por Lucila Nogueira**

Essa maneira de olhar de forma
aguda para além da imagem e do sentido usual das coisas tem sido
a marca do poeta ao longo dos vários séculos do tempo
cronológico. Essa compreensão de que a expressão
verbal pode ser ultrapassada por uma linguagem que exceda os dicionários
e atinja soberana alturas hipotéticas flutuantes tanto do Everest
como do Himalaia, ao som de múltiplos sinos e mensageiros–do-vento
na magia sempre presente no cotidiano dos contos de fada. Essa palavra
incisiva a salvar do suicídio os possuídos dos apetites
míticos atravessados pelo poder que emana das figuras em seu
fatal direcionamento ao longo dos milênios, essa cumplicidade
silenciosa por sobre as águas da gruta misteriosa a refletir
o diálogo da caverna de Platão.
Poesia. Código perpétuo
de completa identificação. O sonho de comunicar calando,
de segredar revelando, pensamento e metáfora a atrair a terras
desconhecidos desde o pégaso da infância à mandrágora
subterrânea, do amor imaginário que dispensa a presença
física até aquele exaltado da fúria até
o êxtase pacificador. Os objetos/a linguagem/a vida.
Na denominação de
Wellington Melo, as coisas/a letra/o sangue.
Mundo fechado onde papéis
se acumulam / letra espiral / respira e se verte entre a linha do horizonte,
sangue e palavras retorcidas / e um nome derramado de rancor / do que
resta do nome, de novo luz/por trás do lábio inquieto
/ de novo luz / a navalha à luz retorna. Porque em mim repousa
/ o insensato e o incongruente / as paredes e eu: em algum momento /
que já não é o meu; estático / êxtase
/ estase; o real escapa à vista / à forma volta o sono
em volta envolto em pânico. Uma poesia que às vezes
necessita de referências espaciais, como em Casa Vazia na Rua
do Futuro: na solidão de um casarão vazio / morreu
um pedaço do meu passado / na Rua do Futuro / meu nome calado...
/ a cada foto apagada sorrisos mortos guardo: / obrigado, obrigado,
obrigado. Ou de evocações intimistas a antigas mestras
da infância: matematicamente Dona Mércia / enchia a
sala de ternura / Dona Júlia provava / cientificamente o amor
ao mundo. A letra bebe sangue, afirma, como que imbuído
do espírito analítico de Philippe Lejeune em O pacto autobiográfico.
A letra comparti-lhando o medo na ocultação: a cada
espaço a sombra de minhas memórias atônitas... /
faço-me ler mais no que não digo, palavra gargantilha
/ que aprisiona pensamentos / num tempo elíptico. / Ourives?
Palavra lâmina arde em brasa / pai / mãe / filha /
de ti mesma: queres ser menos / mas não te cabes. Porque
a letra essencial / perdeu-se na minha boca de menino / quando minha
mãe olhou para o outro lado.
Assim é a poesia de Wellington
Melo, grave, enxuta, no entrelugar do desespero e do êxtase, de
Apolo e Dioniso, da memória e da espera, do vazio e da viagem.
O amor da palavra entranhado na carne, poeta e mestre, naturalmente,
o dom e o preparo. Bem-vindo ao livro como letra impressa, Wellington,
que nada lhe acrescentará que já não tenha, mas
de cuja sina você não mais se libertará, nesse cotidiano
e mágico percurso iniciático. Abracadabra.
*prefácio do
livro O diálogo das coisas de Wellington Melo
**LUCILA NOGUEIRA
é Doutora em Letras pela UFPE, Professora do Departamento de
Letras da UFPE, poetisa e membro da Academia Pernambucana de Letras
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O
diálogo das coisas
Wellington Melo
O livro se divide
em três blocos denominados "O sangue" (de cunho
profundamente auto-biográfico e que revela uma dor profunda
quase inconfessável), "A letra" (em que o poeta
discorre sobre a beleza da palavra e o próprio fazer poético,
bem como dá pistas sobre as influências que permeiam
a sua obra) e "As coisas" (bloco essencialmente metafísico,
cuja epígrafe de Rilke denuncia ser uma viagem ao cotidiano
profundo dos objetos).
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Entre em contato com o autor através
do e-mail:
wjdemelo@gmail.com
Confira alguns poemas de Wellington
Melo e Lucila Nogueira na seção
Cardápio de Poesia