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Terêza Tenório
A musa roubada

 

 

"uma autora em sua busca da beleza..."

Flávio Chaves*

 

Pernambuco tem sido alma e cenário da Poesia. Desde os tempos dos famosos contrapontos de Castro Alves e Tobias Barreto no Teatro Santa Isabel toda a nossa História transcorre a partir de uma lírica especial que se irradia em múltiplos aspectos. Leia-se a Prosopopéia de Bento Teixeira e recorde-se a permanência do baiano Gregório de Mattos em nossa terra, para muitos considerado o verdadeiro fundador da literatura brasileira, por já fazer uso de uma linguagem oral que não se confundia com a do colonizador. Veja-se a importância de um Olegário Mariano, um Manuel Bandeira, um Ascenso Ferreira, um Mauro Mota, um João Cabral de Melo Neto, para lembrar só esses.

A partir dos anos sessenta, surgiu um grupo de artistas em nosso Estado que ficou conhecido como a Geração 65. Embora não tivessem uma plataforma ideológica ligada a manifestos, conservavam muita coisa em comum, embora cada qual tivesse seu próprio caminho, sua própria aptidão. Lembro quando tive com eles o primeiro contato, envolvido que estava com manifestações coletiva de poesia, como a Primeira Chuva Poética do Recife, quando poemas impressos foram distribuídos desde os ares por helicópteros, ou a Primeira Caminhada Poética do Recife, quando atravessamos a cidade à luz de velas declamando poemas para uma platéia que se incorporava à nossa caminhada.

À Geração 65 , divulgada por César Leal e batizada por Tadeu Rocha, pertence Terêza Tenório. Sua poesia desde o início se caracteriza por uma facilidade de trânsito pelo contemporâneo derivado das vanguardas, uma lírica com traços simbolistas e experimentais, que sempre representou muito bem a produção pernambucana. Editada pela Civilização Brasileira e pela Filobiblion, entre outras casas editoriais do sul do país, observa-se ao longo da trajetória de Terêza o profissionalismo que destaca aqueles que consideram o poema como missão, como tarefa a realizar na terra, como método estético de união entre os homens.

Este volume permite verificar-se o processo de criação literária de uma autora em sua busca da beleza, clássica ou transgressora, assim como a revisitação de alguns personagens de nosso cotidiano, que findaram por constituir-se parte da nossa história. Permite igualmente contemplar-se os vários caminhos de um mesmo texto, as diversas vestes e versões de que se pode revestir a magia das palavras.

A Companhia Editora de Pernambuco, nesta nova linha editorial que valoriza a criação literária do povo da nossa terra, aliada à repercussão que ela vem tendo no cotidiano da universidade, tem a satisfação de trazer a público este livro completamente inédito de Tereza Tenório, organizado pela escritora e professora do Curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco Lucila Nogueira, juntamente com o graduando Wellington de Melo, que realiza uma bela tradução ao espanhol dos poemas. A atividade integra os trabalhos do Grupo de Estudos Mulher e Literatura, fundado por Luzilá Gonçalves Ferreira e ao qual também pertence o conhecido professor Lourival Holanda.

Para nós é importante esse registro, decorrente do conhecimento da produção acadêmica da UFPE que deve e merece ser divulgada pois se constitui na memória cultural da nossa gente. Para o leitor, um brinde que oferecemos, um produto estético da melhor qualidade, estes belos versos inéditos de A Musa Roubada da poetisa Terêza Tenório

*FLÁVIO CHAVES é membro da Academia Pernambucana de Letras, UBE – União Brasileira de Escritores e, atualmente, é presidente da CEPE – Cia. Editora de Pernambuco.

 

 

A MUSA ROUBADA:
O PERCURSO E A GÊNESE

Wellington de Melo*

 

Quando conheci a poesia de Terêza Tenório apaixonei-me quase que imediatamente. A força de sua lírica arrebatou-me de tal modo que a necessidade de entendê-la levou-me a estudar a sua obra. Poder participar junto com Lucila Nogueira da organização destes poemas inéditos de Terêza me traz uma satisfação indescritível.

Depois de algum tempo pesquisando a sua obra, tive acesso a seu arquivo, generosamente cedido pela autora, e comecei a verificar que vários escritos seus ainda estavam por publicar, seja por falta de interesse de Terêza por trazer à tona estes textos, seja porque não houve uma oportunidade de encaixá-los em obras anteriores, sempre muito bem estruturadas e definidas após inúmeras versões nas quais a autora eventualmente inclui, retira ou muda a ordem dos poemas, o que nos faz lembrar o rigor cabralino ao compor seus livros. A qualidade dos textos me fez pensar quão injusto seria mantê-los calados, longe dos olhos dos leitores ávidos da poetisa. Enquanto continuava com minha pesquisa, começou a germinar a idéia de reunir aqueles escritos em uma edição inédita. Após algumas conversas com a acadêmica Lucila Nogueira, que dispensa apresentações, a idéia tomou corpo e o rascunho do projeto, com seu toque sensível e seu cuidado, transformou-se em realidade.

E eis que chegamos ao novo livro de poemas inéditos de Terêza Tenório. E o ineditismo da obra se vê sob diferentes aspectos.

Em primeiro lugar, e mais uma vez graças à generosidade da autora, pudemos incluir diversas versões de seus poemas, com as observações feitas enquanto realizava a pesquisa sob a ótica da crítica genética, na qual nos propusemos a analisar o processo meticuloso da poetisa, seguindo as teorias de Philippe Willemart. E é que não se deve entender que aqui o processo suplanta a obra, pois, como nos lembra Cecília Almeida Salles, o estudo do processo de criação de um autor só ocorre porque a sua obra é tão importante que sentimos a necessidade de entender o percurso que foi traçado até a obra final, se é que uma obra se basta ou se conclui efetivamente. Ora, a obra desta poetisa, uma das representantes mais importantes da chamada Geração de 65 pernambucana, dispensa qualquer palavra em defesa da sua importância.

De qualquer forma, decidimos manter as notas originais da pesquisa, menos tentando esgotar toda a análise destes escritos do que buscando ser fiéis às descobertas feitas entre páginas manuscritas e versões digitadas repletas de anotações. Com isto, naturalmente, evitamos cansar a autora com enfadonhas consultas. Desta forma, as notas de rodapé que acompanham alguns poemas e suas versões foram feitas ainda no silêncio dos manuscritos, durante o mágico processo de descoberta da génese dos textos teresianos.

Em segundo lugar, é a primeira edição bilíngüe de Terêza Tenório. Embora já tenha sido traduzida anteriormente, até o momento não havia Terêza publicado um livro com versões de seus poemas tal como nos propusemos nesta edição. Durante a tradução, preferi o ritmo a ater-me a uma metrificação que encarcerasse o texto – se é que isso é possível com uma lírica poderosa como a de Terêza. Com esta edição abre-se a possibilidade para os falantes hispanos apreciarem a poesia desta autora pernambucana, dona de um estilo particular que já se inscreveu entre as grandes letras brasileiras.

Em "A musa roubada", nono livro de Terêza Tenório, vislumbramos poemas impregnados de uma carga simbólica particular que beira o enigmático:

Via o dia o índio torto
Via à tarde a madrugada
Via a musa em seu rosário
a louca no seu martírio

Como é natural, percebemos nesta obra o traço característico da poética teresiana: as imagens aquáticas. E é que em Terêza a poética dos elementos, tão cara a Bachelard, encontra eco nas cristalinas águas que servem não só de espelho, mas como a própria base de sua criação, ou na violência do mar em seu eterno retorno, como é característico ao mito:

As ondas do mar são carícias
Os temporais de iluminam
Eu sou a frágil candeia
do mar do norte
                                    tão líquida

Ou ainda no poema "Águas", que vai além da obviedade e se apropria do próprio ritmo melancólico das profundezas aquáticas do ser:

As águas me comovem como Deus
seu último ir e vir
Apenas os olhos negros da noite
Seus cabelos de sombra
                          vêm e vão

E nessa melancolia mergulhamos no tema teresiano da perda através do belo poema "Os dias se vão", cujas várias versões apresentadas nesta edição constituem um verdadeiro diálogo no qual temos a rara oportunidade de ver a luta da verborragia da dor contra a ocultação, da simplicidade auto-biográfica contra o refinamento do fazer literário, da angústia elegíaca contra o comedimento. Isto para não falar dos poemas em que identificamos uma faceta pouco usual em Terêza, como em "Fila" ou "Atores".

"A musa roubada" é, sem dúvida, um presente que Terêza Tenório nos oferece mais uma vez, de modo que nos resta agora o deleite com sua leitura, pois esperar é o mesmo que morrer.

Recife, Agosto de 2007

*WELLINGTON DE MELO é escritor, graduando em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco.

 

 

A MUSA ROUBADA POR TERÊZA TENÓRIO

André Cervinskis*

 

O livro A Musa Roubada, organizado por Lucila Nogueira e Wellington de Melo, é um perfeito tratado sobre a criação poética ao longo da carreira de uma das mais conhecidas e aclamadas – nacional e internacionalmente – poetas da Geração 65 de Recife: Tereza Tenório. Os organizadores tiveram o cuidado de apresentar ao público as diversas versões de um mesmo poema – ou seriam vários poemas a partir de um só? - como é o caso de Os dias se vão, que não tem nada menos que oito versões. Vejamos o exemplo dos primeiros versos desses três poemas: Ora, amigo, viver é necessário/ e o tempo ai está/ para nossa fruição (OS DIAS SE VÃO, p. 42); Ora, amigos, viver é necessário/ e a vida nos requer/ não mais do que/ uma palavra de perdão (OREMUS/OS DIAS SE VÃO – IV versão, p. 50); Ora, minha irmã, vivi o necessário/ e a vida nos requer/ muito mais do que uma palavra de perdão/ Lá as árvores são um milagre/ crescendo todos os dias suas folhas adormecidas (O NECESSÁRIO/OS DIAS SE VÃO – VII versão). Trabalhando as palavras, a autora vai modificando a semântica do texto, acrescentando sempre novas leituras poéticas, todas igualmente válidas.

Há uma busca incessante da perfeição lírica por parte de Tereza; para ela, nada é imutável, nada está acabado, tudo pode resultar numa nova criação. No poema Águas, por exemplo, embora repita os mesmos versos iniciais, os últimos são modificados, gerando um efeito metafórico diferente e não menos forte a cada alteração: As águas me comovem como Deus/ Seu último ir e vir/ Apenas os olhos negros da noite/ Seus cabelos de sombra/ vêm e vão./ Ó senhores dos tempos/ dos cães que vêm e vão e vão/ para todo o sonho/ para todo o sempre/ o vau (p. 66); Ós senhores dos tempos/ vêm e vão e vão e vão para todo o sonho/ para todo o sonho/ para todo o sempre (II versão - p. 68); Ó senhores dos tempos/ dos cães que vêm e vão/ para toda a realidade/ para todo o sempre ao vau (III versão – p. 70). A respeito da ressemantização das palavras em Terêza Tenório, Nelly Novaes Coelho afirma: Com um domínio seguro do corpus verbal que lhe serve de matéria (estabelecendo, entre as palavras, ritmos e correspondências sonoras um essencial equilíbrio de forças), a poeta constrói nesta sua poesia conhecimento sob o signo de uma polaridade que se dissolve na certeza da unidade fundamental e oculta do universo (CORPO DA TERRA, p. 14)

Como nos revelou o poeta Alberto da Cunha Melo em apresentação ao livro POEMACESO, em relação à obra da autora, é difícil encontrar um só verso que não esteja comprometido com o motivo central do amor, e raro o poema em que a palavra amor não compareça com toda a sua carga e o seu sortilégio emotivos, com toda a força de um delírio obsessivo. Essa busca pelo lirismo refinado e elegante, mas não menos ardente, encontra-se também no A Musa Roubada, poema que dá nome à antologia: O teu amor é meu porto/ Minha paixão o que me guia/ Em teu vôo cardeal/ além de todos os rostos/ Além de todos os fogos/ Além de todos os ritos (p. 26).

Entre as performances da linguagem e os delírios estéticos do amor, Terêza não esquece os desprestigiados de nossa sociedade e lança uma crítica ao sistema patriarcal-capitalista com os seguintes versos: Os homens são atores/ cujo discurso/ decorre/ de um sistema autofágico (autofálico)/ de poder/ e eu aqui relembrando minha lavadeira/ dona Maria/ que ainda em jejum/ me trazia a roupa passada/ fazendo-me admirar a brancura/ dos meus lençóis perfumados (ATORES, p. 62)

Mas “roubaram a musa”, restando somente a técnica? Não. A Musa Roubada apresenta uma perfeita sinergia entre forma e poiesis, estética e lirismo. Pois, como afirma Fábio Lucas em prefácio ao CORPO DA TERRA, a poesia de Tereza Tenório não é fruto exclusivo da linguagem natural, não se circunscreve à expressão de valores ancestrais da alma, nem representa o poder do discurso coletivo. Antes, delimita o seu raio às propriedades do lirismo, da manifestação individual, e se engolfa na tradição pós-romântica do primado do “eu” existencializado, fatalizado pelas contingências. O “eu” predisposto ao calvário do amor agônico, questionador do relacionamento inbtersubjetivo. Refletindo o processo disciplinadíssimo de criação da poeta por meio de sua ação empírica, qual seja: trabalhar a palavra como ritual, reverenciada com sacralidade, no gesto de escrever e reescrever, Lucila Nogueira e Wellington de Melo nos presenteiam com o livro que se poderia considerar a síntese da poesia tereziana.

REFERÊNCIAS
BEZERRA, Jaci (org). Geração 65: o livro dos 30 anos. Recife: FUNDARPE/ FUNDAJ, 1998.
LUCAS, Fábio. in TENÓRIO, Terêza. Corpo da terra. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro – Recife: CELPE, 1994.
NOGUEIRA, Lucila. Apresentação. in TENÓRIO, Terêza. Fábula do abismo. Recife: Edições Bagaço, 1999.
________________. Poemaceso. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985.
________________. Corpo da terra. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro – Recife: CELPE, 1994.
________________. in SIQUEIRA, Elisabeth Angélica Santos (org.). Retratos – a poesia feminina contemporânea em Pernambuco. Recife: Bagaço, 2004.
MELO, Wellington José de. A atmosfera mítica e a recriação do mito contemporâneo em Terêza Tenório (comunicação). In: I COLÓQUIO DE ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS, Recife: Departamento de Pós-graduação em Letras, 2006.
TENÓRIO, Terêza. A musa roubada/ organização de Lucila Nogueira e Wellington de Melo. Recife: CEPE, 2007.

*ANDRÉ CERVINSKIS é escritor, ensaísta e Mestrando em Lingüística – PROLING-UFPB

 

 


TERÊZA TENÓRIO
(Francisca Terêza Tenório de Albuquerque)

Nasceu no Recife, a 30 de dezembro de 1949, filha de Maria José e Ranulfo Tenório de Albuquerque. Fez seu curso preparatório no Colégio Nossa Senhora do Carmo, no Recife. Em 1972 concluiu o curso em advocacia na UNICAP. Chegou a cursar o primeiro ano de Belas Artes. Em 1980, a poetisa cursou Mestrado de Letras e Teoria Literária. Seus primeiros poemas foram publicados pelo poeta César Leal no Suplemento

 
 

Literário do Diario de Pernambuco. Publicou nove livros de poesias entre os quais POEMACESO, que recebeu os prêmios de 1985 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro e indicação para participar da mostra realizada no Porto e no Valongo em 1994, através do projeto CumpliCidades dos Governos de Portugal e do Brasil. Detentora do Prêmio de Poesia Dramatizada da Fundação de Cultura da Cidade do Recife em 1992, foi considerada Autora do Ano de 1999 pela Editora Universum de Trento-Itália. Colaboradora de jornais e revistas oficiais e alternativos, nacionais e estrangeiros, participou de antologias poéticas na França, Itália e Portugal, essa última comemorativa dos quinhentos anos de descoberta do Brasil da Revista Semestral de Cultura ANTO. Homenageada pelo Projeto Poesia 96 da Secretaria de Cultura de S. Paulo. Foi Diretora de Cultura e Eventos da União Brasileira de Escritores de Pernambuco, é sócia das UBE's do Rio de Janeiro e São Paulo, além do Sindicato de Escritores do Rio de Janeiro, da IWA - International Writers and Artists Association de Bluffton, USA, das Academias de Letras e Artes do Nordeste do Brasil e Internacional de Literatura e Artes e Sociedade de Poetas Vivos. Integrante de movimentos contra a violência, divulga a poesia através de recitais.

OBRA POÉTICA

PARÁBOLA, Recife: Ed. Imp. Universitária, UFPE: 1970.
O CÍRCULO E A PIRÂMIDE. São Paulo: Ed. Quíron, 1976.
MANDALA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
POEMACESO. Rio de Janeiro: Ed. Philobiblion, 1985.
CORPO DA TERRA. Rio de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro, 1994.
TREZE POETAS DA GERAÇÃO 65: 30 ANOS. (org.) Recife: Espaço Pasárgada/Fundarpe/Sec. de Turismo da Cidade do Recife, 1995.
POEMAS DE TERÊZA TENÓRIO in Cadernos de Poesia n. 6. Geração 65. Recife: Fundarpe, 1996.
FÁBULA DO ABISMO. Recife: Bagaço, 1999.
A CASA QUE DORME, Recife: Livro Rápido, 2003.
A MUSA ROUBADA, Recife:CEPE, 2007. (organização de Lucila Nogueira e Wellington de Melo)
  

 

 

Outros poemas de Terêza Tenório, Flávio Chaves, Wellington Melo e André Cervinskis no Cardápio de Poesia

 

outras publicações:

Lúcio Ferreira

Maria de Lourdes Hortas

Valmir Jordão

Jussara Salazar

Deborah Brennand

Silvio Hansen

Junior do Bode

Marcos D'Morais

Miró

Graça Graúna

Bruno Candéas

Almir Castro Barros

Odile Cantinho

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Cícero Belmar

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