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Almir Castro Barros
ESGRIMA DE ACUPUNTURAS*

por Delmo Montenegro

Ardentias? Por que Ardentias? Por que escolher esta palavra tão preciosa, tão rebuscada, tão em desuso na nossa língua para nomear um livro tão atual? Vemos o uso desta palavra ser comum entre os poetas do século XIX – exemplos não faltam – observem poemas como “No Mar” (Álvares de Azevedo), “O Navio Negreiro” (Castro Alves), “Olhos de Sonho” (Cruz e Sousa) e “As Ondas” (Olavo Bilac). Em 1885, o poeta parnasiano Vicente de Carvalho (1866-1924) estréia com um livro justamente chamado Ardentias. Será que o livro de Almir Castro Barros funcionará em relação àquele como uma espécie de duplo ou negação? Que enigmas carrega este título?

Ardentias são fosforescências-do-mar, minúsculos plânctons cujo brilho – produzido no interior de seus organismos – transforma a visão do mar à noite num espetáculo de luzes, num fluxo trêmulo e difuso de estonteantes epifanias. Falar de ardentias é falar de um lugar comum da poesia marinha, mas falar de ardentias é também dar uma imagem perfeita do encantamento produzido pela poética de Almir Castro Barros.

Uma poesia que lança, ao líquor dos nossos olhos, microscópicos organismos fugidios, flores de luz, rasgos de toda uma existência condensados em nanosegundos. Seus poemas são explosões de cristais no momento exato da fratura, Almir detém o segredo de uma ciência exata e profunda, uma esgrima de acupunturas: “O destino deu-lhes / As alfândegas do fim. // E peregrinos, / De cais em cais / Restou de seu / O encanto da imprecisão.” (Desencontro); “E quando Deus a eles perguntar / - Impressionava o que dizia / E dele nunca me falaram? - // - Quisemos tua paz. / Ele tinha um pudor de desvãos / E ao falar tudo retirava / Dali -. // - Errou, / Preparando-se para um pequeno povo / Da beleza -.” (Acadêmicos); “Relembra isso, / No tempo – a cavoucar: // Pôde e não se deu / A ganhos febris. // Destinado, / Semeou lanternas / A melros perdidos. // Em toda a vida / Fez crepitar fornalha / Ou, / Pouco importa, consumiu-se / Aduaneiro.” (Sem Rastro); “Perdi o pai / Com lágrima luminosa / Na ladeira dos olhos. // Dardejante e sumido foi ficando / Entre as brumas de um vapor. // A mãe / Nos braços de ninguém fechou-se ao ar / E pequenino adormeci / À sua mão diáfana recostado / Com os sonhos de nós dois. // Uma casa de céus eu quis, entanto / 'Tudo o que amei amei sozinho'.” (Allan Poe).

Entretanto, existe uma outra acepção para a palavra ardentias. Ardentias enquanto ardência, calor das chamas, uma luz que fere, uma luz só lâmina. Ardentias enquanto Samhara, o signo hindu da destruição. Shiva Nataraja, o Senhor da Dança, dançando ao redor dos círculos de fogo da Prabhamandala. Almir Castro Barros traça assim suas ardentias políticas. Pontos luminosos no céu: os bombardeios maciços sobre Baghdad; pontos luminosos no corpo: as torturas e humilhações na prisão de Abu Ghraib. Pontos cruciais de nossa história. Com estes pontos, Almir Castro Barros inaugura um novo gênero: uma poesia pontilhista de combate.

Em cada poema, um Seurat em tempo de guerra: “Para os que mentem / És a última incandescência / Da cor / No melhor ouro. // Para alguns ainda / A eternidade, / Ou, de horas renhidas / - Metrôs pontuais. // No entanto / - Fastio que depura - / Só a mim permites / A voz da edificação / De tua completa intimidade, // Como falésia e silêncios / Em rumorejo / Pelos despenhadeiros.” (Liberdade – Nas exéquias do pior Bush); “Dezembro não se desvencilha / Das formigadas ruas de agonia / E fingimento. // Este não seria o tempo / De você perder o trem dos imigrantes? // E outra vez mandar o seu poema / Aos surdos dele, / Verdugos que em dezembro / Choram?” (Robert Frost); “É velha de séculos / A história: uns amoedarem / Noutros / O seu lado de flor e lágrima / Pelas finitas ruas de águas verdes. // Eu digo / - Não cresce meu estado traidor, / Se enxergo luz no ar de esfumeadas / Aves, ou rio quando inventam Alpes, / Os bois na sugidade. // E apronto-me / Da amplidão para o mínimo: / Contra sombras, e o silêncio, E a lavoura de falsos / Hinos.” (Não às misérias do lucro).

Avessas ao óbvio do discurso panfletário e da fábula denuncista, cada uma destas ardentias oferece uma forma de resposta para a questão: É possível fazer poesia política nos dias de hoje? Almir Castro Barros nos responde trabalhando com elementos mínimos, micro-reflexões semânticas que se traduzem sob o signo da recusa, armando sutilmente toda uma trama de resistências éticas: “Uma vida voada / A fazer dos olhos / Portas do céu, // Via nos gigantes / Miniaturas do não.” (Seu Nome?); “Passaram, e com eles / meus pés de ave além dos cadeados. // Na parede de ar / se não os toco // riem pra mim nesse caminho // duro.” (Os velhos); “Cresce o tempo de fitá-las, / E nada fazem aqui estas senhoras. // Como em estranha feira, / Algaraviam // Ante livros / Desacarinhados e sozinhos / - No que escondem.” (Feira do Livro).

Não enxergo nesta poesia o espírito das “madeleines” proustianas, a escrita de Almir é uma escrita viril: “À sombra de musgosa ruína, / Ou lepra verde. // Um homem ali madorna / Sob ralo madapolão: / Tinta e papel de sua história. // Dizem dele – pensou / Pensou até agora / E no rosto não continha, / Feito embolados vidros, um despenhadeiro / De curtas águas.” (Desgraça à Noite pelo Recife). Sua escrita jamais desvala para um impressionismo paralisante, mesmo nos momentos mais líricos, solares e abertos – contudo, eles são vários: “Sei da alegria – instante em cativeiro / Ou o pó da eternidade. // Ouro e sol / Enxergo de manhã / - Laranjas na neblina. // Sou eu que defendo vaga melodia / Para acordar mendigo / E penso no amor / Dia após dia. // Lerdos dicionários / Digam de poente o que a mim defina.” (Poentes); “Ferreiros descompassados / Por vermutes de ira, / Foram. // E lembrar / Impõe uma ginástica do riso / Onde o pranto / Quer.” (No Final); “Eles comem do meu coração / O melhorzinho: // A valsa no ar dos galhos / A tinta do infinito / Sobre perdoados morrendo / A lágrima sem pranto de casas partidas / A cidade aonde se vai faminto / A arte em verde e leite / Dos mamoeirinhos ocos. // O time desses pensamentos / Há de parar – / Com isso.” (Merencórios). Sempre existe um desvio de percurso, no instante último, sobre o fio de aço que reafirma do poder de criação do funâmbulo. Sempre existe a assinatura perene de uma arte que caminha sobre os abismos.

Almir Castro Barros há muito superou os seus congêneres. Em Pernambuco, só podemos compará-lo a nomes como Carlos Pena Filho, Joaquim Cardozo ou César Leal. Nunca em relação aos medianos, apenas em relação aos grandes. O que lhe falta de reconhecimento deve-se apenas à sua própria índole, pouco afeita a espetáculos. Almir dedica-se com todo rigor as esgrimas da palavra, num tempo outro que não o dos humanos. De que outra forma, senão esta conseguiríamos explicar como, em apenas cinco linhas, um poeta pode ser mais vasto que todos os romances:

Retrato de Parede

Lembro de minha mãe
Que mantinha poços secos
Entre os muros das clavículas
E o resto do corpo era sertão.

 

DELMO MONTENEGRO é poeta, tradutor e ensaísta. Autor de Os Jogadores de Cartas (2003) e Ciao Cadáver (2005). Editor, junto com os escritores Fabiano Calixto, Marcelino Freire, Micheliny Verunschk e Raimundo Carrero, da revista de literatura ENTRETANTO.

*Prefácio do livro Ardencias de Almir Castro Barros (Edições Bagaço - Recife 2006)

 


Almir Castro Barros nasceu na cidade de Maraial, município pernambucano, a 13 de agosto de l945. Filho de Aubry de Lima Barros e Maria de Lourdes Castro Barros, ambos falecidos.

Do nascimento até os 14 anos de idade residiu em Floresta dos Navios, São José do Egito, Sertânia e outras cidades do Estado de Pernambuco, em vista do trabalho itinerante do seu pai, na qualidade de Agente de Estatística do antigo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, órgão público federal.

A partir de 1960 veio residir no Recife, a fim de trabalhar e concluir

 
 

os cursos ginasial e secundário (agora conhecidos por Ensino Fundamental e Médio). Formado em Direito pela Unicap, tendo graduado o curso no ano de 1974.

Publica seus poemas desde a década de 1960, no Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco. Vários de seus poemas foram também, publicados pelo Jornal curitibano “Rascunho”.

Tem trabalhos seus publicados em diversas revistas de cultura e antologias, com destaque para NOR destinados, Dicionário bibliográfico de Poetas Pernambucanos, Álbum do Recife – 450 anos, Antologia Didática de Poetas Pernambucanos, Revista Encontro, do Gabinete Português de Leitura, Revista 58/ UBE/ PE, Pernambuco – Viagem à Estética do Tempo, Treze Poetas da Geração 65/ 30 Anos, patrocinada pela Fundarpe e Secretaria de Turismo da Prefeitura do Recife, 46 Poetas – Sempre, livro por ele organizado, a pedido da Editora Bagaço-PE. Participou ainda, de uma Antologia de poetas brasileiros, traduzida para o idioma francês, sob a orientação e organização da Escritora Lourdes Sarmento.

Atualmente, o Poeta Almir Castro Barros, vem escrevendo ensaios literários, publicados pelos jornais Diário de Pernambuco e do Commercio.

Pai dos filhos Pedro Ernesto Luna de Castro Barros e Mariana Luna de Castro Barros, fruto de sua convivência com a querida Kilma Luna de Castro Barros, ao longo de 32 anos.

Autor dos seguintes livros, todos de poesia: Estações da Viagem e Os Cães da Sina, editados pelas Edições Pirata, em 1975 e 1979, ambos esgotados. Ritmo dos Nus e O Lugar da Alma, impressos pela Cepe, em 1993 e 1998. Um Beijo Para Os Crocodilos é um livro inédito, mas acabado desde 1987. Pelo reduzido número de poemas que o compõem, nele foram incluídos 17 títulos, distinguidos na obra como Novos Poemas, escritos entre 1995 e 1997. Além destes livros, o autor publicou 21 poemas, na série Geração 65 – Cadernos de Poesia, no ano de 1995, por iniciativa do então presidente da Fundarpe, escritor e amigo Raimundo Carrero.
  

 

Confira alguns poemas de Almir Castro Barros e Delmo Montenegro na seção Cardápio de Poesia

 

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