por Felipe Casado*

Em um dia chuvoso, daqueles que
servem de inspiração para qualquer poeta, tive o imenso
prazer de conhecer uma pessoa que carrega no olhar a serenidade de anos
de intensa devoção ao hábito de escrever. Claro
que já a conhecia e também já havia estudado um
pouco de sua biografia, mas pessoalmente me encantei ainda mais com
a escritora Odile Cantinho.
Aqueles expressivos olhos azuis
não me deixaram dúvidas de que eu estava diante de uma
das grandes escritoras pernambucanas.
Odile nasceu e foi criada no Recife,
no bairro da Boa Vista, em um tempo em que os grandes casarões
permitiam maior liberdade às crianças. As árvores
carregadas de frutas, o contato com os animais, as brincadeiras infantis
são lembranças que a escritora carrega até hoje
em sua memória e são algumas das inspirações
durante o seu processo criador. “Quase todos os meus livros trazem
coisas da minha infância”, ressalta. “A casa que eu
nasci era muito importante para mim. Era uma casa enorme, com um terreno
enorme, muitas fruteiras, era quase um sítio. A gente plantava,
mamãe criava galinhas, eu comia muito sapoti, manga, goiaba...
tinha muita coisa gostosa.”
O prazer pela leitura e pela escrita
surgiu cedo, mas as primeiras produções começaram
por volta dos dezesseis anos, graças ao estímulo de seu
pai, que gostava muito de literatura. “Meu pai gostava muito de
poesia também. Ele declamava, eu achava muito bonito, ele também
me ensinava a declamar e a fazer trovas ainda menina”. Odile relembra
os primeiros contatos com a poesia: “Meu pai achava muita graça
quando eu escrevia os meus versos sem rima e dizia: ‘minha filha,
isso não é verso!’ mas para mim era, era poesia
pura que eu tinha dentro de mim”.
Apesar de ter estudado no colégio
para ser professora, e inclusive ter feito estágio, a escritora
não seguiu carreira profissional. “Meu pai não queria
que eu me profissionalizasse. Ele dizia sempre assim: ‘enquanto
eu for vivo, filha minha não trabalha’”. Ela terminou
se casando com um rapaz que serviu de inspiração para
o seu primeiro poema adolescente. Com ele teve um casal de filhos.
Após uma viagem ao Rio
de Janeiro com sua filha, já havia escrito bastante e resolveu
então fazer um livro, que foi intitulado “Poemas”.
Daí por diante não parou mais.
Atualmente, Odile Cantinho se
dedica diariamente ao prazer da literatura, não se limitando
apenas à poesia, pois escreve também contos, crônicas
e o que lhe der vontade. Até mesmo aquilo que não deu
certo inicialmente costuma ser reaproveitado. A autora nunca desperdiça
o que escreve, sempre guarda pois tem o hábito de remodelar o
que não teve uso anteriormente. E normalmente esses achados a
surpreendem.
Durante nossa descontraída
conversa, a escritora me arrancou risadas ao contar algumas de suas
divertidas histórias, que servem de inspiração
para a elaboração de suas crônicas. O segredo de
tanto entusiasmo pelas letras está na leitura cotidiana, que
lhe permite manter-se informada sobre todos os assuntos. Aliás,
a modernidade é algo que a atrai bastante, inclusive na hora
de escolher os autores. Ela prefere, por exemplo, a leitura de contos
atuais, os mais antigos ela utiliza como estudo. “Eu gosto de
uma literatura mais simples, mais corriqueira, mais fluente. Inclusive
eu acho que escrevo com muita simplicidade. E assim eu acho que deve
ser”, completa.
Despedi-me, então, dessa
grande mulher, com a certeza de ter aprendido que um autor se engrandece
a cada dia, alimentando-se do novo, mas nunca permitindo que os alicerces
antigos entrem em ruínas. Dessa forma se mantém a essência
do tradicional, mas com gostinho de novidade.
FELIPE
CASADO é Jornalista, estudante do Curso de Letras e
bolsista do Projeto de Iniciação Científica da
Universidade Católica de Pernambuco - Pibic / Unicap, sob a orientação
da professora Elizabeth Siqueira. felipe_casado@hotmail.com
BEM-AMADA
Luminosa,
deixa um brilho de Natal
nas coisas que toca.
Em bolas de aljôfar
todo o verde transforma
Esfuziante e nua
desce sensual
úmida e coleante.
Mulher,
em horizontal se põe
entrega-se espraia-se
desliza
deixa-se sugar
absorvida
liquefeita deglutida
perfeita e desejada
bela e gloriosa
bem-amada: CHUVA.
(Odile)
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ODILE CANTINHO é poetisa, cronista, ensaísta e artista
plástica, nasceu em 26 de fevereiro de 1915, na cidade
do Recife. Estudou no Colégio Pritaneu e fez o Curso Normal
no Colégio Nossa Senhora do Carmo. Redigiu programa semanal
na PRA8 (1948/1952) sob o pseudônimo de Liane. Colaborou
com o Suplemento Feminino do Diário de Pernambuco com crônicas,
por alguns anos. Participou de diversas antologias entre 1993
e 2004, dentre elas Corpo Lunar, Presença Poética,
e Retratos. Foi premiada com o terceiro lugar no
Concurso de Contos de Araçatuba (SP, 1989), com O Sonar,
Menção Honrosa, com O Muro, em Paranavaí,
PR, em 1991. É sócia da União Brasileira
de Escritores UBE-PE, da Academia de Letras e Artes do Nordeste
Brasileiro, da Academia Recifense de Letras, da União Brasileira
de Trovadores. Sócia honorária da Sociedade de Médicos
Escritores (SOBRAMES), Grupo Literário Celina de Holanda
e artista plástica cadastrada na Arte Maior desde 1996.
Obras
da autora: Poemas (1979); Poemas (1980); Horas
extras (1982, contos); O Máximo de amor possível
(1986, contos); Hecatombe da vitória (1988, ensaios);
Louvação a Hermilo Borba Filho
(1994, ensaio); Reflexões (1995, pensamentos filosóficos);
Thargélia Barreto de Menezes (1996, panegírico);
Histórias da carochinha em sete versões Diferentes
(1996, contos); Vila Cantinho (1996, ensaio); Madrugada
(1997, crônicas); O Rio que Sonha ser Lago (1998);
A Lapinha e outras Fábulas (2001, fábulas);
Crônicas brincantes (2004, crônicas); Shalom
Miriam (2004, ensaio).
Fonte:
Pernambuco, Terra da Poesia
Organizadores: Antônio Campos e Cláudia Cordeiro
Editora Escrituras - Recife 2005
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