por Bráulio
Brilhante*
Albert Camus pôs em circulação
um conceito que, para o insuspeito Álvaro Lins, seu primeiro
crítico brasileiro, representou um avanço sobre a sensação
de "náusea", de Sartre. A náusea sartriana seria
uma atitude estática, derrotista, enquanto a revolta camusiana
determinaria, dinamicamente, uma atitude geradora de conseqüências.
Para existir, dizia Camus, "o homem deve revoltar-se, mas sua revolta
deve respeitar o limite que ela descobre em si própria e no qual
os homens, ao se unir, começam a existir". Toda revolta
que se permite negar ou destruir a solidariedade perde o status de revolta.
Descontrolada, prisioneira de "furores adolescentes", a revolta
conduz apenas ao niilismo e à destruição. Conforme
ficou demonstrado em "Os Demônios", de Dostoievski,
a liberdade ilimitada leva ao despotismo ilimitado. Camus faz um inventário
do espírito insurrecional no plano metafísico, histórico
e estético. Sade, Karl Marx, Nietzsche (o profeta da justiça
sem ternura) e os poetas Lautréamont e Rumbaud são destaque
entre os revoltados pervertidos, isto é, aqueles que lutaram
para que os homens fossem mais lúcidos, livres e felizes, mas
acabaram criando ou facilitando a criação de sistemas
monstruosos de escravização humana.
Revoltar-se à sua maneira,
pois "revoltar-se", ele próprio admite, faz parte da
condição humana e nos ajuda a transcender, o poeta pernambucano
Jailson Marroquim também parece incomodar-se com as provocações
e argumentações de Camus. Tanto que não esperou
muito para colocar a bomba nas mãos do leitor, como em um "ato
reflexo" ou resposta às inquietações perturbadoras
do escritor francês. No seu livro “ATO FINAL”, recém
lançado, que reúne 64 poemas, três crônicas,
nove arremedos de hai kais e 14 composições musicais (algumas
foram colocadas à disposição dos jovens músicos
pernambucanos), o poeta controla sua ira, tal qual sugere o moralismo
burguês camusiano, consubstanciada e sublimada na lírica
do existencialismo, na sátira política e na poesia social
e libertária que lembra os arroubos dos românticos da Geração
Condoreira e dos seus principais próceres: Castro Alves, Tobias
Barreto Sousândrade. São exemplos: "Abolição
da Escravatura no Brasil", "Porralouca", "Hino para
a Nova República", "Olhai os filhos dos cantos"
ou "América Cafusa".
Em outro momento, cresce a influência
pela poesia de Lord Byron e Musset, filhos da segunda geração
do romantismo, ou "mal do século", impregnada pelo
negativismo boêmio, pessimismo, dúvida e desilusão
adolescente. Entre / as garras / das feras / e as feridas / das vítimas,
/ estupidez / e ranço / Se de um lado não há remorso
, / do outro não deve haver perdão" (do poema "Subsídio
para um júri popular, num futuro julgamento político em
praça pública"). Tais influências são
mais evidentes principalmente no seu aspecto formal, é bom que
se diga. Neste aspecto a literatura romântica apresenta-se totalmente
desvinculada dos padrões e normas estéticas do classicismo.
O "verso livre", sem métrica e sem estrofação,
e o "verso branco", sem rima, caracterizam a sua "poesia"
e antecipam, de certa forma, a ruptura dos modernistas com os padrões
clássicos e acadêmicos. ''E o caso dos poemas "Chumbo
Grosso", "O que não, o que sim", "Alienação",
"Pândega", "Cartão de Natal", Pequeno
comentário sobre o Terceiro Mundo", "Do ofício
e do ócio" ou "Cotidiano operário", só
para citar alguns.
Porém, se dos românticos
emprestou-se o formalismo, dos simbolistas, a realidade subjetiva, de
valorização do inconsciente e do subconsciente, dos estados
da alma, da busca do vago, do diáfano, do sonho e da loucura.
Ou mesmo da musicalidade, uma das características mais fortes
da estética simbolista que Jailson Marroquim parece trabalhar
incansavelmente em sua recente obra. Se vai obter sucesso isto é
lá com o leitor, mas a intenção não deixa
de ser um esforço de bom alvitre, ou seja, conseguir a sublimação
tão procurada e desejada pelos simbolistas (Cruz e Souza, Alphonsus
de Guimaraens ou Stéphane Mallarmé): a oposição
entre a matéria e o espírito, a purificação,
na qual o espírito atinge as regiões etéreas, o
espaço infinito, lírico. Neste caso, o eu poético
passa a ser o universo e não o eu superficial, sentimentalóide
e piegas dos românticos. Como tal, segue o poeta Jailson Marroquim
na sua busca perseverante da essência do ser humano, aquilo que
o homem tem de mais profundo e comum com todos: a alma. Pois, na imanência,
acredita o poeta, as palavras transcendem o significado e apelam para
a totalização dos nossos sentidos. "É noite
dentro de mim / Dentro o Sol declina / E minhas pálpebras / pesam
toneladas de sono" (do poema "Luz de vela nº 2 - Ocaso").
Por fim, os modernistas e seus
"parangolés" literários: a antropofagia e a
causa brasilis invadem a obra de Jailson Marroquim, com ou sem permissão,
involuntariamente, como a sugerir uma estreita ligação
entre o poeta e a escola. Aliás, é na influência
da poesia modernista, com Mário de Andrade, Oswald de Andrade,
Manuel Bandeira e Ascenso Ferreira (este último homenageado ao
lado de Socorro Trindad e Josué de Castro), que Marroquim melhor
traduz o seu riscado. "Eu pedi a Jurupari pra esculpir, / esmerar
teu corpo e te proteger / Eu pedi a Guaraci / - pai das índias
- / pra te crestar / Eu pedi a Jaci pra banhar-se / no orvalho / e respingar
nos teus olhos / Mas uma coisa não peço a ninguém,
a nada: / tornar-te mulher, / mulher da pele crestada" (do poema
"Moça morena"). Da bossa modernista aprendeu a questionar
com maior vigor a realidade e a si próprio, enquanto indivíduo,
em sua tentativa de exploração e de interpretação
do estar-no-mundo. "Vida multiplica vida / DOLARIZADA / DESALMADA
/ Na pátria-multi-amada-idolatrada / salve, salve-se quem puder!"
(do poema Espírito do Capitalismo"). O resultado é
evidente": uma literatura mais construtiva e mais politizada que
não quer e não pode se afastar das profundas transformações
do mundo contemporâneo.
*BRÁULIO
BRILHANTE é escritor e jornalista.
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VAZIO
Não falto, não
sobro
nem me encaixo
no tempo e no espaço
Não seco, não
molho
nem umedeço,
E N T R I S T E Ç O
TRANPARÊNCIA
Nada fica escondido
quando o Sol desperta:
A noite faz strip-tease
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ATO FINAL
Jailson Marroquim
Recife 2007
Bráulio
Brilhante, Marcelo Mário de Melo, Cida Pedrosa e Humberto
França assinam os textos de apresentação,
orelhas e posfácio da obra. |
Entre em contato com o autor através
do e-mail:
jmarroquim@gmail.com
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