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Deborah Brennand

 

“Lembrou a humildade dos cães
entregando, na caça, um vôo de ave” 1

por Márcio d'Oliveira

Era uma sala engastada de quadros campestres, sóbrios, contemplativos – grandes até, considerando estarmos em um apartamento como qualquer outro: um pedaço de branco cercado de arestas por todos os lados. Harmônicos, os matizes de azul, amarelo e verde desciam da pintura aos olhos como a luz transpassa a janela, trazendo a tênue dúvida se aquela varanda dava mesmo para a praia de Piedade ou não. Já em outras salas, seria mais comum encontrar paisagens modestas, compradas no hall de shoppings e hiper-mercados, cópias acessíveis de retratistas esforçados. Havia algo, enfim, naquele ambiente que o fazia tão similar aos demais a ponto de, neste mesmo passo, torná-lo único e irreproduzível. Maior, diria. Como um jambeiro entre centenas de outros verdejando em um bairro pacato de Fortaleza. Mais um jambeiro, porém o jambeiro arroxeado da casa de minha avó

Neste dia, reconheci em corpo e matéria quem eu divisara em alguns poemas dispersos e relidos à exaustão. Vi neles tanto a limpidez repentina na margem turva do riacho, quanto a clareza frágil e justa do brilho solar consigo reencontrando-se na face da lua jacente: achei neles alguém que muito facilmente conquistou minha simpatia com uma escritura tão simples e direta quanto seu próprio timbre de voz. Mas deixemos a estilística para um outro momento.

Antes deste dia, eu só lhe havia sido formalmente apresentado no lançamento de dois curtas-metragens baseados em sua vida e obra. Foi – no mínimo – curioso ver em minha frente, alguns poucos minutos depois dos filmes, a mesma jovem senhora mostrada no projetor, como se alguém tivesse dado cabo a meu intento infantil de recortar da tela os seres bidimensionais da televisão. Ela ria e falava como uma criança riria e falaria – com expressões faciais minuciosamente exageradas, agigantadas, enérgicas, maravilhadas. Parecia-se mesmo com as imagens sintéticas e expansivas de alguns de seus versos. Nas rápidas palavras que trocamos neste primeiro momento, vi cores em suas roupas e seus gestos, quase todos emblemáticos, recorrentes e plenos de uma simbologia muito particular. Mas deixemos a teoria literária para outro dia.

Assim que ela adentrou na sala de seu apartamento, pude ter consigo a entrevista que norteou muito de meu projeto acadêmico. Durante esta, notei em suas colocações acerca de literatura, bolos, família e topografia pernambucana a ênfase em certos interesses, certas paixões – um catálogo aberto de padrões rítmicos e equações concisas. Além disto, vi, cruzando com a sua, as sombras de outros artistas – tanto pernambucanos, quanto britânicos, gregos ou provençais. Enfim, um leque extenso de diálogos e confluências. Mas deixemos a análise temática para outra hora.

Principalmente, o que me chamou a atenção foi sua naturalidade em lidar com seu trabalho literário, como se este fosse mais um dos afazeres cotidianos e íntimos que se devem finalizar antes do fim do dia: tão urgente 2 quanto regar as plantas, arrumar a mesa ou lavar os pratos. Entre publicações, reconhecimentos e ostentações, ela prefere o fundo da gaveta e a varanda da fazenda. Couberam-lhe de bom grado os louros nos concursos de melhor mula da região dos quais ela participou – e tal lhe é suficiente. Logo de vista, tudo isto me pareceu um enorme alívio, dados estes tempos em que se falar de metáforas e quiasmas em um poema ou variar versos em quatro, cinco línguas diferentes é a lei de mercado acadêmico. Como se exibicionismo intelectual fosse estepe para talento e originalidade. Muita declinação e pouco sangue.

Mas agora não é tempo para ensaios ou críticas literárias. Passemos para algo que importe mais neste momento: divulgar nua e cruamente a poesia de Deborah Brennand. Eis aqui um exemplo de sua produção que escusa toda e qualquer apresentação:

O sol caiu no açude
                     igual a um javali
                     eriça pelos de luz.
                     Vai às águas fundas.
                     Depois flutua em juncos.
O seu dourado focinho.
                     As nuvens não ligam,
                     ficam longe, arredias,
                     as folhas se amoitam
                     em sombras infiéis.
Alguém diz:
                     - Está ali a presa, atira,
                     suja o juncal de sangue,
                     no amanhã escuro
                     dos beirais do charco
surgirá a caça morta.
                     - Nunca, é só engano.
                     O sol não dorme.
                     Cai outra vez no açude.
                     Vai em águas fundas
e novamente flutua eriçado de luz.

(O Javali)

 

1Dois primeiros versos do poema Cadafalso, de Deborah Brennand.
2Aos desavisados de plantão: isto não foi irônico.

 

 
Deborah Brennand, nascida em 1917 no município de Nazaré da Mata, pertencente ao estado de Pernambuco, a poetisa freqüentou o ensino básico, médio e superior – este, porém, inacabado – na capital Recife. Contudo, foi no Engenho S. Francisco que ela viveu grande parcela de sua vida adulta, trabalhando como empresária rural, fato este marcante para os contornos mais basilares de sua imagética bucólica e delicada. Afeita a encarar a poesia muito mais como um hábito natural e espontâneo, por muito tempo preferiu manter sua obra literária na intimidade – sossegada e distante dos ruídos do prelo. Porém, foi convencida pelo marido e artista plástico Francisco Brennand, pelo romancista Ariano Suassuana e pelo poeta César Leal a publicar, em pequenas antologias, os poemas que ela teimava em esconder. A crítica especializada considera-a, desde então, uma das maiores poetisas nordestinas de sua geração.

Livros publicados: O Punhal Tingido ou O Livro das Horas de D. Rosa de Aragão (1965), Noites de Sol ou As Viagens do Sonho (1966), O Cadeado Negro (1971), Pomar de Sombra (1995), Claridade (1996), Maçãs Negras (2001), Letras Verdes (2002), Tantas e Tantas Cartas (2003), Poesia Reunida (2007).
 

 

MÁRCIO D'OLIVEIRA é teresinense de nascença, fortalezense de infância e recifense de passagem, é poeta, contista, fotógrafo amador, graduando em Letras - Crítica Literária (UFPE), tradutor e professor de língua francesa. Teve publicados o ensaio O mito português de Inês de Castro na visão de três poetas brasileiros no livro Saudades de Inês de Castro, o poema Afrodite e Eros na Mostra Literária da V Bienal de Arte, Ciência e Cultura da União Nacional dos Estudantes e o posfácio De Resgates e Louvores na coletânea de Deborah Brennand, Poesia Reunida.

 

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