por Lourival
Holanda**
(...) a rua não é
só entre-lugar
e, na rua, os homens
não são sequer
portos de passagem
(Marcos de Andrade Filho. Passagem)
A despeito da dureza de desencanto
dos tempos atuais, é sempre uma satisfação ver
o surgimento da poesia. Assim é que recebemos a poesia de Marcos
de Andrade Filho: como uma profissão de fé na capacidade
de uma geração nova em apostar na crítica e construção
do sentido, vendo no verbo poético um capital espiritual.
Em alguns poetas atuais surpreende
essa ressurgência do poético (o termo tem uma
consonância feliz no mundo marinho: é o movimento de quando
as águas profundas sobem à superfície – nada
metaforiza melhor a persistência da criação na cultura).
Marcos faz parte de uma geração de jovens poetas que não
resolvem o descaminho destes dias duros pela paralisação;
uma geração que se resigna à não-significância.
Antes, eles parecem ir buscar na freqüentação dos
bons poetas do passado e da tradição recente, um lume
que opera essa ressurgência – e, ao mesmo tempo, essa insurgência
contra o nada iminente.
É sempre uma satisfação
ver elevar-se, contra os ares do tempo, uma voz que responde ao desencanto
com o canto. A poesia de Marcos Andrade canta as coisas simples, fundamentais.
No mais das vezes perdemos a atenção que essas ricas pequenas
coisas pedem: a realidade se apresenta sob muitas máscaras. Se
sou poeta/ fico íntimo das coisas! O maravilhoso fulgor
dos pequenos fatos fecundos – ainda que em dura reflexão,
como a que pede o poema Ecos da cidade. A mãe negra
acalenta a cria da miséria. A atenção do poeta
dói como uma mutilação:
A imagem ecoa impassível
sonâmbula quase
o silêncio monástico
da cidade demente
me fez mouco.
(Ecos
do Recife)
A insensibilidade social é
uma mutilação: perdemos a capacidade de ver sentindo
a miséria dos meninos magros que as mães pobres sustentam
a custo. (...) Já não ouvimos, se não com metade
de um ouvido distraído, dores e desencontros de nossos próximos.
Recife acabara de acordar...
ela também.
Percebi a criança em seus braços...
(Ecos
do Recife)
Certamente há sinais da
passagem de Bandeira, na forma mais crua: ontem e hoje, o denominador
comum ainda acusa a miséria das calçadas do Recife. Um
poeta contemporâneo passeia seu olhar sobre o cotidiano. Sua mirada
cobre as esquinas enquanto cobra uma atitude: é, segundo Marcos,
uma observ´ação. Ver é ser, de certa
forma, tocado pela coisa vista.
A despeito da cidade que me
ensurdecera
Mas o eco é um para-sempre.
A imagem ecoa.
(Ecos
do Recife)
Certamente essa é a mirada
da poesia moderna, desde Rimbaud. O sórdido da realidade social,
o absurdo de certa cegueira, o atroz de nossa impotência antes
o descalabro da paisagem social. E a ternura, a piedade, a compaixão
que move e remove o humano soterrando sua sensibilidade na rudeza da
vida diária.
Sinal dos tempos, sinal alentador:
o poeta conclama seus pares, os outros poetas, para compor um quadro
de resistência e criação. (Também, em Marcos,
sinal de seu tempo de freqüentação e aprendizagem,
ainda próximos). Em alguns momentos de versos confusos e relampagueantes
percebe-se a dificuldade em coordenar a seqüência de imagens
que sua atenção ao mundo desencadeia. É o desafio
da poesia moderna: buscar um tom que diga os descompassos de seu tempo.
Entre o peso da tradição e a atração do
transitório.
Há que admirar no jovem
poeta as tantas leituras formadoras, as interlocuções
fecundas. Uma geração poética se define por aquilo
a que se opõe, tanto como pela escolha de seus antecessores.
Percebe-se a presença de muitas vozes, em surdina, no diálogo
que a poesia de Marcos mantém com o mundo. No entanto há,
também, a coragem dizer a seu modo o seu mundo. A homenagem é
aqui, não repetição, mas transgressão da
dicção dos poetas anteriores. Em poesia esta é
a condição de continuar, com sucesso, seus sucessores.
(Do contrário, um poeta que tivesse mais erudição
que lucidez crítica e criativa seria como quem, próximo
ao sol, não se alumiasse mas tão somente produzisse sua
sombra). Ele recupera, num modo sincrético, a tradição
que escolheu. Cada vez mais, na modernidade, a criação
é uma síntese das leituras, dispersas ali, ao longo do
tempo – e tornada fecunda na forma inédita que o poeta
descobre. Desde a entrada, as epígrafes apontam o poeta como
leitor de seu tempo: de Baudelaire a Manuel Bandeira; de Drummond a
Lucila Nogueira. Marcos soube distribuir suas admirações
– um jogo perigoso que torna vulnerável o iniciante –
com a antídoto da ironia.
A incomunicação
parece ser o tema mais candente da poesia contemporânea. Daí
a constância, na poesia de Marcos Andrade, do tema da cidade moderna,
– Ah, essa supermáquina de fazer ninguém!
– sempre plena de poderes vivíficos e nefastos. As ruas,
os bares, os Shoppings são lugares de passagem, como as highways:
um não-lugar. Ali a ninguém cabe estar. Longe de ser um
nicho, um espaço de acolhida.
Eu sou o porto de passagem
E a fluidez dos líquidos que facilmente se moldam
(Não-Lugar)
Ubiqüidade e não-lugar:
o passado e o futuro estão vedados – e o presente é
o desconforto de saber-se exilado de si mesmo.
A rua é só entre-lugar
E, na rua, os homens
Não são mais sequer
Portos de passagem
(Passagem)
Onde a poesia é a pátria
possível, contingente e necessária.
Poesia de um tempo que dilui as
datas, os tempos fortes, como desconstrói a melodia anterior,
essa é também uma poesia que não se resigna a ter
perdido a esperança. Escrever um poema é ainda opor, à
anulação do esforço, à instalação
do caos, uma vontade de forma. Daí o frescor e a admirável
energia de certos versos de Marcos de Andrade Filho.
A solidão é aqui
povoada de fantasmas: Eu sou o e-mail que voltou. As vozes
anteriores que ecoam nos tantos modos de dizer o mundo, nas muitas câmaras
da cultura ocidental; e as vozes interiores, os fantasmas que acompanham
como sombras a parte soturna de nossos desejos abissais. A memória
de uma melodia embala o verso para o não-lugar: o bosque –
ele é que chama e dá abrigo à solidão, no
desnorteio da cidade esvaziada de sentido.
Dorme,Anjo!
Se essa rua fosse tua,
Ela voltaria a ser um lugar!
(Cantiga)
Um olhar, a mão que com
calor do coração acolhe a nossa, eis um lugar. O outro
é um abrigo, uma trégua no trevor do diário. Mas
há uma insurgência contra a nulificação afetiva.
Há algo hoje/ que se
põe simples e definitivo...
É essa saudade de ter de quem sentir saudades...
(Meditação)
Marcos é um poeta reservado,
esquivo. Quase refratário às cortesias dos corredores
acadêmicos, que mascaram mal críticas espinhosas, às
vezes deletérias aos jovens poetas. Um primeiro livro é
um ritual: um enigma luminoso. A poesia pede passagem. Há, neles,
uma tensão entre a vontade de viver e a difícil tarefa
de dar forma à vida num verso. Entre o desejo de perfeição
e a consciência de sua impossibilidade. Entre el poeta y su
palabra, entre la imagen y la relidad, hay siempre uma zona de ausencia
(Octavio Paz). Ele se questiona sobre o próprio ofício,
como um devotado amador da linguagem – a interrogante é
comum a muitos poetas modernos –
Não entendo –
muita vez
Como minha pena trabalha
(Problema
de inspiração)
Às vezes seu verso se adensa,
num ritmo de cabresto curto que dá ao poema uma força
singular, pela economia expressiva:
Enquanto as luzes da cidade
se apagam,
aproveito a noite
— enquanto noite há —
pois qualquer dia,
à luz do dia,
a
luz se vai.
(Poemeto
fugaz)
As imagens ora sinuosas ora sintéticas
apontam o cuidado com a busca da forma. Há tonalidades humorísticas
traduzindo leveza para assim depurar o trágico na vida. Em outros
momentos o poeta, na esteira segura de Jomard Muniz de Brito, convoca,
pelas relações semânticas, pelas ambigüidades
e dissonâncias, pelos signos de sugestão, a reação
do leitor – para despertá-lo da letargia da leitura. O
poeta moderno sente quanto é difícil dosar essas incursões
experimentais para que a sugestão de sentido não caia
na gratuidade da pirotecnia verbal.
Mas o humor é apanágio
da lírica moderna porque dá à linguagem poética
uma movimentação própria, pela ênfase coloquial
que requer resposta do imaginário do leitor, diferente da palavra
oracular, mais comum à poética dita clássica. No
mais, só resta remeter o leitor à poética de Marcos
de Andrade Filho, por sua inteligência no agenciamento temático,
pelo trabalho com o verso e pela destreza em negociar tradição
e inovação.
Recife, agosto de 2005
*prefácio do
livro NÃO-LUGAR de Marcos de Andrade Filho
**LOURIVAL HOLANDA
é doutorado em Letras (Língua e Literatura Francesa) pela
USP e professor de literatura da UFPE
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NÃO-LUGAR
Marcos de Andrade Filho
“Aberto
por uma “Cidade” e fechado por um “Não-Lugar”,
este livro permite que um jovem Poeta-Jovem passei por um caminho
em que se acentua ora a forma de “um camaleão no
arco-íris”, ora um som de “Diários Gritos”,
ora, ainda, a busca de originais imagens. A passagem por essa
viagem, sem dúvida, trará Marcos de Andrade a maturidade
das palavras de Rainer Maria Rilke: ‘é necessário
deixar cada impressão, cada germe de sentimento, amadurecer
em si, na treva, no inexprimível, no inconsciente essas
regiões herméticas ao entendimento. Espere com humildade
e paciência a alvorada de uma nova luz. Aos simples fiéis,
a Arte exige tanto como aos criadores”. Robson Teles
Edições Bagaço
- 2005
Preço: R$ 20,00 |
Entre em contato com o autor através
do e-mail:
marcos.de.andrade@gmail.com
Confira alguns poemas de Marcos
de Andrade Filho na seção Cardápio
de Poesia