por Maria Alice
Amorim*
foto: Maria
Alice Amorim
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oitenta
anos de poesia, almanaque e xilogravura
Eleito patrimônio vivo de Pernambuco no início do
ano, José Costa Leite comemora 80 anos esta semana, com
festividades na Paraíba e em Pernambuco. Nascido em Sapé,
Paraíba, radica-se na Mata Norte pernambucana no final
da década 30. Vive do cordel e da xilogravura desde os
anos 40 e a partir de 1960 publica um almanaque popular. Portanto,
sessenta anos de testemunho vivo é o que oferece José
Costa Leite, com o conjunto da sua obra. |
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Imersa num mundo rural –
universo cultivado por histórias fantásticas, maravilhosas,
cantadas e narradas em viva voz – a infância de um poeta
poderia ter sido apenas uma infância poética e nada mais.
O que já seria muito! Entretanto, foi intuitivamente imbuído
de um éthos e graças ao talento para a literatura
que José Costa Leite, escritor de versos de cordel, xilógrafo
e astrólogo amador, saiu da condição de leitor
alfabetizado pelas letras da poesia tradicional e entrou desde muito
jovem no mundo da criação artística. A chave que
liberou o acesso para os segredos dessa língua da poesia foi
justamente o viver à vontade em meio a tradições
culturais, antenas sintonizadas com a sensibilidade do dizer a vida
em versos, pintar em palavras esta paisagem antropológica.
Nascido no mundo rural da década
20, Costa Leite não freqüentou nenhum dia de escola, alfabetizou-se
no mesmo ambiente onde morava, aprendeu o suficiente para criar autonomia
em saberes disponíveis apenas aos iniciados no letramento, o
que significou, por exemplo, inventar histórias em versos escritos
e publicá-las, expandir-se nos segredos da astrologia e editar
o Calendário Nordestino. A primeira metade do século
passado foi prolífica no que diz respeito à edição
de folhetos e almanaques populares, à presença de folheteiros,
poetas e propagandistas no meio das feiras livres, ambiente rico em
performáticos vendedores de um tudo, inclusive das artes da palavra.
Recife era pólo de produção e de distribuição,
para todo o Brasil, da literatura de cordel. E Costa Leite estreou exatamente
vendendo, declamando e escrevendo os livrinhos, em 1947, numa espécie
de avant-première do que viria a ser no desfiar destas
seis décadas: autor de um bocado daquelas histórias, celebrado
na condição de atuante escritor, xilógrafo e “rei
dos almanaques”.

Os primeiros cordéis são
desse mesmo ano de 1947, chamavam-se Eduardo e Alzira –
“uma historinha de amor” – e Discussão
de José Costa Leite com Manuel Vicente, cujo tema era “se
não casar perco a vida” (Costa Leite) e “eu morro
e não caso mais” (Manuel Vicente). O primeiro almanaque
foi feito em 1959, para o ano de 60, e chamava-se, àquela época,
Calendário Brasileiro. As primeiras xilogravuras são
de 1949, para os folhetos, de própria autoria, O rapaz que
virou bode e a Peleja de Costa Leite e a poetisa baiana.
Os primeiros cordéis, escritos dois anos antes, não tinham
ilustração de capa, apenas os letreiros. Mas, para além
de todas estas rememorações, há muito mais: Costa
Leite, andarilho das tradições, é testemunho vivo
de sessenta anos de peregrinação por feiras e mercados
de Pernambuco, Paraíba, Ceará. Costa nasceu em 27 de julho
de 1927, ou seja, 80 anos com vigor físico e disposição
suficientes para enfrentar pelo menos duas viagens por semana: a Itambé
e Itabaiana, na segunda e terça-feira, respectivamente, a fim
de comercializar os folhetos que faz. Xilogravura não leva, pois
o público das gravuras de parede está muito mais nas galerias
de arte do que ali, no meio dos bancos de feira. É de Sapé,
na Paraíba, radicado na Mata Norte pernambucana desde o final
da década 30. A partir de 1955 estabeleceu-se de vez na cidade
de Condado.
foto:
Maria Alice Amorim

o poeta com seu banco de cordéis
na feira de Itambé/PE
Voz imortalizada, na década
70, em três LPs gravados no Conservatório Pernambucano
de Música, nos quais deixou registradas grandes histórias
de cordel, Costa Leite já cantou muito na feira da cidade onde
vive e na vizinha Goiana. Atualmente continua indo, sozinho, de madrugadinha
e em transporte coletivo, vender folheto em Itambé, cidade pernambucana
em que o outro lado da avenida principal é Pedras de Fogo, Paraíba.
São duas cidades, dois estados numa mesma geografia, espécie
de síntese da vida do poeta. Assim que se encerra a feira, por
volta do meio-dia, segue para Itabaiana, Paraíba, dorme lá,
e, dia seguinte, passa a manhã cumprindo um ofício que
exerce há seis décadas. Cantava e vendia bem nas feiras.
Ainda dá voz a uma ou outra estrofe. No final de janeiro, em
Itambé, recitou e cantou trechos de folheto da própria
autoria, O sanfoneiro que foi tocar no inferno, mais alguns
versos de O Navio Brasileiro, clássico de Manoel José
dos Santos. Infelizmente não atraiu quase nenhum comprador, embora
vários camponeses tenham parado diante dos livrinhos, expressando
visível alegria por encontrar ali um pedaço da infância.
No serviço da indústria
açucareira, José Costa Leite trabalhou em tudo: plantou
cana, cortou cana, limpou cana, foi cambiteiro. Cambista, mascate, camelô
de feira. Vendia remédio, vendia folheto, vendia pomada, andava
com serviço de som. Também foi agricultor: plantou inhame
durante uns trinta anos em Condado, mas se sentia tão explorado
que terminou deixando. Morou em Sapé até os três
anos, foi viver em Camutanga, Pernambuco, onde ficou até os dez.
Depois permaneceu cerca de um ano em Caldeirão, Paraíba,
e mudou-se em 1938 para Goiana, vivendo daí por diante em Pernambuco.
Na verdade, Costa Leite foi criado em terras pernambucanas, onde já
viveu pelo menos 75 anos dos 80 completados em julho. Freqüentador
assíduo da capital desde os primórdios da profissão,
vem semanalmente ao Recife entregar originais ou receber as edições
produzidas na editora Coqueiro. Viajava muito a Olinda, entre os anos
70 e 90, quando editava os folhetos na Casa das Crianças, instituição
bancada pelo marchand Giuseppe Baccaro. Tem, também, folhetos
impressos na editora Tupynanquim (Fortaleza, Ceará), do poeta
e artista gráfico Klévisson Viana. Entretanto, independentemente
de quem as imprima, todas as publicações autorais recebem
o selo A voz da poesia nordestina, de José Costa Leite.

A Farinhada - xilogravura de Costa Leite
Autor inventivo, é dotado
de imaginação prodigiosa, facilidade de construir imagens
poéticas e senso de humor. Escreve diariamente. Criou pelejas
fictícias com importantes personagens do mundo da cantoria de
viola e da poesia popular, como Preto Limão, Severino Borges
Silva, Patativa do Assaré, Ivanildo Vila Nova. Tem vinte títulos,
recentes, publicados sobre Lampião e Antônio Silvino. Escreveu,
há pouco, catorze exclusivamente sobre o enfezado Seu Lunga,
sete dos quais já editados. De inéditos, tem o folheto
Peleja de Lino Pedra Azul de Lima com Maria Roxinha da Bahia,
o livro Saudade do meu sertão, e um outro de versos
fesceninos, que pretende lançar sob pseudônimo para, segundo
ele próprio, não manchar a reputação do
restante da obra, inclusive o almanaque. Por isso, em alguns títulos
usa o codinome H. Renato, H. Romeu, João Parafuso, Seu Mané
do Talo Dentro, Nabo Seco. Da nova leva dos de safadeza, nos quais predominam
a picardia e as palavras de duplo sentido, escreveu A velha do tabaco
cheiroso e o velho dos ovos grandes; A mulher da coisa grande; A pulga
na camisola; O banho da praia; O matuto que se amigou com uma vaca;
A mulher é como louça, lavou, enxugou, tá nova.
Aventura, peleja e discussão, exemplo, safadeza e putaria são
alguns dos temas preferidos.
Como acontece a diversos autores
de cordel, o talento de José Costa Leite não fica restrito
à escrita. É ele quem desenha e talha, na madeira, as
ilustrações de capa dos próprios folhetos. Conforme
tradição dos gravadores populares pernambucanos, que se
iniciaram a partir da experiência com a poesia, aprendeu sozinho
a arte da gravura, vendo uma matriz do poeta e xilógrafo Inácio
Carioca. Seguiu o exemplo daqueles que fizeram escola na xilogravura
de cordel: os artistas Inocêncio da Costa Nick, ou mestre
Noza; João Antônio de Barros, ou J. Barros;
Severino Gonçalves de Oliveira, ou Cirilo; Severino
Marques de Souza Filho, o Palito. É esta a escola que
Costa Leite, J. Borges, Dila e Marcelo Soares seguem, porém com
traço próprio e estilo absolutamente singular. Em Costa
Leite, a composição dos tacos para capa de folheto é
feita, às vezes, com um busto individual ou de casal, à
maneira da fotografia de artistas de cinema muito usada nos cordéis
dos anos 50 e 60. Detalha as formas com minúsculos elementos,
sobretudo muitos rostos, sempre com sugestão de movimento. Às
vezes, desenha a partir de uma imagem ou fotografia que, inclusive,
já tenha aparecido na capa de folheto de um outro autor. O que,
nem de longe, desmerece a produção do artista. Ao contrário,
aponta para as apropriações e reapropriações
recorrentes no mundo da arte, não apenas da arte popular.
No campo da astrologia, Costa
Leite escreve o Calendário Nordestino. Baseia-se no
Lunário Perpétuo para tratar de inverno, lunações,
eclipses. Do Tarô Adivinhatório tira os decanatos. Do livro
de plantas medicinais extrai receitas e dicas para os cuidados com a
saúde e orientações sobre o uso de remédios
caseiros. Há, ainda, um manual de astrologia prática,
que consulta sempre. De todos estes materiais que utiliza, o mais tradicional
é o Lunário Perpétuo, escrito por Jeronymo Cortez
Valenciano, editado pela primeira vez no ano de 1703, e que faz parte
do repertório bibliográfico de almanaque de cordelistas
desde os primórdios destas tradições no Brasil.
Durante cerca de duzentos anos foi um dos livros mais lidos do Nordeste
brasileiro, por conter informações úteis ao homem
do campo, a propósito de fitoterapia, astrologia, agricultura,
metereologia. O almanaque de Costa Leite não é secular,
mas está quase atingindo a marca dos 50: já tem “49
anos de publicação pelo amador de astrologia e ciências
ocultas”. Para 2007, Costa fez tiragem de mil exemplares e não
tem mais nada em estoque. A distribuição vai a todos os
estados do Nordeste, ao Rio de Janeiro e São Paulo. Para o ano
de 2008, o almanaque já está no mercado.
Dotado de inspiração
generosa, perdeu a conta de quantos livros editou. Não tem a
menor idéia da quantidade de histórias que fez chegar
a leitores e ouvintes, além dos muitos manuscritos inéditos
que aguardam a vez. Entretanto, as feiras não rendem mais como
antes, pois “caiu de moda”, segundo o poeta. Claro que o
problema não é com a fluência do verso, é
com as vendas. Incontestável também o fato de que o gosto
pelos cordéis, almanaque e xilogravura tem conquistado outros
públicos, e cada vez mais chega ao circuito de salões
e galerias de arte. O que, de modo algum, é ruim. Em 2005, nas
festividades do ano do Brasil na França, Costa Leite teve oportunidade
de conhecer Paris, onde participou de uma exposição de
xilogravura e cordel. Foi a Gravelines, lá ministrou oficina
de gravura, visita guiada e inscreveu seu nome no livro Du marché
au marchand: la gravure populaire brésilienne, organizado
pelo brasileiro Everardo Ramos, numa edição do Musée
du dessin et de l’estampe originale de Gravelines. Está
no livro Charlemagne, Lampião & autres bandits –
histoires populaires brésiliennes, Éditions Chandeigne,
de Paris, maio de 2005, com as xilogravuras feitas para o folheto Viagem
a São Saruê, de Manoel Camilo dos Santos. São
apenas dois exemplos recentes do que vem aparecendo em publicações
espalhadas pelo mundo. Além, claro, das jornadas renitentes do
incansável José Costa Leite, mesmo com o baixo retorno
financeiro das andanças pelas feiras e da precária distribuição
dos diversos títulos que lança a cada ano.
Incansável andarilho das
tradições, amante das ciências ocultas e das artes,
assim vai o poeta, expandindo-se, pedindo licença a outro poeta
para passear pelo mundo fantástico, mágico da criação
artística, pelo mundo de São Saruê.

*MARIA ALICE
AMORIM é jornalista
linguadepoeta@yahoo.com.br
Confira a poesia de José
Costa Leite na seção Cardápio
de Poesia e outro texto de Maria Alice Amorim
na seção Figura
da Vez
Todo o material desta
homenagem pertence ao acervo da jornalista