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Lúcio Ferreira
O CONSTRUTOR DE IMAGENS

> por Virginia Leal

"Toda manhã
olho as flores
com este olhar
de ver flores
com o dos anjos
o céu
com o dos mares
a praia
e o céu a praia e as flores
eu posso ver e entender
em qualquer ponto
da estrada"

(Um olhar para cada coisa)

 

Atento ao novo, o claro e o belo, lições aprendidas com Alberto da Cunha Melo, seu poema universalista se encaixa em qualquer tema, assunto ou situação.

Recifense, nascido em 1930, sempre trabalhou no Interior, fincou suas raízes no campo. É bacharel em Ciências Econômicas, pela UFPE, funcionário aposentado do Banco do Brasil.

Autor de várias obras publicadas, surpreende o leitor a cada trabalho novo, como se muitos fossem os poetas no homem, passo a passo, no caminho de apenas nove anos de labor literário. Muitos já cuidaram de seus textos em comentários e louvores que aqui se colecionam:

 

Um Olhar para cada Coisa (1999)

Construtor de imagens, Lúcio Ferreira vai buscar na natureza os movimentos da fauna e da flora, e seus cuidados, para bem expressar as muitas facetas da humanidade.
 
Carrero, ao prefaciar sua primeira publicação, afirma que Lúcio Ferreira tem o seu universo particular:

“Particularíssimo. Está apenas irmanado às grandes almas quando se debruça sobre a folha em branco e se põe a decifrar os labirintos que formam a alma humana em todas as suas dimensões. Com um amor de pai, com um carinho de irmão, com a presteza de um cidadão que cumpre os mandamentos”.

Para Djanira Silva, Lúcio “possui não apenas um olhar para cada coisa e sim uma alma para cada instante, para cada momento.”.

 

Exercício do Sentir (2000)

O poeta mostra-nos o caminho, revela-nos de que matéria somos feitos, em permanente diálogo entre a natureza lá de fora e a de cá de dentro. Sábias lições tiradas da constante e sensível observação, sempre à espreita.

E sejam serenos
os sítios do mundo
as leves palavras
as linhas do tempo...

No dizer de Flávio Chaves,

“Entrar na obra poética de Lúcio Ferreira é navegar em planície intimista, com lâminas desafiando a ventania da impunidade, e do delírio social multiplicado na indiferença de homens globalizados.”

Mesmo pensar é o de Telma Brilhante ao comentar a obra:

“No Exercício do Sentir, Lúcio revela-se universal. É o homem preocupado com a natureza, fazendo a sua parte; e, como parte desta natureza, traça um Projeto de vida em que idealizaum mundo terno, como terno e sensível sempre se revelou”.

Márcia Bastos explica que

“a poesia de Lúcio tem o frescor da maturidade. Nascida de uma sede, sede das águas de poço-lago..., sede d’água das asas..., sede do último poço..., sede do mundo.

 

As duas Extremidades da Luz (2001)

Ao prefaciar a obra, César Leal afirma:

“Ao escrever seus poemas, não parece ter em mira vantagens extra-literárias. Aquelas vantagens que a arte pode dar aos verdadeiros artistas: obras sérias, a serviço da realização de sua alma e, portanto, da cultura.”

Mário Márcio elege como predileto o poema Apetrechos de Geometria:

A régua leva nos lábios
suas paveias
de retas
enquanto tranca o compasso
nas hastes
todo o seu mundo.

Com os pés
de meia-metade
o  ângulo entala os esquadros
e culpa então
o arquiteto
por toda a história do gesso.

A régua leva nos lábios
suas paveias de retas.      

 

As Linhas do Tempo-Hai-kais (2002)

Os hai-kais do artista são pinceladas que desenham um imaginário repleto de instantes capturados como só ele é capaz de fazê-lo.

A noite desprende
os cabelos. As estrelas
caem-lhe pelos ombros.

A fruta é a cor
as sementes trazem na alma
sonhos de floresta

“Lúcio Ferreira em tudo lembra Ascenso Ferreira: um corpanzil a marcar presença onde quer que esteja, mas que, para quem dele se aproxima, sente que o coração é infinitamente maior que o corpo. Mais que isso, a sensibilidade suave e lírica a escrever uma poesia cristalina. Alma e voz de um grito humano a atingir o leitor na carne, no imo, na consciência.” assim Cyl Galindo retrata o poeta, merecida homenagem a um artista de tal estirpe que enriquece o cenário literário de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil.

Como diz Cloves Marques,

“Há quem, com a magia da palavra (kotoba), seja tão forte que se ausenta e sua presença permanece, como perfume. Assim são os haicais, assim é você, Lúcio.”

Um gato deitou
num losango de sol
que caiu da janela.

 

Reticências dos Sonhos (2003)

A simbiose com a natureza, a sincronia com as estações da vida, os ciclos e espirais do tempo em suas mutações, transcritas no rico universo interior que transborda para fora, trazendo imagens abundantes da ecologia que transcende, e fala-nos de outro lugar.

instintiva mão,
brasão da consciência,
a que traz a primavera,
as sementes,
a essência,
o amido,
o pão.

No prefácio, Mário Márcio afirma:

“Como se só ouvisse a própria voz, o autor começa a escrever versos, caídos às dezenas, como um castelo de cartas planejado com espontânea criatividade. “

 

Uma Porta para dentro da Pedra (2003)

Em criterioso trabalho de pesquisa, Ana Maria César comenta a obra de Lúcio Ferreira e conclui que:

“Ser poeta é conhecer “a linguagem dos peixes/a fala dos pássaros/o riso/da amendoeira”. Ser poeta é se quedar em êxtase diante de um amor que o surpreende a cada dia: “admiras/porque fácil eu durmo.../enquanto rondas/o mosaico/dos meus pés”; amor que o persegue todos os dias; “percorro a casa/atrás dos passos”; o grande amor de sua vida, sua esposa Elza.”

 

Estas Coisas Cá de Dentro (2004)

 Artista impressionista, pinta tela repleta de cores vibrantes, de textura, movimento e sabor, doando-nos um sopro de esperança:

Prêmio d’água ao trigo,
há o pão de ir
a todas as bocas.
Voarão sementes
para os quintais,
como voam
os beijos de lá das paineiras.

Comenta a obra Graça Graúna:

“Com Estas coisas cá de dentro, a começar pelo espírito guerreiro, Lúcio Ferreira abre as portas do seu habitat para evocar um mundo que cabe em nós; um mundo de paz, onde a Mãe Natureza desenha a sua própria geografia.”

“O que não disseram ainda as palavras é o que empreita o poeta Lúcio Ferreira”, afirma Vital Corrêa de Araújo.

O passo do artista é o do balanço dos galhos sobre o vento, a voz reverbera o canto dos pássaros pululando sobre os cajueiros, e neste diálogo o poeta é só contemplação.

“Eu também vim sem palavras
 malho meus ombros
 nos frutos mais altos
 Canso o prazer
 o corpo extenuo”

A fazer poético de Lúcio Ferreira o acompanha na prosa, como não poderia deixar de ser, e ele nos aconselha:

Deixemos, portanto, que a Natureza desenhe sua própria geografia, e que nossa interferência seja a menor e a mais prudente. Só assim, talvez, consigamos entregar às futuras gerações “O Mundo que cabe em nós”.

Para Lourdes Sarmento, a poesia dele é tão gigante como o espaço físico que ocupa.

“Revisitar a poesia deste pernambucano é revisitar o seu universo quase pleno, o espaço de seus vôos, seu estado cósmico, sua alma tecida de dor e de busca, de sonhos desencantados.”

Lúcio tem olhar de coruja, a perscrutar os caminhos do ser:

Em meus olhos
o futuro de planta
Miro o distante
à frente exposto
e me envolvo em transparências

Bisa o olhar a estrada

a das raízes
das hiléias
a das sementes
das palmeiras

Por qual das duas irei?

 

Alhures da Primavera (inédito)

Ao debruçar-se sobre a obra do poeta, conclui Fátima Quintas:

“Assim, a palavra imagística tem a capacidade de reformular o mundo através de símbolos que embelezam o circuito ontológico. O universo sensorial capta a realidade para ressignificá-la em dimensões outras: o jogo da imagem cristaliza a dialética do olhar, do ouvir, do saborear, do inspirar. Essa exacerbação de sentidos representa o caminho percorrido pelos românticos e pelos aficionados à bela arte. A frase pensada. O parágrafo meditado. A vírgula deslocada. O travessão oportuno. O parêntese arrematador. O silêncio misterioso. “ (2008, A Epifania Poética).

Com entusiasmo, Lourdes Sarmento comenta:

“Com a poesia pulsando no coração, Lúcio é uma das melhores vozes poéticas nestes últimos anos. Começou a publicar depois de um longo caminhar e não teve receios de abrir seu peito ao canto que nos enleva e afaga as tatuagens da vida”.

Ao mirar a figura alta e curvada do poeta, é possível identificar sua semelhança com frondosa árvore, capaz de frutificar infinitas possibilidades construídas nas marcas da face, no branco dos cabelos, na cumplicidade de sua sempre “filhinha”, a grande companheira Elsa, a quem homenageia nesse maravilhoso poema:

Meus apelos

E se fores
chamarei quem?
A ninguém interessaria meu clamor
e entre as palavras
nada a ouvir restaria

Existe um novo grito
temor recente em meus apelos
Sou tal o ópio
que vicia encanta
constrói a morte
com um vagar  de sombra

É adorável te chamar
e saber que vens
e trazes a tia e a solução
e se em mim nunca mais houver um grito?

E se perderes a voz e o canário
ainda que subsista a canção?
Por isso te chamarei
até que se perca a primavera
entre os seixos
de meus olhos

A esse grande que não perdeu o encanto da criança, ofereço meu louvor:

A tua palavra são gestos antigos de tradições esquecidas nas linhas do tempo.  É sopro de luz, brilho de fonte, é parto de lua nas reticências dos sonhos. Perene, mansa, como há de ser quem sabe das coisas cá de dentro. Sem alarde, gritos ou delírios no exercício do sentir. A voz suave, amiga, que ecoa na intimidade do ser, às margens de um rio cereal. Guia que pastoreia os perdidos de volta para casa. O teu verbo é oráculo, sacro ofício no meditar de quem se sabe um pouco antes da chuva. Não apenas a palavra, mas teu jeito poeta de ser. Que transformou a poesia numa coisa prática e diuturna, conciliou o texto com os atos, tomou o comportamento do poema, como se ele fosse o guia, a busca e o grande encontro, realizando a equação – a própria vida. A fusão do poema com o poeta. Para a alegria de Deus.

 

Bibliografia:

  • Um Olhar para Cada Coisa. Recife: CEPE, 1999
  • Exercício do Sentir. Recife: CEPE, 2000
  • As Duas Extremidades da Luz. Recife: CEPE, 2001
  • Linhas do Tempo (Hai-Kais). Recife, CEPE, 2002
  • Uma Porta para Dentro da Pedra. Recife, Ed-micro, 2003
  • As Reticências dos Sonhos. Recife: Ed-micro, 2003
  • Estas Coisas Cá de Dentro. Recife: Bagaço, 2004
  • Um Pouco Antes da Chuva. Recife: Novo Horizonte, 2006
  • Epitâlamios para Elza. Recife, Ed-micro, 2008

 

VIRGINIA LEAL, escritora, integrante do Grupo Literário Celina de Holanda e UBE.


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