Jussara
Salazar

Depois
das certezas*
por José Castello
Livros são espelhos. O
ato de ler é, quase sempre, o ato de projetar perspectivas, visões,
intenções, pensamentos sobre um texto. A literatura mediana
é opaca, nela se lê só o que é dito, e nada
mais. A literatura de qualidade é especular, nela mergulhamos
não para topar com uma superfície, mas para nos afogar.
Ela desafia, e não se cansa: nos pede mais e mais interpretações,
mais e mais perguntas. Não tem superfície, mas profundidade.
E exige a nossa ousadia.
Essas idéias me vêm
à mente durante a leitura de Natália, livro de
Jussara Salazar. Um livro delicado, escrito com a elegância dos
contos de fadas, em que prosa e poesia se mesclam para servir às
perguntas que Jussara não para de fazer. Livro que toca as profundezas,
mas que, como medida de humanidade, se apega ao humor, expresso já
na nota primeira, registro da história da tia-avó Natália,
que fugiu com um tenente e nunca mais voltou.
Os poemas narrativos de Jussara
lidam com temas difíceis e os pegam no contrapé. Promovem
o desequilíbrio, invertem nossas crendices. A morte, por exemplo,
é tomada como um evento cheio de repercussões e, portanto,
como parte, elemento da vida. “Um morto é quem mata o outro
morto”, está dito em “Redemunho”. No mais,
estamos todos vivos. Em “A porta dos sonhos: Luce Bakun”,
ela, diante do artista morto, deitado e com o corpo coberto de borboletas,
reflete: “Se ele resolvesse levantar, poderia dirigir-se até
à porta ser engolido pela serpente da vida”. A vida não
deixa de ameaçar, é ela que apavora. Medo dos vivos, não
dos mortos.
Jussara é apaixonada pela
etimologia, pela escavação cuidadosa da origem das palavras,
e do amálgama de sentidos que elas _ como segredos _ carregam.
Palavras não são letra morta, como se diz. Ao contrário:
transportam vida nesse embate de significados, em que uns (pelo uso,
pelo comodismo, pela moda, sobretudo) predominam, enquanto outros escapam
pelos ralos. E há sempre muitos mais a descobrir.
É uma luta crucial, e sem
fim, que confere vigor às palavras, mas na qual há também
muito humor, muito jogo e aventura. É com esse espírito,
de disponibilidade para sentimentos surpreendentes, que Jussara Salazar
escreve. Barroco? Eu seu posfácio, o uruguaio Victor Sosa afirma
que Jussara é “neobarroca”. Bem, há um cortejo
de anjos, santos, almas assombradas que circulam por seus poemas-relatos.
Há, para usar (com muito receio e paciência) a expressão
de Sosa, uma “proliferação da palavra e a diamantização
da mesma”. Mas Jussara não chega a isso _ ela parte disso.
Ela não escreve para produzir efeitos, ou para engendrar êxtases
lingüísticos, ou reconstituir trilhas retóricas perdidas.
Há muita coisa a mais em seus poemas, que ela escava, paciente,
com esse manipular da palavra. A palavra _ como em Cabral _ faca.
Ela mesma ri da suposição
barroca, como está em “Barrocoque das 3 salamantas”:
“polindo ferrugens pingentes ninharias e nesgas”, escreve.
Polindo palavras, mas não para gozar com seu brilho, não
para o deslumbramento e a ornamentação; como dizia Francis
Bacon, não o filósofo, mas o pintor, nada pior que o ornamento
e o enfeite; e sim para cavucar. É verdade, ela inventa palavras,
reinventa, joga com elas (por que não?) e também se refestela
com o exercício do português antigo. Mas isso é
só a partida.
Jussara não faz como a
mãe de “Gladíolos anéis, a partilha”,
sentada ao lado do espelho: “Penduricalhos sem valor roçam-lhe
as ancas na seda que a criada estica sobre o banquinho de veludo”.
Não, sua prosa-poesia não é afetada, não
é chique, nem falsa; as palavras não são penduricalhos
que manipulamos e torcemos e cujos estertores exibimos _ como entre
os “neobarrocos”. A poesia de Jussara Salazar está
além desses jogos de salão.
No poema, fábulas. Delicadezas,
miudezas, singelezas _ exatamente como na pintura de Jussara Salazar
(que une a literatura com as artes plásticas, e é sempre
uma artista só e a mesma). Contos de fadas _ mas com o sarcasmo
que eles sugerem e merecem: “Gordota rainha ela marcha faminta
a cauda do vestido arrasta aguarda o primeiro ministro, um rato em casaca”.
Nunca uma coisa só, mas sempre outra coisa também. Coisas
diferentes ocupam o mesmo lugar. Atrito _ e, portanto, possibilidade
de leitura. Etimologias: feridas expostas.
Alfonsin, “o menor homem
do mundo”, apesar da aparência de circo, é filósofo.
“Ao final da vida tinha a pele inteiramente preenchida por minúsculos
mapas tatuada por indecifráveis códices segredos da hermenêutica
cobrindo-lhe todo corpo”. Devorado pela filosofia? Engolido pelo
que lê? “Registra-se porém ter sido ele el menor
mor filósofo que existiu”. Gozo da palavra, ridículo
da palavra. Grandeza e insignificância. Poesia e prosa _ tudo
junto, as fronteiras explodidas. Jussara sabe a gravidade da ferida,
mas não perdeu o dom de rir de tanto sangue. Por que excluir
sentimentos?
É que, em sua escrita,
algo se passa para além não só das normas, mas
das interpretações. “Obsoleta lei a do relógio”,
ela escreve em “Fardo”. Acima de tudo, sempre o sol, como
em “Miçangas: caligrama de um escriba morto”. O monge
um dia quis ser o rei. Mas, diante dele, a bacia com água reflete
o “ouro círculo solar que enlouquecendo cega até
o monge, cega até el rei”. Todos, monge e rei, leitor e
poeta, submetidos a algo que os ultrapassa. E que os rege. Não:
nenhuma metafísica! Jussara Salazar se limita a jogar com as
ilusões metafísicas, talvez para indicar sua inutilidade,
sua ineficácia na nomeação do que nos vence. Porque
a poesia (a arte) tem a ver com isso: com o inalcançável.
Aponta para o perdido.
Também as palavras _ que
parecem tão bem manipuladas nas mãos melindrosas de outros
poetas “da palavra” _ aqui, em Jussara, experimentam o próprio
fracasso. Ela ri de Galactita, que tem as mãos repletas de anéis
e “adora poemas modernos, abstrações”. Ri
do jogo da poesia e das pretensões do poeta. Retorce-se para
verificar aquilo que, em sua escrita, falha. Pior que o corvo de Edgar
Alan Poe são os cinco mil corvos (todos bem vivos e antipoéticos)
que Jussara viu (viu?) sobre as árvores da alameda principal
de Aix-en-Provence, no inverno de 1996. A vida _ diante da qual a poesia
vacila.
É como está na terceira
alegoria: “Golias sou eu./ Ergo sem triunfo a minha própria
cabeça/ e minhas cicatrizes./ Meu olhar, vivo resiste”.
Para além do troféu, a existência. A beleza da poesia
de Jussara Salazar está nessa declaração de impotência.
Ela atravessa a vida, ri de seus desastres e faz, da impossibilidade
da vitória, sua escrita. Da impossibilidade da nomeação,
sua grandeza. (FIM)
*Texto sobre o livro
Natália
JOSÉ CASTELLO é escritor e crítico literário.
JUSSARA SALAZAR
Poeta, artista plástica e designer, nasceu em Caruaru, Pernambuco,
e vive no Paraná. Publicou em 1999 “Inscritos da casa
de Alice”, “Baobá”, poemas de “Leticia
Volpi”, (2002), “Natália” (2004)
e Coloraurisonoros (Buenos Aires, 2008).Tem sua poesia publicada
em várias revistas como: Tsé-Tsé (Argentina),
Chain (EUA), Rattapallax (EUA), Suplemento literário
de Minas (Brasil), Galerna (EUA/Espanha), Mandorla
(México) Babel (Brasil), Cultura & Ciência
(Unicamp, Brasil) Sibila (Brasil), Revista Continente,
Caderno Mais! (Folha de São Paulo), Poesia Sempre
(Biblioteca Nacional), Mar com Soroche (Chile), entre outros.
Faz parte das antologias “Na virada do século”
(2002) “Passagens”, Poesia Contemporânea
no Paraná, Imprensa Oficial do Paraná, (2002) Invenção
Recife, (2004) Poetry Wales, (País de Gales, 2004),
Relicário Latino, Antologia de poesia latina, (Rede Mercocidades,
2004), Revista Continente, (Imprensa oficial de Pernambuco),
Literatura Brasileira Hoje, (Publifolha 2004). Integra a Antologia
Comentada da poesia brasileira do século XXI, organizada
por Manuel da Costa Pinto (Publifolha) em 2006. Em 2007 participou do
Poetry Readings: A celebration of Verbal and Visual Culture
in Latin America (King Juan Carlos I of Spain Center, New York
University, EUA). Atualmente edita a revista eletrônica de arte
e literatura Lagioconda7 (http://www.lagioconda.art.br)
e a coleção livros da casa 7, Poesia das Américas.