lançado na Bienal do Livro de Pernambuco de 2007. Recebeu menção honrosa no Prêmio Nacional Mendonça Júnior de Crônica e Poesia (2007) com o poema "Casa".

Sua poesia recebe influências neo-simbolistas, surrealistas e concretistas, embora o poeta não se filie a nenhum destes movimentos ou mesmo se considere "anti" todos eles.

Explora em sua obra possibilidades de expressão por meios digitais (poemas visuais com gifs animados, vídeo-arte, podcasting) e pelas artes plásticas (obras em nanquim sobre canson e óleo sobre tela). Participou da Fliporto 2008 com o poema-instalação Desvirtual Provisório, homônimo do seu mais recente livro.

O livro está sendo vendido na Saraiva do Shopping Recife, mas também diretamente no sitede Wellington (www.wellingtondemelo.com.br). Quem compra por lá recebe um selo personalizado e pode solicitar grátis o livreto "Azar - poemas de mau agouro", que fiz para o Nós Pós 13 - Azar.

 

 

 

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